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Reinaldo Azevedo

Apoteose de terça vira Quarta de Cinzas para Bolsonaro; impeachment voltou

Arthur Lira e Augusto Aras, respectivamente presidente da Câmara e procurador-geral da República. E agora? Como encarar os discursos de Bolsonaro? -  Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
Arthur Lira e Augusto Aras, respectivamente presidente da Câmara e procurador-geral da República. E agora? Como encarar os discursos de Bolsonaro? Imagem: Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

08/09/2021 02h46

E chegamos ao "dia" depois do dia. Os fanáticos mobilizados por Jair Bolsonaro estão voltando para casa levando nas malas e nas mochilas algum cansaço e certamente uma grande frustração. Afinal, para muitos, tudo deveria ter se resolvido na terça. E, nesta quarta, é preciso que os bolsomínions saibam: seu chefe está bem pior do que antes. Estamos diante de uma particularíssima Quarta-feira de Cinzas.

A noite de segunda começou bem para os golpistas, com uma falha gritante no esquema de segurança da Polícia Militar de Brasília, com o bloqueio sendo furado por caminhoneiros e consequente invasão da Esplanada dos Ministérios. O governador Ibaneis Rocha ficou com as orelhas quentes, assim como a Secretaria de Segurança Pública do DF. E o recado foi um só: ou põem ordem na bagunça ou arcam com as consequências. Policiais militares fizeram o seu trabalho e repeliram várias tentativas de invasão do STF.

As hostes que se dirigiram a Brasília estavam muito mais excitadas e dispostas ao vale-tudo do que aquelas que se reuniram em São Paulo. Afinal, lá está a sede do Supremo, alvo do rancor golpista do presidente e daqueles que seguem as suas orientações. Havia, sim, muita gente, mas eis o problema de se anunciar a refundação do mundo, não é? Jamais haverá evento correspondente à expectativa. Sim, havia milhares de pessoas nas ruas, mas não o suficiente para caracterizar "a vontade do povo".

Até porque não é mesmo, e o presidente e seus seguidores sabem disso. São, hoje, uma minoria obviamente expressiva, que tem se mostrado aguerrida para conduzir, por ora ao menos, o seu líder ao segundo turno das eleições. Ocorre que Bolsonaro tem — e até a gente se esquece disto às vezes — um país para governar. A percepção crescente é a de que o país está à deriva. No discurso de São Paulo, Bolsonaro afirmou que sua gestão está fazendo o que ninguém fez. Dada a inflação do prato de comida dos pobres, a frase ganha um especial sentido.

Mesmo com Braga Netto, ministro da Defesa, fazendo sua escolta no mais golpista de todos os discursos que fez até agora — o de Brasília é menos burlesco do que o de São Paulo, mas muito mais grave —, ele sabe duas coisas: a) não existe meio golpe; b) não conseguirá dar o golpe inteiro. E, pois, ou algo de formidável se daria nesta terça, ou teria de arcar, como terá, com a sua particularíssima Quarta-Feira de Cinzas.

E O BOTÃO AMARELO DE LIRA?
Não! O golpe não aconteceu. E o que Bolsonaro conseguiu foi devolver para o rol das possibilidades o impeachment. Difícil? Difícil. Mas o que terá a dizer Arthur Lira (PP-AL), nesta quarta, o presidente da Câmara, que tem a prerrogativa de dar o primeiro passo rumo à possibilidade de impedimento? Em entrevistas passadas, o deputado chegou a dizer que não via crime de responsabilidade que justificasse a medida. E agora?

Em Brasília, Bolsonaro afirmou que estava dando um ultimato ao presidente do Supremo, Luiz Fux, que vai se pronunciar daqui a pouco. Pontificou o começo "de uma nova história". Em São Paulo, anunciou que não atenderá a decisões judiciais. Repetiu a conversa de que um de três destinos o aguarda: a prisão, a morte ou vitória. E emendou que "canalha" nenhum o prenderia, que a morte é com Deus (e ele se considera ungido) e que, pois, só lhe resta a vitória.

Criou uma questão e tanto para Lira, o seu aliado, a quem, na prática terceirizou o governo. Até porque ressuscitou a pauta do voto impresso, aquela que o presidente da Câmara, obviamente, já havia dado, porque está, por enterrada. O esforço, já deixei claro, é para tentar sobreviver eleitoralmente sem ter nenhum feito a oferecer à população que não sejam suas guerras do outro mundo. Aqueles milhares que foram às ruas e muitos outros que nem foram, mas que compõem os seus vinte e poucos por cento de aprovação, podem até garantir a sua presença no segundo turno, mas também o tornam refém de um discurso — que, de resto, é mesmo o seu.

REAÇÃO PIOR POSSÍVEL
Na seara política, as consequências são as piores possíveis. Partidos que passavam longe do impeachment, como PSD, PSDB e MDB, começaram a considerar a hipótese -- os tucanos, claro!, estão divididos porque existe lá um vergonhoso núcleo entre bolsonarista e oportunista. Para esses, certamente, tudo o que Bolsonaro disse sobre o Supremo terá parecido justo.

No Senado, em sinal de contrariedade, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) anunciou: "A Presidência comunica às Senadoras e aos Senadores que estão canceladas as sessões deliberativas remotas e as reuniões de comissões previstas para os dias 8 e 9 de setembro". Trata-se de um protesto. Se as coisas já não caminhavam bem para o governo na Casa, é certo que pioraram substancialmente.

André Mendonça, o indicado de Bolsonaro para o Supremo, tinha, avaliava-se até o fim da semana passada, apenas 35 do mínimo de 42 votos para ser aprovado — e esse mínimo já seria um vexame. Há quem especule sobre a possibilidade de a 11ª vaga do tribunal ser preenchida só no próximo mandato. E, hoje ao menos, pode se dizer com muitos pontos de diferença que não seria, então, Bolsonaro a fazer a indicação.

O Supremo mais tem colaborado com Bolsonaro do que criado embaraços. Ele depende, aliás, de uma negociação com o tribunal para tentar dar o calote nos precatórios, hipótese em que sobrariam recursos para a ampliação do Bolsa Família, hoje um fiapo de esperança para a reeleição. Como Bolsonaro pouco se ocupa de governar o país — ele quer apenas o poder —, saiu vituperando contra STF, embora dependa da boa-vontade dos ministros. Não que a Corte possa aplicar uma retaliação. O ponto não é esse. Mas só se negocia quando há uma relação de respeito.

O dinheiro grosso, que há havia dado início ao desembarque, entrega os pontos de vez. A manifestação dos fanáticos e os discursos arreganhadamente golpistas do presidente acenam para um futuro tenebroso. E, no dizer de um desses potentados, "tanto pior se ele conseguisse reverter a desvantagem". O raciocínio simples e cristalino é este: se, podendo disputar a reeleição, dentro das regras do jogo, ele tenta virar a mesa, como seria caso viesse a ter sucesso nas urnas e não dependesse mais da aprovação do eleitorado? Da turma do dinheiro, só restou mesmo a adesão de alguns bucaneiros disfarçados de empresários.

COM QUEM ESTÁ A BOLA?
Ouviremos daqui a pouco a fala de Luiz Fux, que se manifestará em nome dos demais ministros, que Bolsonaro conseguiu, de maneira inédita, unir. Os caminhos para contê-lo passam, sim, pelo tribunal, como Casa de chegada das demandas. A tramitação do processo de impeachment tem início na Câmara, e não dá para adivinhar que caminhos retóricos percorreria Lira para negar os discursos violentamente golpistas.

Na esfera do crime comum, a demanda é da Procuradoria Geral da República. Cumpre lembrar que decisões recentes de Moraes contra fascistoides do golpismo atendiam à provocação da PGR. O ministro apenas expressou a sua concordância com petições oriundas do Ministério Público.

É evidente que, a partir desta quarta-feira, notícias-crime contra Bolsonaro vão povoar a mesa de Augusto Aras. Não há afinidade possível, parece-me, sem uma mácula na biografia que ficará por gerações, que pudesse levar o procurador-geral a considerar que Bolsonaro exercitou apenas a tal "liberdade de expressão". E, como se sabe, caso Aras encaminhe um pedido de abertura de inquérito, será o Supremo de novo — com grande chance de a tarefa cair, por prevenção, no gabinete de Moraes — a decidir se a investigação será ou não aberta. Caso sobrevenha uma denúncia, aí a arbitragem será da Câmara, e são necessários dois terços dos deputados para autorizar o Supremo a julgar a abertura de uma ação penal. Se acontecesse, o presidente teria de ser afastado.

E Bolsonaro não responderá a tudo isso, de modo eficaz, xingando as autoridades de "canalhas". Não o amigão de Fabrício Queiroz, o ex-arrecadador de rachadinha que foi às ruas do Rio defender golpe de estado, tendo sido recebido com entusiasmo por partidários do presidente, essa gente cheia de honra que pede intervenção militar em nome da moralidade...

Bolsonaro planejou para esta terça-feira o seu grande dia. E milhares assistiram ao enterro de sua quimera. Mas são muitos milhões a querer vê-lo pelas costas.