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Tales Faria

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Desabamento no Rio revela genocídio provocado pela ascensão das milícias

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

03/06/2021 12h03

O desabamento de mais um pequeno prédio na comunidade de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, é emblemático. Representa bem o momento pelo que passa o país. Rio das Pedras é um bairro próximo à Barra da Tijuca e a Jacarepaguá, onde nasceram as milícias na cidade que chegaram a ser saudadas como uma solução para a violência.

Lembra daquele outro prédio que também desabou na Muzema, uma espécie de sub-bairro de Rio das Pedras? Seus construtores chegaram a ser presos sob acusação de serem milicianos. O sucesso temporário da milícia como uma espécie de polícia do bairro provocou um inchamento vertiginoso de Rio das Pedras, com barracos de alvenaria colados uns nos outros e tornando-se pequenos prédios.

Os milicianos armados, além de cobrar pela "proteção", digamos assim, passaram a também cobrar por TVs a cabo clandestinas, bujões de gás e outros serviços. Tornaram-se os grandes empresários da região, até mesmo construindo e vendendo prédios.

O que desabou na Muzema teria sido um desses. Este agora, não se sabe. Mas era uma construção irregular colada às construções vizinhas, também improvisadas, numa das muitas ruelas do bairro.

Milícias como a de Rio das Pedras, formadas sobretudo por policiais e ex-policiais, se apresentaram como força de combate aos traficantes que dominavam as favelas. Acabaram se tornando uma força paralela, ora em disputa, ora em convívio com o tráfico.

Tomaram praticamente todo o estado. Destruíram a hierarquia na polícia e se envolveram até no assassinato de Marielle Franco.

Não resolveram o problema da violência. Pelo contrário, agravaram, mas se espalharam pelo país. Na verdade, hoje há um verdadeiro genocídio de negros e pobres nas favelas e comunidades periféricas dos centros urbanos brasileiros. Com policiais, milicianos e traficantes misturados nesses atos de violência.

Fabrício Queiroz — que foi subtenente da polícia militar por 31 anos e também o principal assessor do senador Flavio Bolsonaro, quando este era deputado estadual Rio de Janeiro — teve seu envolvimento com milícias apontado em investigações do Ministério Público, inclusive com grupos de Rio das Pedras.

As milícias entraram na política e hoje ocupam postos em praticamente todos os partidos, mas com maior concentração nas pequenas legendas de centro e ultradireita.

Como fizeram com a cidade e o estado do Rio de Janeiro, também estão tornando a política brasileira um território violento, com defesa de teses como a da liberação geral do porte e posse de armas, pena de morte e coisas do tipo.

Não à toa, tornaram a palavra genocídio um vocábulo comum nas discussões políticas, ampliado agora com a pandemia do coronavírus e toda essa conversa de que liberdade é poder sair às ruas sem máscaras e propagandear remédios que não fazem efeito.

Tudo isso está representado ali, naquele prédio mal construído que desabou numa comunidade de pessoas pobres e subjugadas por milícias misturadas com o aparato estatal e político.

A pergunta é: como sairemos dessa?