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Rubens Valente

Indigenista referência na Funai é flechado e morre em Rondônia

O indigenista Rieli Franciscato - Arquivo pessoal
O indigenista Rieli Franciscato Imagem: Arquivo pessoal
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

09/09/2020 20h30

Um dos principais indigenistas em atividade no país, com cerca de 30 anos de experiência na Funai (Fundação Nacional do Índio), Rieli Franciscato, de 56 anos, foi morto nesta quarta-feira (9) com uma flechada no peito ao se aproximar de um grupo de indígenas isolados. Ele tentava evitar um atrito entre os isolados e a população não indígena que presenciou o aparecimento repentino dos indígenas em um sítio na zona rural de Seringueiras, em Rondônia.

Rieli era considerado um dos mais experientes indigenistas no trabalho de monitoramento dos grupos isolados no país e um dos principais defensores dos isolados em atividade no país, além de ser uma referência para os servidores mais jovens. Sua morte causa comoção entre os servidores da Funai e indigenistas.

Um policial militar enviou por áudio para amigos de Rieli um relato do que teria ocorrido. No final da manhã, a Polícia Militar recebeu um telefonema sobre o aparecimento dos isolados perto de um sítio em Seringueiras. À tarde, Rieli foi ao posto policial e pediu apoio para ir à região e checar o que tinha acontecido. Desde junho, quando o grupo conhecido como "Isolados do Cautário" apareceu em Seringueiras, a Funai atua para evitar conflitos entre isolados e não indígenas e também impedir a contaminação pelo novo coronavírus.

O grupo que foi ao sítio, segundo o policial, era formado por dois PMs, Rieli e um indígena amigo do servidor. Segundo o policial, no sítio o grupo percebeu pegadas que levavam à terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau. O grupo se dirigiu para lá, tentando saber se os indígenas haviam regressado para a mata.

Nesse momento, segundo o PM, já dentro da terra indígena, Rieli começou a subir num pequeno morro para observar a região de um ponto mais alto. "A gente só escutou o barulho da flecha, pegou no peito dele, aí ele deu um grito, 'oi', arrancou a flecha, voltou para trás correndo, ele conseguiu correr de 50 a 60 metros e caiu praticamente morto. A gente conseguiu deslocar ele para a viatura, que estava na estrada, viemos para trazer ele no hospital mas ele chegou sem vida. E o nosso amigo se foi, infelizmente."

'Tragédia absolutamente inesperada'

O indigenista Antenor Vaz, um antigo amigo e colega de Rieli na Funai, disse que a morte dele "é uma perda incalculável". "É uma tragédia absolutamente inesperada. Nós [indigenistas] nos colocamos entre os índios isolados e aqueles que ameaçam os índios. Só que os índios não sabem quem são seus defensores. É uma perda incalculável, principalmente para aquela região de Rondônia e Mato Grosso, onde o trabalho dele era muito necessário, uma região de muitos conflitos. Todos os indigenistas estão em luto profundo, um sentimento de grande tristeza. Perdemos justamente uma pessoa que representa a proteção dos isolados."

A antropóloga e indigenista Leila Burger Sotto-Maior, ex-coordenadora do setor de índios isolados e de recente contato da Funai, em Brasília, disse que Rieli era "um homem que abriu mão de muita coisa pessoal para se dedicar à proteção dos índios isolados".

"Dedicado, firme, compromissado, muito organizado. As bases da Funai na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau são as mais bem equipadas, e isso foi tudo feito por ele. Incansável era exigente quanto ao compromisso assumido por um indigenista. Na época do concurso para auxiliares em indigenismo, ele falava 'se não tivermos gente comprometida não adianta, hoje a moçada quer trabalhar com os índios sem ir para o mato'. A grande luta dele era encontrar indigenistas que realmente se entregassem ao trabalho, como ele fez a vida toda. Referência para todos nós. Não consigo mensurar a perda para o mundo indigenista e, menos ainda, para os índios da TI Uru-Eu-Wau-Wau (Amondawa, Uru-Eu-Wau-Wau e isolados). Hoje perdemos um grande homem, um grande mestre, um grande sertanista."

O ex-presidente da Funai e sertanista Sidney Possuelo disse, em nota, que a circunstância da morte de Rieli, seu amigo, "demonstra o descaso e a irresponsabilidade do governo Bolsonaro com relação às questões que envolvem os índios e os funcionários das Frentes de Proteção Etno Ambiental, que são a vanguarda dos trabalhos na selva. Rieli pediu auxílio à Policia porque não tinha funcionários para acompanhá-lo".

"Realmente o governo consegue destruir a Funai como instituição, desamparando os funcionários que estão na missão mais difícil e perigosa e acelerando o processo de destruição dos Povos Indígenas Isolados ou não", disse Possuelo.

'Um dos últimos'

A liderança indígena Beto Marubo, da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), conheceu Rieli por volta do ano 2000, quando dos trabalhos de demarcação da terra indígena no Amazonas. "O Brasil perdeu um dos melhores indigenistas da atualidade. O.Rieli era um dos últimos dos últimos. A nova geração vem aprendendo com esse pessoal e os outros estão muito velhos. Ele era um dos últimos [na Funai]".

Para Beto Marubo, "o mais importante é enfatizar que o incidente vem no momento muito inoportuno". "Infelizmente a política pública que o Rieli ajudou a criar e implementar e que é vital para os povos indígenas isolados do Brasil, que contribuiu inclusive para que o país fosse uma referência na América Latina e até mundial, vem sendo relativizada, vem sendo desconstruída. O que houve com Rieli é o exemplo de um desleixo, da falta de apoio da Funai para ela fazer o trabalho dela. Naquele momento, ele só pôde dispor do apoio da Polícia Militar de Rondônia."

'O que eu quero é que isso aqui continue sendo preservado'

Em um vídeo divulgado nesta noite em redes sociais pelos seus amigos, Rieli aparece respondendo a uma pergunta sobre o que desejava para o futuro do país. "O Brasil que eu quero para o futuro é que isso aqui continue sendo preservado, não só para os índios, mas para toda a população do entorno", respondeu o indigenista.

O grupo conhecido como "Isolados do Cautário" já havia aparecido na zona rural do município em junho passado, mas regressou para a mata. O nome faz referência a um rio da região.

Pela observação que a Funai tem feito à distância nos últimos anos, eles dormem em redes e se alimentam da caça e da pesca dentro da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Andam seminus e têm o cabelo cortado em forma de cuia. O grupo que apareceu em junho era formado por oito a dez indígenas, segundo uma moradora da região.

Nota de pesar da Funai

Em nota, a Funai manifestou "imenso pesar" pela morte do servidor, que era "o coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau e somava mais de 30 anos de dedicação à proteção dos índios isolados no Brasil".

A assessoria de comunicação disse que "a fundação lamenta profundamente a perda e manifesta solidariedade aos familiares e colegas do servidor. As equipes da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e das Frentes de Proteção Etnoambiental se despedem de Rieli com carinho, respeito e admiração".

Citado pela assessoria, o atual coordenador do setor, Ricardo Lopes Dias, disse que Rieli "dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Rubens Valente