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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Facebook libera ódio a russos, posts pró-morte de Putin e elogio a neonázis

Acima, uma foto de 2016 do Batalhão Azov, que esteve em todos os governos desde 2014, inclusive no de Zelensky. É um dos mais poderosos grupos neonazistas do mundo e certamente o mais bem armado. Hoje, é um dos pilares da resistência. O Facebook cortava mensagens elogiando o grupo. Agora liberou! Vejam ali: as bandeiras da Otan e da milícia e a suástica - Reprodução
Acima, uma foto de 2016 do Batalhão Azov, que esteve em todos os governos desde 2014, inclusive no de Zelensky. É um dos mais poderosos grupos neonazistas do mundo e certamente o mais bem armado. Hoje, é um dos pilares da resistência. O Facebook cortava mensagens elogiando o grupo. Agora liberou! Vejam ali: as bandeiras da Otan e da milícia e a suástica Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

11/03/2022 07h54

A reunião da Turquia não deu em nada. Sergei Lavrov e Dmitro Kuleba, chanceleres, respectivamente, da Rússia e da Ucrânia, não chegaram a acordo nenhum. A guerra continua e deve se intensificar. Muitos milhares vão morrer. E o pior está a rondar o mundo. Bastará um deslize, um tiro em falso, e a mãe de todos os desastres pode entrar na história. Ou encerrá-la para sempre. Thomas Friedman escreveu um artigo aterrador a respeito.

E que se note: está entre aqueles que não concede a Vladimir Putin nem, vamos dizer, o contexto da guerra. O presidente da Rússia violou leis internacionais, e seu ato tem de ser repelido. A questão, desde sempre, está nos meios. Mas estes não são tempos para ponderações em favor do fim da guerra. Uma decisão tomada nesta quinta pelo Facebook expõe o espírito do tempo. Começo por Friedman.

Ele pensa que Vladimir Putin já perdeu, o que afirmei aqui desde o primeiro dia. Mas são miradas distintas. Não vejo como o presidente russo possa se dar bem ainda que conseguisse sufocar a resistência ucraniana ou anexar o país, o que já disse que não pretende fazer. O preço de seu ato tresloucado será gigantesco em qualquer caso. Friedman se atém a ver a derrota no campo propriamente militar.

Escreve o autor:
"Se você espera que a instabilidade causada nos mercados globais e na geopolítica pela guerra de Vladimir Putin na Ucrânia tenha atingido o auge, sua esperança é vã. Ainda não vimos nada. Espere até Putin compreender totalmente que as únicas escolhas que lhe restam são sobre como ele pretende perder: uma derrota mais rápida e menor, com pouca humilhação; ou uma mais prolongada e maior, profundamente humilhado."

Dado a forma como as "não negociações" têm sido conduzidas até aqui, Friedman está certo. E se Putin tentar se livrar do que parece um destino fatal? Bem, a Ucrânia pode ser devastada. E não tirem do radar o clamor para que, então, a Otan "faça alguma coisa", como quer Volodymyr Zelensky, futuro secretário-geral da Paz Perpétua Kantiana. No interior da aliança militar, Andrzej Duda, o delinquente presidente da Polônia, também defende a zona de exclusão aérea e quer fornecer à Ucrânia os caças soviéticos que herdou. Duda é um demagogo de extrema-direita que agora opina sobre os destinos da humanidade.

Reitero o que escrevi aqui, mas agora em outra perspectiva: o fato de Putin ser a figura nefasta que é não confere aos EUA, à Europa e a quem mais se juntar ao grupo a licença para não pensar nas consequências — consequências que podem ir além do eventual desastre na Ucrânia. E não que eu ache fácil submeter à humilhação um líder que tem em mãos aquele fabuloso arsenal. Não é lógico ao menos, Mas vá lá, Ele pode pretextar algum motivo de força maior para bater em retirada.

Mas aí vem o depois. O presidente da Rússia terá de prestar contas aos seus. Escreve Friedman:
"Então, ou ele [Putin] minimiza as perdas e aceita a humilhação -- e, para sua sorte, consegue escapar das sanções, ressuscita a economia russa e se mantém no poder -- ou encara uma guerra eterna contra a Ucrânia e grande parte do mundo, que consumirá gradualmente a força da Rússia e arruinará sua infraestrutura. Já que ele parece aferrado à segunda hipótese, estou apavorado. Porque só há uma coisa pior do que uma Rússia forte sob Putin: uma Rússia enfraquecida, humilhada e desordenada, que poderia se fraturar ou acabar em meio a uma prolongada turbulência política, com diferentes facções se engalfinhando pelo poder -- e todas aquelas ogivas nucleares, todos aqueles cibercriminosos e todos aqueles poços de petróleo e gás dando sopa. A Rússia de Putin não é grande demais para não fracassar. Mas é grande demais para fracassar sem levar junto o restante do mundo."

Embora eu discorde de Friedman e de outros que pensam como ele quando desconsideram que essa guerra é um ponto numa trajetória — e a Otan também é sua protagonista, não mera antagonista do presidente russo, e isso não é sinônimo de justificar a invasão —, acho o desfecho de seu artigo brilhante ao apontar o risco de um colapso na Rússia.

Há desfecho do raciocínio, mas faltou o corolário. Dado o que ele mesmo enunciou, então é preciso concluir o óbvio. Terá ele ficado com receio da patrulha, em tempos em que até Dostoiévski e Tchaikovsky estão sendo censurados? Vai saber.,, Cabe indagar: o que o Ocidente pode fazer para que não se chegue a essa Rússia da desordem, em meio a bombas nucleares, poços de petróleo e gasodutos? Até agora, todas as ações empreendidas só alimentam o desastre.

O ÓDIO A SERVIÇO DO BEM
Escrevi lá no começo do texto que uma escolha feita pela Meta, empresa que comanda o Facebook, expunha o espírito (mau) do tempo. Prestem atenção! A empresa tomou duas decisões.

A primeira: estão liberadas as campanhas de ódio contra os russos na Ucrânia, com a ressalva de que os prisioneiros de guerra devem ser poupados — como se fosse possível fazer tal distinção. Também será possível defender atos que levem à morte de Putin e de Alexander Lukashenko, presidente da Belarus. Desde, ora vejam, que não se trate de alguma forma de combinação objetiva com vistas à execução.

A permanente associação de Putin a Hitler busca transformar o russo num mal absoluto. Se é assim, então todos os meios são válidos, inclusive inventar o "ódio do bem"! Mark Zuckerberg, juiz da vida e da morte, decidiu que esses dois homens maus podem virar alvos. E se ele escolher outros amanhã? Quem poderá impedi-lo? Essa mudança de política vale para Armênia, Azerbaijão, Estônia, Geórgia, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia, Rússia, Eslováquia e Ucrânia.

Fazem fronteira com a Rússia, no grupo, o Azerbaijão, a Estônia, a Geórgia e a Letônia. Têm a Ucrânia como vizinha a Romênia, a Eslováquia, a Hungria e a Polônia, que também divide cerca com Belarus (um dos alvos), vizinha da Letônia. O Facebook decidiu entrar em guerra.

A SEGUNDA DECISÃO
A segunda decisão é ainda mais assombrosa. A Ucrânia pode não ser um Estado "nazificado", como acusa Putin, mas é fato que o país está coalhado de milícias de extrema direita. Bandeiras com a suástica são exibidas até em jogos de futebol.

E há coisa bem mais grave do que isso. Procurem saber o que é o "Batalhão Azov", que trabalha em parceria com os governos da Ucrânia, inclusive o atual, desde a queda do regime pró-Moscou, em 2014. Foi acusado de cometer crimes de guerra na região separatista de Donbass, de maioria russa.

Atenção! O Batalhão Azov é escancaradamente neonazista. Não se trata de meia-dúzia de moleques arruaceiros. E está armado até os dentes. É hoje um dos pilares da resistência à invasão.

Ah, sim: as campanhas de ódio contra os soldados russos, as pregações em favor do assassinato de Putin e Lukashenko e os elogios ao batalhão neonazista têm de estar ligados, claro!, ao contexto da invasão e da resistência. Ódio fora do contexto não pode! Ah, agora entendi.

Vai ver Zuckerberg ficou com vontade de brincar um pouco de "Bastardos Inglórios", de Tarantino, né? Viram o filme? Como seria, e qual a reação, se uma tropa de elite de judeus usasse métodos nazistas ao perseguir os nazistas? Tenho amigos que adoram o filme. Acho de rara estupidez.

Não entendeu o paralelo? Explico: se Putin é um déspota e não tem limites, todas as armas contra ele estão liberadas, incluindo campanhas de ódio e, bem..., o flerte com um grupo neonazista. Episodicamente, estaria fazendo o bem e dando a Putin e a seus soldados o que merecem... A vida não é um exercício tolo de imaginação. A propósito: antes de liberar campanhas que incluem a morte de pessoas, o Facebook fez um julgamento?

Como canta Chico César, "Deus me proteja da maldade de gente boa e da bondade de pessoa ruim".