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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Milton Ribeiro foi abandonado por correntes evangélicas em disputa

O ministro da Educação, Milton Ribeiro - Luis Fortes/Ministério da Educação
O ministro da Educação, Milton Ribeiro Imagem: Luis Fortes/Ministério da Educação
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Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", ?Profetismo, Utopia e Insurgência? e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão?. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

25/03/2022 04h00Atualizada em 25/03/2022 10h04

Diferentemente do que o governo Bolsonaro e alguns parlamentares aliados tentam demonstrar, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, está isolado e sozinho. A convocação dele ao Senado cumprirá um protocolo, mas dificilmente evitará sua queda.

De fato, Ribeiro nunca foi querido pelos evangélicos mais combativos da bancada evangélica, ligados a igrejas pentecostais e neopentecostais, e que ainda se ressentem de como o núcleo calvinista fundamentalista conseguiu acesso, influência e poder no Executivo da gestão Bolsonaro.

Como é conhecido, o campo fundamentalista calvinista, do qual Ribeiro faz parte, é fortemente representado por membros da Anajure (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos) e rompeu com Bolsonaro, indo em direção aos braços de apoio ao pré-candidato do Podemos à Presidência, Sergio Moro.

No passado, em meio a declarações polêmicas de Ribeiro, como a homossexualidade ser gerada por famílias que seriam "desajustadas", a Anajure sempre buscou blindar o ministro com notas e demonstrações articuladas nos bastidores do governo.

Agora, Uziel Santana, presidente da associação, diz que a "adesão irrestrita" de Ribeiro ao bolsonarismo deixa o ministro "numa situação constrangedora". Ao redor da Anajure, o campo calvinista fundamentalista faz silêncio sobre o caso, e este silêncio é uma demonstração explícita de retirada de apoio.

Por outro lado, a bancada evangélica da Câmara dos Deputados —que nem de longe tem unidade e unanimidade na disputa por poder e influência— possui em comum uma visão hostil em relação ao grupo de Ribeiro. Na política e na igreja, o campo fundamentalista pentecostal e neopentecostal é profundamente dividido em meio a uma trama de vaidade e interesses.

É importante lembrar que, no episódio da indicação do nome de André Mendonça para o STF (Supremo Tribunal Federal), o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) chegou a dizer que "Mendonça não era o nosso nome".

Ribeiro foi indicação de Mendonça para a Educação, e o grupo pentecostal apoiava o juiz federal evangélico William Douglas, do Rio de Janeiro.

O ministro da Educação negociou com dois pastores que hoje não estão no campo de proximidade política de Sóstenes, apadrinhado de Silas Malafaia. Isso torna muito mais fácil para Malafaia vir a público dizer que Milton Ribeiro "é pastor e precisa provar que é honesto".

Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, ao articularem uma negociação e intermediação de recursos direto com o ministro da Educação, também deixaram para trás interlocutores poderosos, como José Wellington Bezerra da Costa, ex-presidente e eterno líder maior da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil) e Samuel Ferreira, filho de Manoel Ferreira, poderoso bispo primaz da Conamad (Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério Madureira).

Com isso, os pastores Gilmar e Arilton infringiram regras básicas desse universo político: retiraram o protagonismo de parlamentares locais (deputados e senadores) no privilégio de "negociar" diretamente com o ministro de Estado e com o presidente da República. Isso é grave porque tal privilégio e agenda são violentamente disputados.

Além disso, os pastores tiraram o protagonismo de lideranças poderosas, que não são políticos, mas que gostam de exercer influência direta no Legislativo e no Executivo e de terem a primazia da agenda junto ao governo Bolsonaro, como Silas Malafaia, Abner Ferreira e bispo Robson Rodovalho.

Isso é grave porque há anos, senão décadas, essas lideranças históricas esperam por esse protagonismo e esse privilégio de influência junto ao Executivo.

Por último, Ribeiro se encontra sozinho diante da demora de Bolsonaro em sair em sua defesa, o que só fez no início da noite de ontem. Publicamente, o presidente diz que colocaria "a cara no fogo" por Milton Ribeiro. É o papel de Bolsonaro mostrar que sabe escolher ministros e que confia nas escolhas que faz. Nos bastidores, no entanto, Milton Ribeiro já está vendido.

E isso não terá nada a ver com integridade ou ojeriza à corrupção por parte do governo ou das grandes lideranças e parlamentares evangélicos do campo fundamentalista. Isto terá a ver com a habilidade de jogar com interesses políticos poderosos e nada evangélicos. E essa habilidade Milton Ribeiro não teve.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no texto, o nome do filho do bispo Manoel Ferreira é Samuel Ferreira, e não Silas Câmara. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL