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Jornalista Noblat também é alvo de inquérito da PF por frase no Twitter

10.jun.2020 - O ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça durante coletiva de imprensa no Palácio do Planalto - Dida Sampaio / Estadão Conteúdo
10.jun.2020 - O ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça durante coletiva de imprensa no Palácio do Planalto Imagem: Dida Sampaio / Estadão Conteúdo
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

28/09/2020 21h36

O jornalista Ricardo Noblat, colunista da revista "Veja" e do Blog do Noblat, também é alvo de inquérito na Polícia Federal por ter feito um comentário no Twitter, em março. A postagem é investigada no mesmo inquérito aberto para averiguar um comentário na rede social do candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL).

Noblat já é alvo de um outro inquérito aberto pela PF no governo Bolsonaro, depois que ele compartilhou um trabalho do chargista Aroeira que ironizava o comportamento do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia do novo coronavírus.

O segundo inquérito foi aberto a partir de uma manifestação do deputado federal José Medeiros (Podemos-MT) encaminhada ao Ministério da Justiça em 22 de abril. O ministro da Justiça, André Mendonça, requisitou a abertura de inquérito policial na PF para averiguar supostas ameaças contra Bolsonaro.

Na parte relativa a Noblat, José Medeiros mencionou uma postagem do jornalista no dia 27 de março. Naqueles dias, Bolsonaro fazia diversos ataques à imprensa, aos governadores e prefeitos e insistia em descumprir regras de distanciamento social, promovendo aglomerações e desafiando as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a pandemia.

Noblat disse à coluna que leu um comentário irado de um internauta e comentou em seu perfil no Twitter: "Do jeito que as coisas vão, cuide-se Bolsonaro para que não apareça outro louco como Adélio".

Para o deputado Medeiros, a frase "sugere que as pessoas deem facadas no presidente".

Noblat disse que a interpretação, que deu base ao inquérito, é absurda. "Eu fiz o comentário na sequência de um outro comentário que alguém tinha colocado e eu interpretei como um sinal de ameaça. Eu só comentei aquele tuíte que tinha aparecido. Não estava instigando coisa nenhuma. Eu estava dizendo que tem louco para tudo", disse o jornalista.

Com 53 anos de carreira no jornalismo, ex-editor chefe do jornal "Correio Braziliense" e da sucursal do "Jornal do Brasil" em Brasília, Noblat comanda há 16 anos o Blog do Noblat. Já é o quarto movimento de pressão contra sua atividade profissional desde a campanha eleitoral em 2018. Além dos dois inquéritos, ele disse que já foi alvo de dois processos abertos pelo então candidato Bolsonaro, um já arquivado, também após a publicação de uma charge nas eleições de 2018.

"Tudo isso, tanto o primeiro caso quanto o segundo, é uma tentativa de cerceamento da liberdade de imprensa. E também de intimidação. Eles sabem que não está configurado crime algum em nenhum dos casos", disse Noblat.

O jornalista, que trabalha desde 1967, disse que o único paralelo que encontra é o período da ditadura militar (1964-1985). Desde a redemocratização, ele nunca havia sido processado por um presidente da República nem havia sido alvo de inquéritos na Polícia Federal.

"Eu comparo só com a época da ditadura, mas na ditadura era mais bravo, você desaparecia, podia ser torturado, você era morto. Os jornais recebiam ordens da censura para não publicar certos assuntos. Na época da ditadura era muito pior. Agora, que isso é uma demonstração clara da nostalgia que Bolsonaro tem da ditadura, disso não tenho dúvida."

A coluna apurou que uma terceira figura pública, o deputado federal Túlio Gadêlha (PDT-PE), chegou a ser citado no mesmo inquérito que trata de Boulos e Noblat, mas já foi excluído da investigação. Ele teria apenas "curtido" um comentário de um internauta.

O Ministério da Justiça, procurado pela coluna no início da noite, não havia se manifestado até o fechamento deste texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.