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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pastores atentam contra Jesus ao ignorar defesa de tortura por Bolsonaro

20.jun.2019 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) na Marcha para Jesus em São Paulo - Jales Valquer/Framephoto/Framephoto/Estadão Conteúdo
20.jun.2019 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) na Marcha para Jesus em São Paulo Imagem: Jales Valquer/Framephoto/Framephoto/Estadão Conteúdo
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Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", ?Profetismo, Utopia e Insurgência? e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão?. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

20/04/2022 04h00

Definitivamente é impossível ser bolsonarista, apoiar este governo, cogitar a possibilidade de votar em Jair Bolsonaro (PL) e ser evangélico ou, ao menos, coerente com o Evangelho. Repito: é inconciliável. O apoio a Bolsonaro e a seu governo é um atestado anti-Evangelho, anti-Jesus.

Sim, estou sendo tão taxativo quanto os bolsonaristas cristãos gostam de afirmar, e afirmam convictamente. Mas é isso mesmo: não há razoabilidade, não há coerência, não há conciliação. O conservadorismo bolsonarista envergonha e trai a mensagem de Jesus. As lideranças evangélicas que ainda estão no barco bolsonarista estão por si mesmos e sua ideologia rancorosa.

Ao analisar os fatos, o que a realidade nos diz, é que o Brasil nunca sequer chegou perto do comunismo como sistema político ou ideologia predominante. Uma esquerda radical nunca chegou ao poder, e não há notícia de uma única escola de ensino fundamental que ensine as crianças e adolescentes a fazerem sexo ou a "serem gays".

Em contrapartida, a ditadura militar foi uma realidade. A tortura como método usado pelo Estado brasileiro foi uma realidade. Os áudios das audiências no STM (Superior Tribunal Militar) nos anos 70 só mostram o quão horroroso, cruel e desumano esse recurso foi.

Os pastores antiabortistas bolsonaristas, como Silas Malafaia e Marco Feliciano, se calam e desconversam ante a defesa convicta de Bolsonaro sobre a ditadura e métodos de tortura, ante os elogios públicos a ditadores. Para quem a tortura é relativizável, o discurso de ojeriza à corrupção só pode ser fingimento de uma postura ética que é só cinismo e interesseira.

Mesmo que críticos do governo de Cuba queiram fazer a forçada conexão entre Ernesto Che Guevara como também um executor ou torturador de dissidentes e opositores no contexto da Revolução Cubana, eles ainda não encontraram um comunista que tenha elogiado Che Guevara por torturar e executar alguém.

É isso que Bolsonaro fez publicamente para o general Brilhante Ustra. E isso faz toda diferença.

Evangélicos que consideraram razoável, ou apenas "performance", um candidato a presidente da República que elogia e homenageia o ato de tortura de um torturador, não merece louvar o Cristo torturado numa cruz. Se isso não for inegociável, nada mais pode ser.

Quando André Valadão diz que não há como ser cristão e ser comunista, ou ser cristão e votar na esquerda, ele não faz apenas um desserviço retórico. Ele mente.

O que seguidores de Jesus não não devem nunca fazer é apoiar torturadores ou jejuar com os que elogiam a tortura como método.

Seguidores de Jesus não podem apoiar quem zomba de uma pandemia que mata centenas de milhares de pessoas e não confraternizam com quem não conseguem explicar sua relação com quadrilhas tão violentas como as milícias no Rio de Janeiro.

Foram cristãos progressistas como Martin Luther King e Dom Hélder quem contribuíram definitivamente para uma sociedade mais justa e solidária nos seus respectivos países, que usaram a religiosidade em defesa da igualdade.

Foram cristãs e cristãos de esquerda que ousaram denunciar o uso da Bíblia por conservadores cristãos para legitimar a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos. Foi o cristão de esquerda Desmond Tutu que se tornou central na liderança política e espiritual da luta contra o apartheid na África do Sul.

Cristãos bolsonaristas estão definitivamente desconectados com a mensagem de Jesus, talvez por isso a necessidade de manter o aborto um tema "central". O aborto é o assunto que ainda permite a última grande máscara de bolsonaristas, que na realidade parecem não ter nada de pró-vida, a não ser a favor da vida deles mesmos, do seu grupo e das suas ideologias ultraconservadoras.

Talvez seja por isso que evangélicos bolsonaristas, cristãos bolsonaristas, se esforcem tanto para fazerem crer que cristãos não podem ser de esquerda ou votar na esquerda. Não há exemplo, não há materialidade, não há fundamento nenhum nisso.

Se eles pararem de repetir isso, vão acabar deixando as pessoas descobrirem o quanto a direita bolsonarista corrompeu o Evangelho, ama o poder e é insensível às angústias da população. As pessoas verão a ganância, arrogância, violência e preconceito. É joio que quer danificar o trigo.