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Assédio de Bolsonaro cria um "pato manco" no comando da Polícia Federal

Moro anunciou Maurício Valeixo como novo diretor da PF - Reprodução
Moro anunciou Maurício Valeixo como novo diretor da PF Imagem: Reprodução
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

23/04/2020 20h25Atualizada em 23/04/2020 20h48

Mesmo que o presidente Jair Bolsonaro desista novamente da ideia de forçar a demissão do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, seu assédio sobre o cargo já criou um "pato manco" no comando da instituição - expressão usada para designar um político em final de mandato, que tem prestígio e poder rebaixados.

Em um encontro privado com o ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), no qual pediu a cabeça de Valeixo nesta quinta-feira (23), Bolsonaro retomou a pressão, que exerce desde o ano passado, sobre o delegado. Ele conseguiu o que seria impensável poucos anos atrás, quando a PF exibia altos índices de popularidade durante a Operação Lava Jato: o presidente indicou que não concorda com a gestão da PF e, portanto, a direção do órgão não goza da intimidade da cúpula do Executivo federal.

Quando insiste em dizer que Valeixo deve sair, Bolsonaro indica para todo o conjunto dos servidores da PF que os dias de Valeixo estão contados. Porque todos já sabem do que Bolsonaro é capaz. Basta ver o que houve com o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, demitido no auge de uma pandemia embora tivesse amplo apoio popular. Para os servidores da PF, a gestão de Valeixo não vai longe, para dizer o mínimo. Essa percepção se espraia por todos os cantos da administração do órgão.

Três delegados da PF ouvidos pela coluna contaram que as turbulências políticas enfrentadas pela PF nos últimos anos têm causado a interrupção ou reduzido a velocidade dos projetos de interesse do órgão.

"Toda essa instabilidade é muito ruim para a polícia. Já estamos pelo terceiro diretor-geral em quatro anos. Se ele sair, o próximo será o quarto em quatro anos, um por ano, em média. Isso é ruim para o órgão. Não há continuidade na gestão, nos projetos. O diretor fica sem força. Imagina como é para ele ficar ouvindo a todo momento na imprensa que está para cair. A implicação maior é que a parte administrativa vive em sobressalto. Não há previsibilidade, não há projeto de longo prazo. 'Eu não vou tocar esse projeto porque eu não sei se vou ficar'. Causa lentidão e paralisação", disse Edvandir Paiva, presidente da ADPF (Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal).

"Em qualquer empresa que tenha instabilidade como essa que estamos vivendo na PF, as ações caem. Imagina trocar o diretor da empresa a cada ano? Na PF nós temos uma diminuição de produção, sem dúvida", disse Paiva.

Após um longo mandato de mais de seis anos à frente da PF nas gestões Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), em novembro de 2017 o delegado Leandro Daiello foi substituído na direção-geral pelo delegado Fernando Segovia. De lá para cá, houve três quedas e três posses no comando do órgão. A cada novo diretor-geral, todos os cargos de direção diretamente abaixo dele também foram trocados, gerando um clima de transição permanente.

Segovia ficou poucos meses no cargo. Em fevereiro de 2018, foi substituído pelo delegado Rogério Galloro. Com a chegada do ministro Sérgio Moro à pasta da Justiça, novamente tudo mudou. Moro empossou o seu homem de confiança, o delegado Maurício Valeixo, em janeiro de 2019.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro tentou substituir o superintendente da PF no Rio de Janeiro, por motivos ainda não completamente esclarecidos. Valeixo reagiu e conseguiu adiar a saída do superintendente. Bolsonaro elegeu o diretor-geral como um alvo. Insinuou que iria demiti-lo, mas não o fez. Bolsonaro chegou a dizer, em agosto: "Se não posso trocar o superintendente, vou trocar o diretor-geral". Agora o presidente opera a segunda investida.

"O Valeixo fica até sem condição de gerir a coisa. É natural que esteja cansado. A gente estava esperando, até por conversar com ele, 'olha, vão trocar em algum momento'. Esperávamos para fevereiro, não foi, e depois para o meio do ano. E agora acontece isso", disse Edvandir Paiva.

Marcos Camargo, presidente da APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais), disse que as pressões sobre o órgão preocupam. "A gente também vê com preocupação essas tentativas de mudança, sem critérios claros. Isso acaba causando instabilidade em toda a instituição e prejudica os trabalhos."

"A repercussão é muito ruim, pois cria um cenário de instabilidade permanente, para o atual e também para futuros diretores gerais, que só prejudica as atividades do órgão, que sempre foram desenvolvidas com autonomia e credibilidade junto à sociedade", disse Camargo.

Um delegado disse à coluna que a troca frequente na direção-geral atinge o ânimo das equipes. "Acho que especialmente diminui o ímpeto. Os projetos continuam, as investigações também, mas a energia é dosada. E aí são feitas prioridades."

Um terceiro observou que, mesmo que Valeixo continue à frente do órgão, o estrago já está feito.

Rubens Valente