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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro, Moro e a disputa conservadora para falar em nome dos evangélicos

7.set.2021 - Jair Bolsonaro posa com Silas Malafaia, Marco Feliciano e pastores em ato na avenida Paulista - Reprodução
7.set.2021 - Jair Bolsonaro posa com Silas Malafaia, Marco Feliciano e pastores em ato na avenida Paulista Imagem: Reprodução
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Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", ?Profetismo, Utopia e Insurgência? e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão?. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

15/03/2022 04h00

Os evangélicos estão definitivamente no centro do tabuleiro político brasileiro. Isto é de amplo reconhecimento. A estratégia de investida sobre esse segmento parece ser tão vital que os três principais pré-candidatos à Presidência da República têm articuladores convidados especialmente para cuidar desse diálogo.

Mas uma disputa política e teológica se destaca no campo evangélico conservador (e ultraconservador) brasileiro. De um lado, Jair Bolsonaro (PL) tem a articulação do pastor e deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), apadrinhado politico de Silas Malafaia, e que segue conduzindo o presidente pelo apoio das lideranças (neo)pentecostais para mobilizar suas bases com vistas à reeleição.

Do outro lado, Sergio Moro (Podemos) tem a coordenação do advogado Uziel Santana, um dos fundadores da Anajure (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos), e cujo grupo, de evangélicos reformados, sempre hostilizou o campo (neo)pentecostal, mas que parecia ter aceito uma convivência em nome de um mesmo "projeto político", que ganhava força sob Bolsonaro, de uma sociedade mais conservadora e com a imposição do cristianismo fundamentalista.

Parte dessa disputa —entre as lideranças e grandes "estrelas" do campo conservador evangélico, com reformados calvinistas de um lado e (neo)pentecostais de outro— se tornou evidente com as mobilizações para a indicação de um nome evangélico para a vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), que viria a ser ocupada pelo presbiteriano André Mendonça.

Na ocasião, os campos pentecostal e neopentecostal, com Silas Malafaia à frente, mostraram sua preferência pelo juiz federal do Rio de Janeiro William Douglas. Enquanto André Mendonça foi a aposta do campo conservador calvinista, com a Anajure à frente.

Como se sabe, Bolsonaro se decidiu por André Mendonça, e é aí que o pragmatismo político das lideranças (neo)pentecostais prevalece mais uma vez, e há um consenso de defesa do nome de Mendonça, que passa a ter o apoio de todo o campo evangélico ultraconservador. Malafaia abraçou a campanha da aprovação do nome de Mendonça pelo Senado como se o presbiteriano fosse seu protegido desde a primeira hora. Interesses.

Essa harmonia agora, em torno de Mendonça, repetiu a harmonia em 2018, quando estes dois grupos, que sempre mantiveram distância nas relações e nos apoios públicos na política, mergulharam juntos, de mãos dadas e em profundidade, na defesa da eleição de Jair Bolsonaro. O projeto ultraconservador, antiprogressista, de controle moralista e de defesa pública de uma supremacia cristã, foi vista por ambos os grupos como o momento ideal para o conservadorismo evangélico no país.

Mas a radicalização progressiva de Bolsonaro, sua postura pública cada vez mais agressiva e, sobretudo, sua péssima gestão da pandemia, incluindo a insistência na permissão deliberada da abertura dos templos nos piores momentos da pandemia, junto à sua postura de aparente indiferença enquanto o número de mortos se acumulava, fez o apoio conservador ao seu nome rachar. Muitas lideranças e expressivos nomes do campo ultraconservador calvinista pulou do barco, incluindo a Anajure, e a harmonia deste grupo com os "irmãos" (neo)pentecostais se desfez.

Nesse embate, evangélicos pentecostais e neopentecostais consideram-se esnobados por lideranças calvinistas, que costumam se dirigir aos outros "irmãos" como tendo pouca qualificação acadêmica, interesseiros, manipuláveis politicamente e donos de uma teologia pobre.

Essa disputa foi mais bem exposta em abril do ano passado, com a polêmica entrevista do reverendo Augustus Nicodemus para a Folha de S.Paulo. Nicodemus, pastor presbiteriano de Recife, ex chanceler da Universidade Mackenzie, de São Paulo, é provavelmente o nome mais respeitado entre calvinistas conservadores brasileiros, com grande influência sobre as igrejas presbiterianas no país.

Na ocasião, ele disse se recusar inclusive de chamar de "igrejas" algumas "dessas denominações", como a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, e a Igreja Internacional da Graça, de RR Soares. O que causou enorme indignação entre as lideranças pentecostais.

Aqui se trata de poder. O grupo pentecostal tem sede de poder, por conquistar o maior espaço político possível, querem o STF, querem a Presidência da República sob a desculpa de que é um caminho natural porque a população evangélica tem crescido.

Já o ultraconservadorismo calvinista quer o poder porque seu projeto é reformular a sociedade culturalmente —querem o Executivo para ocupar todos os espaços possíveis a fim de forjar a sociedade de acordo com suas convicções reacionárias e fundamentalistas.

Ambos reivindicam para si a "voz" que fala em nome dos evangélicos. Ambos se acusam mutuamente de traição dos interesses dos evangélicos. Nenhum dos dois grupos tem a coragem de admitir seus próprios interesses —que nada tem a ver com a Bíblia ou o Evangelho.