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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Defesa cancelou apoio à operação da PF contra garimpos no Pará

Casa da liderança indígena Maria Leusa Munduruku, incendiada por garimpeiros na Terra Indígena Munduruku, em 26 de maio de 2021Jacareacanga (PA), em  - Divulgação
Casa da liderança indígena Maria Leusa Munduruku, incendiada por garimpeiros na Terra Indígena Munduruku, em 26 de maio de 2021Jacareacanga (PA), em Imagem: Divulgação
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

28/05/2021 11h39Atualizada em 28/05/2021 19h29

O Ministério da Defesa cancelou, sob o argumento de falta de recursos, o apoio logístico que estava previsto à operação da Polícia Federal contra garimpos ilegais desencadeada nesta semana na Terra Indígena Munduruku, em Jacareacanga (PA). Em retaliação à ação da polícia, garimpeiros ameaçaram lideranças indígenas contrárias ao garimpo, queimaram uma casa e atacaram agentes federais no município.

A Operação Mundurukânia integra um conjunto de providências que o governo federal deve tomar por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) no bojo de uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) ajuizada no ano passado pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e relatada pelo ministro Luís Roberto Barroso.

A negativa da Defesa em participar da operação foi informada em ofício enviado no último dia 21 - apenas cinco dias antes do início da operação - à secretaria-executiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Assinado pelo chefe do Gabinete do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, o major brigadeiro do ar Flávio Luiz de Oliveira Pinto, o ofício diz que "o apoio previsto necessitará ser postergado, condicionado ao recebimento dos referidos créditos [orçamentários]".

Segundo o ofício, o Estado-Maior Conjunto aguardava "a disponibilização de recursos extraordinários no Ministério da Defesa para atender à supracitada operação".

Ofício enviado pelo Ministério da Defesa ao Ministério da Justiça em 21 de maio de 2021 - Divulgação - Divulgação
Ofício enviado pelo Ministério da Defesa ao Ministério da Justiça em 21 de maio de 2021
Imagem: Divulgação

A coluna apurou que o papel previsto do Exército era fazer a "manutenção da ordem" na região após a saída dos policiais federais da região e promover a segurança da base usada pela PF para a operação e do perímetro da terra indígena, a fim de impedir o retorno de garimpeiros que seriam retirados pela PF. Os militares também poderiam atuar em locais onde os garimpeiros fizessem aglomerações contra a operação.

Na fase final das reuniões do planejamento da operação, contudo, o Exército informou que não iria mais participar, sob o argumento da falta de recursos financeiros. A presença maciça de tropas militares na região poderia ter desestimulado os garimpeiros a atacarem as lideranças contrárias ao garimpo.

Oficialmente, a PF diz que o plano operacional "foi cumprido" (ver nota abaixo).

Nesta quinta-feira (27), o Ministério Público Federal no Pará enviou uma série de ofícios a órgãos federais para cobrar que a União "proveja e mantenha, seja por conduto das Forças Armadas ou Força Nacional, efetivo armado, dispondo de quantitativo e subsídios materiais suficientes", para dar segurança a pelo menos nove lideranças indígenas que hoje se encontram ameaçadas de morte.

O MPF também solicitou que a União tome medidas a fim de impedir invasões e ataques a cinco aldeias de duas terras indígenas, Munduruku e Sai Cinza.

"O atual ataque engendrado, segundo informações obtidas, tem como foco a invasão da aldeia onde reside a liderança indígena Ademir Kaba Munduruku, no rio Tapajós (Aldeia Santa Cruz) e da aldeia da liderança indígena Ana Poxo (aldeia Poxore, bem próxima a aldeia Sai Cinza), bem como na residência de Isaías Kirixi Munduruku, em Jacareacanga/PA, tendo por finalidade a perpetração de atos destrutivos, similares aos observados na Aldeia tapajós, onde residia Maria Leusa Munduruku. Tais atos dão-se em contexto estratégico e programado de pretensão de silenciamento das lideranças mundurukus, os quais ocorrem - impressionantemente - sob os olhos do Estado brasileiro, que arregimenta cerca de 150 (cento e cinquenta) agentes públicos na região em questão", diz o ofício do MPF encaminhado à Funai, PF e ao Comando Militar do Norte, entre outros órgãos.

No ofício do dia 21 pelo qual informou a impossibilidade de apoio logístico, o Ministério da Defesa reconhece que a operação ocorreria "em atendimento à decisão do Supremo Tribunal Federal, STF, baseada na 4ª versão do Plano de Enfrentamento e Monitoramento à Covid-19 dos povos indígenas, apresentado àquela Suprema Corte no contexto da ADPF nº 709".

Na ADPF, entre vários pontos, a APIB (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) solicitou a retirada de invasores de sete terras indígenas consideradas em situação mais grave, incluindo as terras indígenas Munduruku. No dia 24, o ministro Barroso decidiu que a União tem que agir para manter a segurança física dos indígenas no Pará e também na Terra Indígena Yanomami, em Roraima.

A coluna apurou que a PF considerou que a recusa da Defesa "atrapalhou, mas não impediu a realização da operação". Em nota à coluna, a PF afirmou que "o plano operacional estabelecido na Operação Mundurukânia foi cumprido em sua integralidade, durante os dias previamente fixados para o atingimento dos objetivos da ação, não havendo qualquer supressão, muito menos suspensão da operação. A PF está ciente dos ataques a residência de lideranças indígenas contrárias ao garimpo e instaurou inquérito policial para apuração de responsabilidade. As circunstâncias dos ataques relatados ainda estão sob investigação".

Defesa confirma que "aguarda recursos", mas distorce reportagem

O Ministério da Defesa foi procurado na noite desta quinta-feira (27). Às 18h30 desta sexta-feira (28), o órgão enviou uma nota que distorce a reportagem divulgada mais cedo e ao mesmo tempo, de forma contraditória, a confirma, ao dizer: "O Ministério da Defesa aguarda a liberação de recursos orçamentários extraordinários em ação orçamentária específica deste Ministério para atender às operações contidas no Plano Operacional da Polícia Federal, para o pleno atendimento à decisão da ADPF 709, especialmente na região fora da faixa de fronteira".

A nota adultera o conteúdo da reportagem ao dizer que "não procede a informação de que a 'Defesa cancelou apoio à operação da PF contra garimpos no Pará', como afirmou reportagem do Portal UOL publicada, nesta sexta-feira, 28 de maio, induzindo o leitor à desinformação" porque, segundo o ministério, "ao contrário do que foi dito na matéria, atualmente estão ocorrendo ações de apoio logístico à Polícia Federal contra ilícitos em terra indígena Yanomamis (Palimiú) e na terra indígena Karipuna, sendo essas duas missões dentro da faixa de fronteira".

Em nenhum momento, porém, a reportagem falou que o Exército cancelou operações na terra Yanomami, que fica em Roraima, e na terra Karipuna, que fica em Rondônia. A reportagem, como se vê desde o título, fala da operação na Terra Indígena Munduruku, que fica no Estado do Pará. A coluna reproduziu o ofício do Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do próprio Ministério da Defesa, datado de 21 de maio, que revela o cancelamento da participação das Forças Armadas na Operação Mundurukânia, realizada pela PF. A resposta da Defesa silenciou sobre o ofício do seu próprio oficial.

O Ministério da Defesa disse ainda que "cabe mencionar que, desde 2020, foram realizadas diversas ações das Forças Armadas, em conjunto com a Polícia Federal, nas Terras Indígenas Yanomamis [sic]. Ocorreram, por exemplo, as operações Ágata e Verde Brasil 2. Essas missões obtiveram os seguintes resultados: 135 dias de patrulhamentos em 77 missões em comunidades indígenas, a desativação de 19 garimpos ilegais e 10 pistas de pouso clandestinas. Além disso, houve as ocupações por 590 dias da Base de Apoio e Proteção Etnoambiental (BAPE) no Rio Mucajaí, em apoio à Fundação Nacional do Índio (FUNAI); por 135 dias a Base Waicás no Rio Uraricoera, próximo à região de Palimiú; e a presença das Forças Armadas, em parceria com a PF, por 120 dias na BAPE Araguaia no Rio Uraricoera, dentre outras ações".

Novamente, em nenhum momento, contudo, a reportagem tratou de fatos passados na Terra Indígena Yanomami, e sim da operação na Terra Indígena Munduruku, no Pará.