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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Conspiração III - Presidente e senador combinam como intimidar o Supremo

Alexandre de Moraes, o alvo da hora: ministro virou alvo do bolsonarismo depois de ter mandado investigar membros da extrema direita fascistoide, aliada do presidente  - Rosinei Coutinho/STF
Alexandre de Moraes, o alvo da hora: ministro virou alvo do bolsonarismo depois de ter mandado investigar membros da extrema direita fascistoide, aliada do presidente Imagem: Rosinei Coutinho/STF
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

12/04/2021 04h59

A conversa entre Jorge Kajuru e Jair Bolsonaro vai por caminhos muito perigosos. O que vocês leram acima já caracteriza quebra de decoro do parlamentar e crime de responsabilidade do presidente. A coisa vai piorar bastante. Os dois passam a falar abertamente de ações de intimidação contra o Supremo.

Bolsonaro: Tem que, e acho que você já fez alguma coisa, tem que peticionar o Supremo pra botar em pauta o impeachment [de ministros] também.

Kajuru: E o que é que eu fiz? O senhor não viu o que é que eu fiz, não?

Bolsonaro: É, parece que você fez. Você fez para investigar quem?

Kajuru: O Alexandre de Moraes, uai.

Bolsonaro: Tudo bem!

Kajuru: Eu tenho de começar pelo Alexandre de Moraes porque o [pedido contra] Alexandre de Moraes meu já está lá, engavetado pelo Pacheco. Só falta ele liberar. Correto?

Bolsonaro: Você peticionou o Supremo, né?

Kajuru: Sim, claro! Eu entrei contra o Supremo. Entrei ontem, às 17h40.

Bolsonaro: Parabéns para você!

O senador, então, volta a implorar elogios do presidente. Bolsonaro responde:
"Kajuru, nós estamos afinados, nós dois. É CPI ampla e investigar os ministros do Supremo. Dez pra você. Pode deixar que, tendo oportunidade de conversar com a mídia, cito a minha conversa contigo: CPI ampla do Covid e também que o Supremo, né?...!

O senador, mais uma vez, mendiga um elogio:
"O que é difícil pra mim, presidente, é que eu tenho uma posição como essa, aí todo mundo vem contra mim porque a fala do senhor generaliza todo mundo...

E Bolsonaro responde:
"Kajuru, qualquer pessoa que vier falar comigo, eu vou dizer: 'Olha, o Kajuru foi bem-intencionado. Só que a CPI é restrita. Ele agora vai fazer o possível para fazer a CPI ampla. Da minha parte, sem problema nenhum. Ele já peticionou o Supremo, que deve ser o próprio Barroso...

Kajuru interrompe:
"Deve ser, não, tem que ser. Por causa daquela palavra jurídica 'pretento' (sic). Juridicamente, ele é obrigado a opinar. Ele não pode colocar em nome de outro ministro.

E o presidente corrige o senador:
"É prevento!"

Kajuru, que já atuou como jornalista, é o único brasileiro que teve o português corretamente corrigido por Bolsonaro.

A correção não haveria de ser moral. Uma dupla impossibilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL