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Reinaldo Azevedo

Discurso de comandante do Exército, ao lado de Bolsonaro, é antigolpista

Bolsonaro ao lado de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército. Discurso de militar no Dia do Soldado faz a defesa da democracia. Mas a tensão é, sim, grande - Rafaela Felicciano/Metrópoles
Bolsonaro ao lado de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército. Discurso de militar no Dia do Soldado faz a defesa da democracia. Mas a tensão é, sim, grande Imagem: Rafaela Felicciano/Metrópoles
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

25/08/2021 17h06

Nunca se sabe o que pode sair da cabeça de alguém clinicamente imprevisível — e esse é um mistério que a medicina não conseguiu até hoje desvendar. Há moléstias, mesmo as psíquicas, cuja etiologia é conhecida. E, pois, sabendo-se a origem, pode-se antever com margem aceitável de incerteza o comportamento do vivente. Mas há aquelas ainda cobertas de sombras... Vamos ver.

Colo essa introdução ao que vem agora. Se o presidente Jair Bolsonaro dedicar um minuto de seu tempo a ler o discurso que ouviu, saído da boca do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, na solenidade em homenagem ao Dia do Soldado, vai refrear seu ânimo golpista.

Como se sabe, a data escolhida marca o nascimento de Duque de Caxias. Ao exaltar as virtudes que enxerga no patrono do Exército Brasileiro — as controvérsias não cabem neste texto porque me fixo na leitura que o general faz do homenageado —, o comandante destaca caráter, integridade, honradez, disciplina, honestidade, ética, espírito pacificador... Eis as características que não combinam com arruaceiros.

"Ah, mas o general lembrou que o presidente da República, que estava a seu lado, é o 'comandante supremo das Forças Armadas'. Isso não quer dizer alguma coisa?". Quer dizer que ele apenas está citando a Constituição. Razão por que lembra que as Forças Armadas também são garantidoras dos Poderes constitucionais. GARANTIDORAS, não agentes golpistas.

O general deixou claro de que Exército fala. Destaco trechos:
- "um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente";
- "sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem";
- "historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!";
- dotado de "espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias" (...) "inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça";
- um Exército que tem "compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento".

Mas as coisas são assim mesmo? Ele fala por todos os militares? Bem, ele fala, com apoio pleno do Alto Comando, pelo Exército, a principal das três Forças. Nenhum presidente conseguiu plantar a desídia nos três pilares da Defesa no país, ainda que haja ruídos, e os há, na Marinha e na Aeronáutica mais afinados com as tentações golpistas do presidente da República.

É importante que se diga: o discurso de Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira se dá sob pressão — inclusive do general Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria-Geral da Presidência. Um comandante do Exército, Edson Leal Pujol, já foi defenestrado por se opor claramente ao golpismo. Há feiticeiros querendo derrubar também o atual.

Não! Bolsonaro não está apenas brincando de golpe. Na sua cabeça, ou as coisas são como ele quer, ou, então, ele vira a mesa, hipótese em que cobra a lealdade dos militares não à Constituição, mas a seus delírios.

CONSEQUÊNCIAS
Qualquer militar com um mínimo de juízo sabe que a aventura teria curta duração, transformaria o país em pária no mundo, provocaria um racha inédito nas Forças Armadas, derramaria sangue dos próprios brasileiros, conferiria aos militares a feição de carniceiros e implicaria décadas de atraso no esforço de profissionalização e de aprimoramento técnico das três Armas.

Destaque-se, sim, que a indisposição do alto oficialato das Três Forças com o STF, por exemplo, é grande. Os dois anos e oito meses de ataques permanentes de Bolsonaro a esse Poder em particular — que é, afinal, aquele lhe impõe os limites da lei — fizeram frutos. Militares não são os melhores intérpretes da Constituição. Muitos caíram na conversa do presidente de que os togados não o deixam governar, o que é, obviamente, conversa mole.

Ao contrário: sem a colaboração do Supremo, o presidente não teria em mãos os meios para enfrentar a crise gerada pela pandemia. Ocorre que, em vez de se fortalecer politicamente com facilidades inéditas que lhe foram dadas, preferiu investir no negacionismo e no confronto.

Perguntem-se, senhores do Alto Comando, e respondam: de que instrumento o Supremo privou Bolsonaro, impedindo-o de governar? Não existe resposta. Nem mesmo lhe tirou a prerrogativa, que nunca existiu, de ser o único a decidir sobre medidas sanitárias de combate à doença. E ainda bem que não se deu assim! Fosse como ele queria, teríamos as Forças Armadas, em meio a múltiplas tarefas, também a enterrar corpos. Ou os quase 600 mil mortos parecem número corriqueiro?

Bolsonaro quer o confronto, sim. É sua única saída — e, pois, saída não é.

O discurso do comandante do Exército diz, por outras palavras: "Não vai ter golpe, vai ter democracia".

ENCERRAMENTO
O general encerra a sua fala com "Brasil acima de tudo". Por várias razões, mergulhando na história, é uma palavra de ordem que pode remeter a coisas um tanto sinistras.

Dado o contexto, no entanto, é inevitável observar que alude também ao lema da campanha eleitoral de Bolsonaro, mas só pela metade.

Acho que se está a dizer, nas circunstâncias da ora, o seguinte: o Exército é leal à Constituição, não ao presidente de turno se este não for, igualmente, fiel servidor da Carta.

O discurso é antigolpista. Nem por isso a situação deixa de ser delicada e perigosa.

Segue a íntegra da fala do comandante do Exército, com destaques meus:
*

"Contar os seus feitos requer imenso esforço de concisão. Não há eloquência capaz de fazer sua figura ainda maior. Seu principal atributo foi a simplicidade na grandeza!"

Meus comandados!

As palavras inspiradas na homenagem do Visconde de Taunay nas despedidas ao Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, sintetizam o que foi a vida do mais ilustre Soldado do Brasil e trazem à reflexão a essência dos soldados que somos: almas simples, mas grandiosas na defesa da Pátria.

Com entusiasmo, celebramos a memória do Patrono do Exército Brasileiro e reverenciamos nossos militares, homens e mulheres que abraçaram o nobre sacerdócio de servir ao País, com abnegação e sem medir o sacrifício próprio e familiar.

Foi na caserna que Caxias teve forjadas suas admiráveis virtudes. Em mais de cinquenta anos de serviços dedicados ao nosso Povo, de Cadete a Marechal, Caxias pautou sua conduta pelo caráter íntegro, honrado, sereno e justo, ao tempo que foi modelo de bravura e de atitude profissional e resoluta no cumprimento do dever.

O esplendor de sua carreira recebeu o batismo de fogo na luta pela consolidação da independência, ganhou vulto na pacificação dos conflitos internos que ameaçavam a unidade nacional e consagrou-se nas campanhas externas em defesa do Brasil.

Na vida política nacional, Caxias foi Senador e Presidente do Conselho de Ministros, notabilizando-se nas tribunas do Parlamento como indelével exemplo de honestidade, ética e postura pública.

O resultado de seus feitos traduziu-se, sempre, no restabelecimento da paz, na restauração da lei e da ordem e na manutenção da integridade do País.

Enaltecida pelo Povo brasileiro, a atuação de Caxias foi marcada pela conciliação, pela superação de posições antagônicas, e, sobretudo, pela prevalência da legalidade, da justiça e do respeito a todos.

Enfim, Caxias foi notável líder militar, estadista e herói. Representa, portanto, a expressão máxima do soldado e do cidadão. Com justíssima razão, a história o proclama Conselheiro da Paz, o Pacificador do Brasil.

Fiéis herdeiros do legado de Caxias e alicerçados na hierarquia, na disciplina e nos valores pátrios, os soldados de ontem e de hoje, da ativa e veteranos, e suas estimadas famílias formam a genuína alma do Exército, retrato fiel de nossa sociedade, e são o patrimônio mais valioso da nossa Instituição.

Graças a você, soldado, a identidade do Exército Brasileiro é moldada pelos valores militares que você cultua e pratica.

Graças a você, soldado, contamos com um Exército forte, capaz e coeso, respeitado nacional e internacionalmente, cuja história funde-se de maneira indissolúvel com a própria história da Nação brasileira. Um Exército que se moderniza e se transforma continuamente, inserindo-se na Era do Conhecimento e ajustando-se às demandas das novas gerações.

Graças a você, soldado, na fronteira, nas cidades, nos distantes rincões, a qualquer hora e sob quaisquer condições, o Exército — Braço Forte da Nação — preserva a integridade do território, combate os ilícitos ambientais e transfronteiriços e salvaguarda os interesses nacionais.

Graças a você, soldado, provido de sólido sentimento de solidariedade, nos unimos para dar forma à Mão Amiga do Exército, que se estende a todos os brasileiros em prol do bem-estar social, nas situações de calamidade, na distribuição de água no semiárido nordestino, no apoio de saúde aos indígenas, na construção de estradas e ferrovias, na preservação dos biomas, na acolhida de irmãos estrangeiros, no estímulo à cultura e aos desportos, bem como na histórica e significativa contribuição com a comunidade internacional na manutenção da paz.

Graças a você, soldado, testemunhamos o obstinado esforço e o empenho diuturno do Exército para preservar vidas e ajudar a população nas ações de enfrentamento à pandemia da COVID-19, nesse mister ombreando com os profissionais de saúde — verdadeiros heróis de branco!

Sob a autoridade do Presidente da República — Comandante Supremo das Forças Armadas — e integrado à direção superior do Ministro da Defesa, o Exército Brasileiro não para em circunstância alguma e, irmanado com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira, mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão, delegada pelos brasileiros na Carta Magna. A defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem são, portanto, o farol que orienta o contínuo preparo e o emprego da Força Terrestre.

No seu dia, agradecer a você soldado é mais que um dever! É um gesto que nos enche de satisfação e orgulho!

A você, soldado, cujo modo de vida é servir incondicionalmente e em permanente estado de prontidão!

A você, soldado, que se solidariza e ajuda nossa gente sem hesitar!

A você, soldado, que, lutando sem temor, derramou seu sangue além-fronteiras, no continente e nos campos da Europa, pela defesa da democracia e contra o totalitarismo!

A você, soldado, historicamente reconhecido por suas virtudes cívicas, éticas e morais, que Caxias soube tão bem praticar!

A você, soldado, a gratidão por tudo o que fez e faz pela Nação brasileira! Presto a você a minha mais vibrante e respeitosa continência!

O momento desta justa homenagem aos soldados, que muito contribuíram e contribuem para a unidade e a grandeza do Brasil, nos motiva a reafirmar o compromisso com os valores mais nobres da Pátria e com a sociedade brasileira em seus anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento.

Neste curto tempo, desde que assumi o Comando do Exército, estive presente junto à tropa em diversos locais do País, acompanhando seu contínuo preparo. O elevado nível de capacitação e prontidão da Força Terrestre que pude constatar e, principalmente, o profissionalismo, a liderança, o entusiasmo e a coesão de nossos militares têm ratificado a plena certeza de que honramos nossos antepassados ao continuarmos a fazer do Exército Brasileiro essa Instituição que tem merecido a ampla aprovação e a confiança do Povo brasileiro.

Meus comandados!

Mantenhamos, sempre, a fé inabalável na missão do Exército Brasileiro e a crença nos princípios da nossa nacionalidade. Sob as bênçãos do Todo Poderoso Deus dos Exércitos e iluminados pelo espírito patriótico, pacificador e conciliador do Duque de Caxias, sejamos, junto aos irmãos brasileiros, inspiradores de paz, união, liberdade, democracia, justiça, ordem e progresso — que o nosso Povo tanto almeja e merece — dedicando-nos, inteiramente, à defesa da soberania nacional e ao bem do nosso amado País.

Soldado brasileiro, parabéns pelo seu Dia! Orgulhe-se, pois sua alma singela é, e sempre será, de têmpera forte como o aço da invicta espada de Caxias!

Brasil, acima de tudo!

Brasília-DF, 25 de agosto de 2021.

General de Exército PAULO SÉRGIO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Comandante do Exército