PUBLICIDADE
Topo

Rubens Valente

Viagens oficiais de Flávio Bolsonaro incluíram ateliê, cassino e estádio

Flávio Bolsonaro (à esq.) no estádio de futebol de Haifa, em Israel, em outubro de 2019, ao lado da prefeita da cidade, Einat Kalisch, e do suplente de senador Josiel Alcolumbre (AP), irmão do presidente do Senado - Reprodução/Rede social Instagram
Flávio Bolsonaro (à esq.) no estádio de futebol de Haifa, em Israel, em outubro de 2019, ao lado da prefeita da cidade, Einat Kalisch, e do suplente de senador Josiel Alcolumbre (AP), irmão do presidente do Senado Imagem: Reprodução/Rede social Instagram
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

02/11/2020 12h00

Resumo da notícia

  • Com R$ 21 mil em diárias pagas pelo Senado, parlamentar viajou para Las Vegas e Miami, nos EUA, e para Israel em outubro de 2019 e janeiro de 2020
  • Nos EUA, Flávio visitou local de trabalho do artista Romero Britto, hotel-cassino, arena de entretenimento e estádio de futebol americano
  • Em Israel, Flávio foi espectador de um jogo amistoso de futebol com veteranos da Seleção Brasileira em um estádio de Haifa

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) fez duas viagens oficiais ao exterior pelo Senado desde que iniciou o mandato no ano passado: uma para Las Vegas, paraíso da jogatina, e Miami, nos EUA, e outra para Israel, onde foi acompanhar uma partida de futebol de veteranos.

A viagem que o senador fez em janeiro último aos EUA custou R$ 12,5 mil aos cofres do Senado apenas nas sete diárias pagas ao parlamentar. Ele visitou o ateliê do artista plástico Romero Britto, almoçou com executivos de uma empresa de navios turísticos e de hotéis-cassinos e fez "visitas técnicas" a um hotel-cassino, uma arena de música e entretenimento e um estádio de futebol norte-americano em construção.

O roteiro final da viagem foi informado em fevereiro ao Senado em um relatório encaminhado pelo senador Irajá Abreu (PSD-TO), que também participou da comitiva.

A viagem teve a aprovação da Casa e foi considerada a serviço. Irajá também recebeu, segundo os registros do Senado, o total de R$ 14,4 mil por oito diárias. Outro integrante da viagem foi o deputado federal Helio Lopes (PSL-RJ). Eles disseram ter recebido um convite do presidente da Embratur, Gilson Machado.

O Senado também custeou R$ 4,5 mil de diárias de um segurança da Casa. Tudo somado, gastou R$ 31,4 mil só em diárias. A viagem aos EUA foi divulgada, em janeiro, pelo site "O Antagonista".

A viagem para Israel, em outubro de 2019, custou ao Senado R$ 8,6 mil em diárias para Flávio Bolsonaro. Ele presenciou, em Haifa, um amistoso de futebol chamado "Shalom Game", e visitou um "local onde é gerida toda a segurança pública de Israel", segundo o parlamentar, em Jerusalém. O jogo em Haifa teve a participação de craques aposentados, como Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo.

Nos registros do Senado, não aparece um relatório final sobre a viagem a Israel - ao contrário do procedimento adotado pelo senador Irajá na viagem que fez aos EUA.

Equívoco sobre viagem a Noronha, disse senador

Neste final de semana, Flávio Bolsonaro disse em nota que sua equipe se enganou ao pedir ao Senado um reembolso do valor de passagens aéreas para passar o feriado em Fernando de Noronha (PE). A manifestação ocorreu depois que o portal de notícias Metrópoles revelou que o parlamentar havia se deslocado com passagens pagas pelo Senado mesmo sem ter compromissos oficiais no arquipélago.

Diferentemente dos casos de Israel e EUA, a viagem a Noronha não era oficial.

A assessoria do senador, procurada na tarde deste domingo (1), não havia esclarecido até o fechamento deste texto quem custeou as passagens aéreas do senador para os EUA e Israel. Também não houve resposta sobre outros questionamentos feitos pelo UOL.

'Nova arte no forno em homenagem ao presidente'

No dia 22 de janeiro último, o senador postou em suas redes sociais um retrato do seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, feito pelo pintor Romero Britto, pernambucano radicado em Miami (EUA). "Visita ao ateliê do fenômeno e orgulho brasileiro Romero Britto. Nova arte no forno em homenagem ao presidente", escreveu o senador na ocasião.

Em rede social, Flávio Bolsonaro comemora retrato de seu pai pintado por Romero Britto - Reprodução/Redes sociais - Reprodução/Redes sociais
Em rede social, Flávio Bolsonaro comemorou retrato de seu pai pintado por Romero Britto
Imagem: Reprodução/Redes sociais

De acordo com o resumo da viagem encaminhado em fevereiro ao Senado pelo senador Irajá, a visita ao "Studio Romero Britto" ocorreu no dia 20 de janeiro. A visita não era mencionada no pedido da viagem original encaminhado por Flávio Bolsonaro em dezembro de 2019 ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

No seu ofício, Flávio disse que o objetivo era "acompanhar a comitiva da Embratur em reuniões institucionais com o Carnival Group e a Royal Caribbean Internacional, em Miami, no período de 18 a 21 de janeiro de 2020 e com o presidente e CEO do Las Vegas Sand Corporation, Sheldon Adelson, em Las Vegas, nos dias 23 a 24 de janeiro".

"Será uma ocasião importante para a promoção do turismo brasileiro no mercado internacional, que dentre outros temas, abordará questões atinentes à atração de cruzeiros marítimos para a costa brasileira, bem como investimentos para a instalação de novos resorts em nosso país", escreveu Bolsonaro.

Mencionado no ofício do senador, Sheldon Adelson foi considerado pela revista Forbes em janeiro deste ano como o 19º homem mais rico do mundo. Ele é dono de um império de cassinos nos EUA, Singapura e Macau com um patrimônio avaliado em US$ 31 bilhões.

Se Flávio Bolsonaro e comitiva chegaram a se reunir com Adelson, conforme o senador dizia que ocorreria no seu pedido de missão oficial, o magnata não é citado nominalmente no relatório final entregue pelo senador Irajá. O documento diz apenas "reunião com o Las Vegas Sand Corportarion" e "almoço com representantes do Las Vegas Sand Corporation", sem mencionar o nome do bilionário como um dos presentes.

Nas redes sociais dos membros da comitiva, não apareceram fotos do suposto encontro com Sheldon.

Na época da viagem, Flávio Bolsonaro postou em sua página no Facebook em 23 de janeiro: "Investimentos estrangeiros: mais turistas, mais empregos para brasileiros. Recém chegados a Las Vegas, nos reunimos com um grupo de investidores estrangeiros especialistas em resorts integrados. Ouvimos do CEO e Presidente do Grupo, Rob Goldstein, que já foram procurados por vários países, mas o interesse número 1 é no Brasil. Estão dispostos a investir cerca de US$ 15 bilhões de dólares ainda em 2020. Basta fazermos nosso dever de casa".

Ao saber da viagem, em janeiro, o coordenador da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, Silas Câmara (Republicanos-AM), demonstrou incômodo mas minimizou, em entrevista ao "Congresso em Foco", a iniciativa de Flávio de se encontrar com empresários de cassinos nos EUA. A bancada evangélica não aprova iniciativas no Congresso que pretendem legalizar os jogos de azar no Brasil. Câmara disse achar "difícil" legalizar os jogos.

A aproximação dos Bolsonaros com cassinos contraria discurso do então candidato Jair, em 2018. Em uma live, ele disse que o cassino no Brasil "seria uma grande lavanderia, serviria para lavar dinheiro" e também "para destruir famílias".

O relatório de Irajá informa que a comitiva fez uma "visita técnica" ao The Venetian, um luxuoso hotel-cassino de cinco estrelas em Las Vegas, no Estado de Nevada, com mais de 4 mil suítes.

'Muito além de um simples jogo'

No pedido de verba oficial para a viagem a Israel encaminhado a Davi Alcolumbre, em 10 de outubro do ano passado, Flávio Bolsonaro disse que a viagem era necessária para "participar como parlamentar desta Casa", de "eventos na área médica 'apresentação das inovações tecnológicas israelenses' e no 'Shalom Game', na qualidade de senador representante do Estado do Rio de Janeiro". Bolsonaro disse que o convite partiu "do dr. Rotem, prefeito da cidade de Haifa" e de "Mr. Mauro Rosenszajn, CEO da MTR7".

Em suas redes sociais, Flávio postou em 29 de outubro uma foto sua no estádio Sammy Ofer, em Haifa. "Shalom Game! Muito além de um simples jogo, o futebol une nações, sela a paz e alimenta a esperança de milhões de pessoas. Com a prefeita Einat Kalisch e senador Josiel Alcolumbre."

Josiel, empresário e irmão de Davi Alcolumbre, de quem é primeiro suplente no Senado, é atual candidato a prefeito de Macapá (AP) pelo DEM.

Rosenszajn, fundador da MTR7, meses antes do evento foi ouvido pelo UOL. "A ideia do projeto é trazer jogadores, estrelas mundiais, que já foram campeões mundiais, já ganharam prêmio de melhor jogador do mundo, da Seleção brasileira, e reuni-los também com jogadores importantes da Seleção de Israel, tanto judeus quanto árabes."

Viagem buscava atrair investimentos para o turismo, disseram membros da comitiva

Em suas redes sociais em janeiro passado, Hélio Lopes e o presidente da Embratur, Gilson Machado, disseram que a viagem aos EUA tinha por objetivo atrair investimentos para o setor turístico no Brasil. Helio postou em redes sociais, atribuindo texto ao próprio senador Flávio Bolsonaro: "Cada turista de cruzeiro gasta, em média, R$ 581,00 por dia em cada cidade onde desce do navio. Estivemos no maior grupo de cruzeiros do mundo, a Carnival, para entender como tornar o Brasil mais atrativo para o setor de turismo marítimo e é possível fazer isso rápido. No Senado, fui o relator da proposta que aprovou a adesão do Brasil ao tratado internacional sobre legislação trabalhista, viabilizando a contratação de mais brasileiros para trabalhar nos cruzeiros. via: Senador Flávio Bolsonaro".

O senador Flávio Bolsonaro (dir.) durante viagem feita em janeiro.2020 a Miami e Las Vegas (EUA), ao lado do presidente da Embratur, Gilson Machado (de óculos), do senador Irajá Abreu (PSD-TO) e do deputado federal Helio Lopes (PSL-RJ) - Redes sociais/Reprodução - Redes sociais/Reprodução
O senador Flávio Bolsonaro (dir.) durante viagem feita em janeiro.2020 a Miami e Las Vegas (EUA), ao lado do presidente da Embratur, Gilson Machado (de óculos), do senador Irajá Abreu (PSD-TO) e do deputado federal Helio Lopes (PSL-RJ)
Imagem: Redes sociais/Reprodução

Durante a viagem, o presidente da Embratur postou 12 fotos ao lado dos parlamentares: "Agenda de muitas visitas e aprendizado aqui em [Las] Vegas. Muitos investimentos no setor de Entretenimento. A pouca Burocracia facilita".

"Precisamos fomentar a chegada de cruzeiros internacionais ao Brasil. Estou em Miami, nos Estados Unidos, e me reuni com uma das maiores operadoras do setor no mundo, a Carnival Corporation. Acompanhado pelos senadores @flaviobolsonaro @irajasenador e pelo deputado @depheliolopes e do nosso Embaixador @vitorbelfort pude apresentar o compromisso do Governo Federal em quebrar as barreiras que impedem o desenvolvimento do nosso turismo. Em breve teremos ótimas novidades!", escreveu Gilson Machado.

Em um vídeo divulgado pela Embratur em janeiro, o senador Irajá diz que a "vocação do Brasil também é o turismo e eu acredito muito que nós podemos simplificar, desburocratizar a nossa legislação tributária, trabalhista, ambiental, para que, como disse o senador Fábio, se crie um ambiente no país para que tanto a indústria marítima, de cruzeiros, como também os outros segmentos de turismo possam explorar cada vez mais o potencial brasileiro com as suas belezas naturais".