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Rubens Valente

Um guardião de indígenas isolados contra o avanço da covid-19

O indigenista da Funai (Fundação Nacional do Índio) Jair Candor - Lucas Landau / Divulgação Prêmio Espírito Público
O indigenista da Funai (Fundação Nacional do Índio) Jair Candor Imagem: Lucas Landau / Divulgação Prêmio Espírito Público
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

08/08/2020 19h51

Resumo da notícia

  • Há 32 anos na Funai, Jair Candor trabalha com a equipe na defesa de indígenas isolados piripkura, em Rondônia, e kawahiva do Rio Pardo, em Mato Grosso
  • Fiscalização é feita em camionetes, barcos e a pé para evitar invasão de madeireiros e caçadores clandestinos nas terras indígenas

O novo coronavírus, que já matou mais de 651 indígenas no país, segundo o mais recente levantamento paralelo das organizações não governamentais, é uma ameaça com potencial de devastar os grupos de indígenas que vivem em isolamento na Amazônia.

No organismo de um indígena isolado, uma simples gripe pode evoluir para uma pneumonia fatal em menos de uma semana, segundo sertanistas com experiência no socorro às vítimas de epidemias. No caso do Sars-Cov-2, a contaminação de um isolado pode derivar para o extermínio do grupo inteiro, como ocorreu em vários momentos do passado no país com outras doenças.

Aos 60 anos de idade completados em junho, indigenista da Funai (Fundação Nacional do Índio) há 32 anos, Jair Candor atua com sua equipe do órgão indigenistas em duas frentes para impedir que o vírus atinja duas comunidades isoladas na Amazônia: os Kawahiva do Rio Pardo (pronuncia-se cauarríva), em Mato Grosso, e os piripkura, em Rondônia.

O objetivo é impedir que invasores dos territórios se aproximem das áreas que os indígenas costumam frequentar. São regiões de difícil acesso e visadas por madeireiros, pescadores e caçadores ilegais.

"Estamos na linha de frente. É uma escala [de funcionários] mais apertada, por causa da pandemia, mas a gente tem dado conta do recado. Hoje não há invasão nos territórios. A gente inclusive, nesse ano de 2020, bateu um recorde, o desmatamento foi zero", disse Candor.

A terra Kawahiva, de 411 mil hectares, é acessada por uma estrada a 104 km de Colniza (MT) pela rodovia BR-174. A terra Piripkura, de 240 mil hectares, se estende por dois municípios, Colniza e Rondolândia (RO), e é acessível a partir de uma base instalada a cerca de 250 km de Ji-Paraná (RO).

Além dos dois grupos confirmados, há 12 referências de isolados na região ainda a serem confirmadas ou descartadas. Com a pandemia, essas expedições foram temporariamente suspensas.

'Se a doença chegar, já era'

Candor e sua equipe na Funai -oito a dez funcionários na terra dos Kawahiva e seis na dos Piripkura - fazem rondas periódicas de camionete, barco e a pé. Eles têm apoio de outros órgãos de fiscalização, como o Ibama.

"O dia-a-dia é corrido. A gente acelerou as fiscalizações e largou as expedições por enquanto. Rodamos em torno de 600 km a cada fiscalização. Pelo menos duas vezes por mês. Aceleramos por conta da pandemia e para evitar algum tipo de doença. Se a doença chegar lá [nos índios], já era, não tem o que fazer", disse Candor, por telefone, na tarde desta segunda-feira (4).

É uma corrida contra o relógio. O último registro dos índios kawahiva feito por Candor e equipe em 2018 ocorreu a apenas 12 km ou 15 km do limite da terra indígena. Mais um pouco e eles seriam vistos na beira de uma estrada e poderiam ser abordados por um passante.

Candor encontrou um tapiri, que é um barraquinho de babaçu, e pegadas. Em 2011, outra expedição conseguiu filmar nove indígenas na mata, caminhando nus com arcos e flechas. A Funai estima de 30 a 40 no total. Comem porco do mato, aves como mutum e nhambu, castanha, mel. Vivem da caça, da coleta de frutos e da pesca.

Os piripkuras isolados, em Rondônia, são dois: Tamandua e Baitá (ou Pakyi). Uma terceira piripkura sobrevivente, Rita, casou-se com um karipuna e vive em outra terra indígena de Rondônia. A primeira vez que Candor viu a dupla na mata foi em 1ª de maio de 1989. A Funai ficou monitorando os dois até 1992, quando Candor foi transferido para Mato Grosso. Quase 15 anos se passaram quando, em 2007, os índios gaviões pediram que a Funai voltasse a trabalhar na área a fim de proteger essa etnia isolada. Candor retornou à região e conseguiu reencontrar a dupla.

"A área já estava com muitas fazendas, grileiros, estradas para todo lado. Eu fiquei impressionado como eles conseguiram sobreviver no meio daquilo tudo, parecia um campo minado. Para todo lado era trator, pasto."

A equipe de Candor começou a expedição em maio de 2007 e só foi encontrar os índios em agosto. "A gente trabalhou praticamente sem parar. Só abastecia os carros e ia atrás deles. No começo só vi vestígios velhos. 'Será que eles morreram?', fiquei pensando. Aí eu refiz uma rota antiga, foi quando encontrei as pegadas perto do igarapé Garcinha. Baitá estava com problema de saúde, estava vomitando."

Baitá foi levado para o acampamento da Funai e, de lá, direto para um hospital. Ele tinha um problema na vesícula e teve que passar por uma cirurgia. "O médico disse que mais três dias a vesícula ia estourar e ele morreria na mata", disse Candor.

Recuperado, Baitá pediu para voltar à mata com Tamandua. Desde então, Candor desenvolveu uma longa relação com os indígenas, que é contada no premiado documentário "Piripkura" (2017), de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge.

Ex-colono e ex-seringueiro que virou indigenista

Jair Candor nasceu em Terra Roxa, a 623 km de Curitiba, no Paraná, em 19 de junho de 1960, no seio de uma família de pequenos agricultores com oito crianças. Por volta de 1966, dois anos após o golpe militar, a família decidiu dar atenção ao anúncio de que o governo criara programas de incentivo de transferência de famílias do sul do país para a Amazônia Legal. As chamadas colonizadoras eram firmas que tinham o apoio do governo para localizar, arregimentar e transferir as famílias.

Os pais de Candor resolveram arriscar uma nova vida - "eles sonhavam grande, queriam ser fazendeiros", lembra o futuro indigenista - e acreditaram na propaganda do governo militar. Venderam o sítio no Paraná e chegaram a Ji-Paraná (RO) num caminhão pau-de-arara, após nove dias de viagem. Ali receberam um lote de terra e foi só.

"O começo foi uma catástrofe. Na época tinha muita malária. Eu sinceramente achava que tinha dia que a gente não ia sobreviver. Muita gente morrendo na região, toda hora morrendo alguém. Não tinha estrutura nenhuma, era uma coisa de louco mesmo. Eu acho que todo dia chegavam dez, 15 caminhões de mudança."

O nono filho do casal nasceu em Rondônia, mas morreu com cinco anos de idade. A mãe, Rosalina Catabriga Candor, morreu quando Jair tinha nove anos de idade, em 1969, de complicações do tratamento de uma ascite, ou barriga d'água, um sintoma de outras doenças, como insuficiência renal ou cardíaca.

Depois que ela morreu, a família desmantelou. O pai teve que vender o lote e cada filho maiorzinho foi trabalhar por conta em fazendas da região. Jair, com nove anos, se mudou para um barracão, onde trabalhava em troca de comida e pouso.

"Eu fui criado meio que nem galinha caipira, solto no campo. Só fui até a quarta série. Eu tive que escolher, ou estudava ou tinha que trabalhar para me manter. A gente não tinha mais casa. A gente ia trabalhar com uma família com roça, ali você pendurava sua rede e dormia. Eu não tive infância, a história é essa. A briga, a luta nossa era para sobreviver."

As promessas da ditadura para as famílias que vieram do sul não se confirmaram. "O pessoal do sul todo era doido para ser fazendeiro, largava tudo para vir para cá, vendia tudo, mas quando chegava aqui não tinha mais condições de voltar porque você vendeu tudo e gastou na viagem. Ainda considero que tive sorte de vencer na vida, apesar do pouco estudo que tenho. Teve muitos coitados como eu que não conseguiram."

Depois Jair foi trabalhar em um seringal que ficava na frente da terra dos índios gaviões. Por volta dos dez anos, viu um índio pela primeira vez. Ele tinha medo de se aproximar porque ouvia histórias pavorosas sobre os conflitos entre moradores trazidos para a região e os indígenas. "Quando eu ia jogar bola de vez em quando aparecia um índio e eu tinha um medo tão desgraçado que ninguém fazia eu ficar ali. Eram histórias cabeludas, diziam que eles eram canibais. Não eram."

Política do não contato

Com o tempo, porém, Candor acabou se entrosando com os índios. Em 1988, a Funai abriu uma frente de trabalho na região. Na época a Funai passou a adotar uma nova linha de atuação em relação aos índios isolados, a chamada política de não contato. Segundo a nova orientação, que batia de frente com tudo o que fora feito durante a ditadura, a Funai só entraria em contato com indígenas isolados em caso de uma emergência de saúde ou de uma ameaça direta sobre os índios. Ou se eles mesmos resolvessem entrar em contato.

Os próprios gaviões indicaram Candor para a Funai, onde começou como piloto de barco. "Eu entrei na Funai como colaborador eventual para ficar 85 dias. Quando eu estava 20 dias no grupo, me deram um cargo pequeno em comissão. Acabei ficando 32 anos."

Em três décadas, Candor participou de várias expedições e operações de fiscalização em Mato Grosso, Rondônia, Amazonas. No início do anos 90, viu um colega da Funai, Creusalino Ribeiro, morrer durante uma das viagens ao vale do rio Juruena depois que começou a ter dores no estômago e não recebeu o atendimento de saúde a tempo. A equipe conseguiu chegar a uma base de apoio, mas o colega não resistiu. A causa da morte ficou como desconhecida.

Mas a pandemia do novo coronavírus é um desafio sem paralelo. "No começo eu fiquei confuso. Não só eu fiquei, muita gente ficou. Você ligava a TV e cada um dizia uma coisa. Agora a gente conseguiu se organizar, recebemos kits de testes rápidos, cumprimos as escalas de quarentena. Na terra dos Kawahiva estamos no arco do desmatamento norte de Mato Grosso. Aqui é só madeireira, tem umas 40. A gente briga com esse povo para manter a fiscalização. É perigoso, a gente sabe o perigo que corre."

A terra Kawahiva é protegida por uma portaria declaratória de 2018, mas ainda não houve homologação pela Presidência da República, a etapa final de um processo de demarcação. Na terra dos piripkura há uma portaria de restrição de uso também sem homologação.

Sem defesa imunológica

Sertanista da Funai de 1989 a 2013, hoje consultor em temas indigenistas, Antenor Vaz trabalhou pela primeira vez com Candor na proteção a indígenas isolados na terra indígena Massaco, em Rondônia. Ao lado de diversos outros servidores da Funai, eles procuravam colocar em prática a política do não contato elaborada a partir da redemocratização, na segunda metade dos anos 80.

"Na terra Massaco foi colocada em prática a primeira metodologia desenvolvida e o Jair participou de todo esse processo. O não contato significa respeitar essa decisão dos índios ao isolamento voluntário e criar um sistema protetivo a partir das politicas do Estado. Para que esses índios continuem decidindo a maneira pela qual eles querem viver."

Antenor concorda que a chegada do novo coronavírus a um grupo isolado pode dizimá-lo rapidamente. "Eles têm anticorpos, mas para as doenças tropicais, não para as que vêm de fora. Não é que não têm resistência, eles não têm é a memória imunológica para determinados vírus. É assim como a gente, não indígena, está vivendo agora na pandemia. Não estamos com memória para o SARS-Cov-2. Um indígena contaminado contamina toda a aldeia. E quem se levantará para caçar e fazer comida? Então rapidinho isso pega a aldeia inteira. Em quatro ou cinco dias pode matar todos. Com dois dias já estão todos com febre."

Hugo Meireles, filho do antropólogo e indigenista Ezequias Heringer Filho, o "Xará", e neto de um sertanista histórico, Francisco Meireles (1908-1973), trabalhou com Candor na frente da Funai no rio Madeirinha em 2005 em um momento de muita pressão sobre o território dos Kawahiva. Na época os madeireiros espalhavam fake news nas emissoras de rádio de que a Funai estava "plantando indígenas" na região.

"O Jair é um dos últimos herdeiros do espírito rondoniano ainda em atividade na Funai", disse Meireles, em referência ao marechal Cândido Rondon (1865-1958), fundador do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), órgão que antecedeu a Funai.

O indigenista Carlos Travassos, que foi coordenador do setor de índios isolados da Funai, em Brasília, ressaltou a importância de se ter um servidor público com a qualificação de Candor na proteção aos isolados kawahiva e piripkura. "É um trabalho delicado e sofisticado e ter ali na região uma figura como o Jair, que sempre acreditou no trabalho, tem um valor imenso para a Funai. Ele é um herói no sentido de que ficou muito tempo nas mesmas frentes e, por isso, conseguiu criar um elo com esses povos isolados."

"São alguns dos povos mais vulneráveis do mundo. Eles são caçadores e coletores e estão em áreas de floresta assediadas por madeireiros e caçadores, portanto onde o risco de contágio pela covid-19 é muito grande. Os índios estão num espaço confinado, se movimentando. Os invasores podem deixar objetos na mata e os índios podem pegá-los, por necessidade ou curiosidade. Sabemos que os vírus são muito agressivos nos isolados porque derrubam rapidamente o sistema imunológico da pessoa. E a partir daí uma série de infecções podem agir de forma muito radical."

Prêmio

No ano passado, Jair Candor recebeu o Prêmio Espírito Público na categoria meio ambiente por decisão de um júri formado por representantes do setor público, academia, terceiro setor e organizações não governamentais, além dos vencedores da edição do ano anterior. A iniciativa reconhece a trajetória de servidores públicos nas áreas de educação, gestão de pessoas, governo digital, meio ambiente, saúde e segurança pública.

A edição atual tem inscrições abertas até a próxima segunda-feira (10). Podem concorrer servidores públicos de todos os estados do país nas esferas municipal, estadual e federal, com no mínimo dez anos de atuação no setor, mesmo que não consecutivos.

O prêmio é realizado por um grupo de organizações como Fundação Brava, Fundação Lemann, Instituto Humanize e República.org, em conjunto com o Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (Consad). A iniciativa é apoiada por diversas instituições, como Itaú Social, Instituto Arapyaú, Centro de Liderança Pública, Instituto Igarapé, SOS Mata Atlântica, Instituto Sou da Paz, PNUD, BID, Frente Nacional de Prefeitos, ITS Rio, Instituto Fundação João Goulart, Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, Saúde Criança, Instituto João e Maria Backheuser, Associação Samaritano, Instituto Betty e Jacob Lafer, ENAP, Desiderata, Agenda Pública, RAPS e Semeia.