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Reinaldo Azevedo

Fernández prova que Brasil não tem monopólio da estupidez. E a nossa é pior

Arthur Friedenreich - pardo, como diz o IBGE, e de olhos verdes - deixaria chocado o "europeu" Fernández. A mãe de Arthur era negra e brasileira, e o pai, alemão. Foi o nosso primeiro grande craque. O maior da Argentina, como se sabe, branco nunca foi - Reprodução. Dante Fernandez/AFP/JC
Arthur Friedenreich - pardo, como diz o IBGE, e de olhos verdes - deixaria chocado o "europeu" Fernández. A mãe de Arthur era negra e brasileira, e o pai, alemão. Foi o nosso primeiro grande craque. O maior da Argentina, como se sabe, branco nunca foi Imagem: Reprodução. Dante Fernandez/AFP/JC
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

10/06/2021 05h23

A frase dita pelo presidente argentino, Alberto Fernández, em encontro com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, evidencia que não temos o monopólio da estupidez e do racismo. Relembre-se: "Os mexicanos vieram dos indígenas; os brasileiros, da selva, e nós chegamos em barcos". E acrescentou: "Eram barcos que vinham da Europa. (...) "O meu [sobrenome] Fernández é uma prova disso".

Como informa Sylvia Colombo, na Folha, a tolice não é de autoria do escritor mexicano Octávio Paz, como afirmou o presidente. É parte de uma música do cantor argentino Litto Nebbia, seu amigo pessoal. Na canção, o artista celebra também a miscigenação. Fora do contexto, na boca de um político que conversa com um chefe de governo de país europeu, a coisa é o que é: preconceito.

Se uma música não precisa ter compromisso com a precisão, um presidente sim. Especialmente quando envolve países estrangeiros. Certamente Fernández não está se referindo à selva como uma espécie de ventre primitivo, que deu à luz um povo valente, não é? Trata-se de uma velha metáfora colonialista para designar o incivilizado, o rústico e o violento.

A palavra e derivados permanecem com esse sentido na língua e na cultura. Ou os críticos do capitalismo exacerbado não o dizem, ainda hoje, "selvagem"? O excesso de urbanização não é tomado como "selva de pedra"? Um confronto entre inimigos figadais não é tachado de "selvagem"?

"MACAQUITOS"
Em tempos em que futebol se debate em palácios, Fernández poderia ter se lembrado de nos chamar de "macaquitos", como fizeram os torcedores argentinos em 1925, em Buenos Aires, reagindo ao talento de um craque brasileiro chamado -- preste atenção, Fernández! -- Arthur Friedenreich. Foi o primeiro negro a se destacar no futebol brasileiro, que, então, era coisa para brancos. Tinha pai alemão e mãe brasileira. Prestes a fazer o terceiro gol, levou um chute nas costas. Não deixou barato. A torcida argentina entrou em campo para agredir os brasileiros aos gritos de "macaquitos!".

Talvez um sobrenome "Friedenreich", com prenome "Arthur", para um negro, escape à compreensão de Fernández, que vê no próprio sobrenome a comprovação da origem europeia dos argentinos. A história dos "barcos" está nos livros escolares. Mais de 85% da população se considera branca, o que se percebe mentiroso a olho nu.

Pesquisa genética conduzida pelo professor Daniel Corach, da Universidade de Buenos Aires, publicada em 2005, concluiu que 56% dos argentinos têm antepassados indígenas em seu DNA, conforme coluna de Ivan Martins publicada na revista Época em 2016. Os que têm traços indígenas pronunciados estampados no rosto e no cabelo são chamados "cabecitas negras", expressão que também serve para designar imigrantes pobres. Maradona, que branco não era, se dizia um "cabecita negra".

Fernández perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado, mas também evidenciou como a Argentina terá mais dificuldade do que o Brasil para vencer o seu racismo estrutural. Embora os negros comam o pão que o diabo amassou por aqui, não se nega, ao menos, a miscigenação — daí a vencer o racismo vai uma diferença brutal.

Para registro: de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 42,7% dos brasileiros se declararam brancos; 46,8%, pardos; 9,4%, pretos, e 1,1% amarelos ou indígenas. Já sabemos olhar no espelho, o que os argentinos ainda não aprenderam. Falta que saibamos o que fazer direito com isso.

Parlamentares dos mais diversos partidos e tendências ideológicas reagiram, obviamente, mal à tolice de Fernández.

BOLSONARO
A afirmação é tão estúpida que deu ao extremista de direita Jair Bolsonaro a chance de posar de progressista, embora, por óbvio, não seja.

Publicou no Twitter uma foto em que aparece de cocar ao lado de alguns índios. A imagem vinha acompanhada da palavra "SELVA!". E não, isso não quer dizer "Viva a selva, viva a floresta, viva o verde"! Em "militarês" significa "tudo bem", "ok". A foto foi tirada no mês passado no Amazonas. Bolsonaro, o negacionista, estava, claro!, sem máscara.

Ademais, o que pensa o presidente do Brasil sobre diversidade, cor da pele, reparação e afins, ele o expressou com clareza em palestra conferida no clube A Hebraica, do Rio, em 2017.

Sobre índios
"Pode ter certeza que, se eu chegar lá [Presidência da República], não vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola."

Sobre quilombolas
"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles."

Sobre imigração, pobreza e "raças com vergonha"
"Não podemos abrir as portas para todo mundo. Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!"

A tolice de Fernández tem, sim, de ser repudiada. A gente só não pode esquecer as próprias mazelas. Tão detestável como o racismo contra um povo estrangeiro é o racismo contra o seu próprio povo. Em certa medida, pode ser pior. Porque, junto com ele, nasce também o desejo de submetê-lo a seus caprichos.