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Rodrigo Maia não se rende a Paulo Guedes: "CPMF não passa no Congresso"

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

16/07/2020 13h21

O cenário para a guerra está montado. O ministro da Economia, Paulo Guedes, resolveu desafiar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e anunciou que o projeto de reforma tributária do governo incluirá um imposto sobre movimentações financeiras por meio digital.

Na prática, será o equivalente moderno à antiga CPMF, Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras, que foi extinta em 2007.

A diferença é que, na época, a maior parte das transações eram feitas em cheque ou em papel moeda. Hoje os meios digitais dominam as movimentações financeiras. Então não muda o conceito: continuará sendo uma taxação sobre o que se paga e o que se recebe.

Rodrigo Maia já disse milhares de vezes que é contra esse imposto. Que, enquanto presidir a Câmara, a nova CPMF não será votada.

Mas o ministro Paulo Guedes voltou a insistir com a fórmula. Desta vez, ao que tudo indica, com o apoio do Planalto. O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, disse aqui no UOL, que agora acha que o imposto vai ser aprovado pelo Congresso. E que até Rodrigo Maia deverá mudar de posição.

Pois bem, fui perguntar ao presidente da Câmara se, diante da insistência do governo, ele não acha que agora passa. Maia me respondeu de maneira peremptória: "Não passa".

É por isso que eu digo que o cenário para a guerra está montado.

Guedes não aposta à toa na aprovação do imposto. Hoje o Palácio do Planalto contabiliza um apoio importante, além dos generais de plantão. Trata-se do centrão, aquele bloco informal de partidos, sem coloração ideológica, que reúne cerca de 200 e tantos deputados e que costuma dar a vitória ao governo ou à oposição, dependendo de quem apoie nas votações em plenário.

Rodrigo Maia foi eleito presidente da Câmara com apoio do centrão. Até há pouco, era tido como o comandante do grupo. Chegou a evitar essa marca, mas, ao ser reeleito para o comando da Casa dos deputados, acabou se declarando ao bloco.

Mas Bolsonaro seduziu o centrão com aquilo que esse grupo de partidos mais busca, a parcela palpável do poder: cargos e verbas públicas. O centrão era contra a CPMF. Foi graças a esse bloco que o Congresso derrubou o imposto em 2007. Agora, no entanto, já não está tão contrário assim.

Arthur Lira, líder do maior partido do centrão, o PP, disse-me que não acha que o novo imposto seja uma CPMF. Ou seja, adotou o discurso de Guedes: é uma contribuição sobre movimentações financeiras, como a CPMF, mas não é uma CPMF.

Lira, por sinal, já é tratado como candidato à sucessão de Rodrigo Maia no comando da Câmara.
Mas a verdade é que ninguém no Congresso sabe ainda quem terá mais força nas votações: o governo, com os líderes do centrão, ou Rodrigo Maia, com a parcela do bloco que não aderir ao Planalto somada à oposição.

Bem, só vamos saber depois que contarmos os mortos e feridos nessa guerra.

O ex-presidente da Câmara Marco Maciel costumava repetir o mantra de um jogador do Futebol Clube do Porto, em Portugal. Chamava-se João Pinto. E sempre que lhe perguntavam como seria a disputa, ele respondia: "Prognóstico só no fim do jogo".

A CPMF tem mais chances de passar. Mas será uma guerra, e ninguém sabe ainda o resultado.