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Thiago Herdy

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Salles: Eleitores do interior do Brasil vão reeleger Bolsonaro

Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente - Fernando Moraes/UOL
Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente Imagem: Fernando Moraes/UOL
Thiago Herdy

Colunista do UOL em São Paulo, foi repórter de O Globo, Época, Estado de Minas e Diário da Tarde. Integrou a equipe do FinCEN Files, investigação finalista do Pulitzer 2021. Vencedor dos prêmios Esso 2008 e 2010 e de menções especiais no Prêmio IPYS/Transparência Internacional, 2009 e 2011. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no biênio 2016/2017. É formado em jornalismo pela PUC Minas.

Colunista do UOL

30/08/2021 07h00

Dois meses depois de pedir demissão e deixar o governo Bolsonaro, o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se mantém fiel ao presidente e diz acreditar que, a despeito de pesquisas que apontam queda de sua popularidade, Bolsonaro será reeleito em 2022 pelas mãos do eleitor do campo e do interior. É a primeira vez que Salles dá uma longa entrevista, depois que saiu do cargo.

Nesta primeira parte, o ex-ministro defende a participação do Centrão no governo, reclama do excesso de beligerância política entre esquerda e direita e diz que seu grupo político respeitará o resultado das eleições, seja ele qual for.

Thiago Herdy - Por que o senhor saiu do governo?

Ricardo Salles - São dois anos e meio de uma vida bastante sacrificada, longe da família, dos filhos, da vida em São Paulo. Ao fim de dois anos e meio eu já tinha colocado as linhas gerais para o Ministério, e esse episódio dos inquéritos, esse excesso de exposição acabou cansando.

O sacrifício na vida privada não era um custo esperado?

Mesmo que esperado, não é pequeno. Foi difícil. A história de você ir e voltar, viajar pelo país. O Brasil é muito grande.

Bolsonaro tem sido crítico ao sistema eleitoral brasileiro. Se perder as eleições, o resultado vai ser respeitado?

Acho que sim.

Acha?

Se ele vai perder, se vai ganhar, nós vamos ter que esperar. Eu acho que a decisão vai ser respeitada. A não ser que tenha uma fraude evidente, uma coisa absurda, mas não vejo muito sentido nisso.

Vê razão para fraude?

Não tenho avaliação sobre esse assunto porque não conheço tecnicamente. Agora, não vejo problema em fazer o comprovante de papel, você não vai substituir a urna eletrônica. É você ter uma possibilidade de auditagem de voto. Mas este assunto está encerrado.

Como integrante do grupo político do presidente, o senhor entende que não há, portanto, risco para aceitação de resultado de eleição no Brasil.

Acho que o Bolsonaro vai ganhar a eleição, portanto essa discussão não faz sentido. Ele está fazendo um bom governo. Tem coisas para melhorar, mas o Brasil melhorou.

A avaliação do presidente está caindo.

Não acredito muito em pesquisa. Diziam que não ia ganhar a eleição e ele ganhou.

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Ricardo Salles diz acreditar que Bolsonaro respeitará o resultado da eleição em 2022
Imagem: Fernando Moraes/UOL

As pesquisas diziam que ele ia ganhar a eleição.

As do finalzinho da eleição, sim. Mas antes da facada, não davam a ele o percentual que ele teve.

Ele não foi se tornando mais conhecido ao longo do período eleitoral?

Esses fatores contam, mas não acho que a pesquisa seja tão fidedigna aqui. O Brasil é muito heterogêneo e as pesquisas tendem a ter uma visão muito concentrada nos centros urbanos. Os centros urbanos são majoritariamente de esquerda. Os votos conservadores, o voto da direita está no campo, isso está claro. No interior do Brasil.

São eles que vão eleger o Bolsonaro?

Não apenas eles. Acho que quando você faz uma pesquisa que foca preponderantemente em centros urbanos, ela está inexoravelmente tendenciosa. Há grandes chances do Bolsonaro ganhar a eleição. E acho que a alternativa ao Bolsonaro no Brasil, que é um fato que também o ajuda bastante, é ter o Lula como adversário.

Dependendo do resultado da eleição, há chance de o Congresso ser invadido, como aconteceu com o Capitólio nos EUA?

Chance zero. O Bolsonaro não fez nenhuma medida antidemocrática, respeitou as liberdades individuais, respeitou o direito. Nunca alguém foi tão criticado pela imprensa como ele foi.

Mas há um debate em torno de certos posicionamentos públicos do presidente que atentam, por exemplo, contra a saúde pública na pandemia.

Para isso tem o Judiciário. Você não tem censura prévia no Brasil, a análise (sobre os limites da liberdade de expressão) se faz posteriormente. É preciso que essa regra da análise posterior valha para todos. Isso não está valendo para aquilo que seja visão de direita, conservadora, pró-Bolsonaro. Quem está sendo intolerante é o pessoal da esquerda.

O presidente não é intolerante?

Não, o presidente é duro, mas é duro dentro das opiniões dele. Acho que opinião você pode dar qualquer uma.

A insistência na defesa do voto impresso e o embate com o STF tira do governo a energia das reformas liberais que o senhor defende?

O governo apresentou as pautas de maneira correta, colocou para avançar a privatização dos Correios, da Eletrobras. Mas, realmente, o excesso de animosidade recíproca acaba atrapalhando. A despeito de todos esses problemas e da pandemia, o Brasil fez reformas estruturais importantes. Cito a da Previdência, a da autonomia do Banco Central, os marcos da liberdade econômica e do saneamento.

É suficiente?

Não.

A postura beligerante do presidente atrapalha?

Acho injusto colocar essa conta só no colo do presidente. Se há um excesso de beligerância hoje na política brasileira, isso se deve a todos os envolvidos.

Há motivo para pedir impeachment de ministro do STF?

Não entro nessa área porque há exacerbação recíproca dos ânimos. Todos deveriam serenar as suas ações e suas medidas.

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"Há exacerbação recíproca dos ânimos", afirma o ex-ministro do Meio Ambiente
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Diante da trajetória do presidente, vê chance dele serenar a postura?

O presidente é muito sincero e transparente, fiel àquilo que defendeu na campanha em 2018. Quem perdeu a eleição não se conforma com isso, e tenta por diversos caminhos impor outras visões.

A pergunta foi especificamente sobre o temperamento do presidente.

Não, mas é que o presidente reage.

Só reage?

Ele reage e se posiciona muito em razão dessa tentativa velada, e cada dia menos velada, de ganhar o jogo no tapetão. De mudar as regras, de não deixá-lo governar, como se a escolha do país por uma via de direita se tornasse ilegítima. É quase como se dissessem: "você ganhou mas não queremos que governe".

É possível realizar um projeto de direita com serenidade e diálogo?

É possível, deve ser feito.

Por que o presidente não faz?

O governo vem tentando fazer isso desde o início. Desde o início a estratégia da esquerda, presente em diversas instâncias de poder, já era bloquear o governo. Nos dois primeiros anos, as pautas que foram encaminhadas, as medidas provisórias foram caducando, decisões foram sendo derrubadas no Judiciário. Gratuitamente, porque era de fato uma questão política.

Mas isso não ocorreu pela força da esquerda, ela não estava no poder.

A esquerda está imiscuída em diversas instituições. Quando eu digo a esquerda, me refiro também a quem ocupa cargo público permanente nos órgãos governamentais, judiciais e de controle. Há de fato uma esquerda que, de forma coordenada ou não, vem travando tudo, como se não fosse legítimo você ter uma mudança depois de 20 anos dela governando.

Quando o senhor era secretário de Geraldo Alckmin, relatou ver o Executivo como refém do Legislativo, naquilo que diz respeito à governabilidade. No governo Bolsonaro é diferente?

Bastante diferente. O presidente Bolsonaro teve uma iniciativa de formar o Executivo sem fazer o toma lá da cá. Por essa postura pagou um preço elevado, sobretudo nos dois primeiros anos, enquanto o presidente da Câmara dos Deputados era o Rodrigo Maia (sem partido). Ele fez com que todas as reformas importantes tivessem uma tramitação muito difícil.

O senhor classificava a relação entre Executivo e Legislativo em São Paulo como tóxica.

O Legislativo representa os eleitores e a sociedade. A relação que se estabeleceu agora com o Legislativo me parece um equilíbrio mais correto do que em outros governos federais. Antes havia um loteamento absurdo do governo em troca de apoio do Congresso. Exemplo disso, o mensalão.

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Ricardo Salles e Jair Bolsonaro, durante a Cúpula do Clima, em abril de 2021
Imagem: Marcos Correa/Reuters

Mas loteamento não é o que está ocorrendo agora? Com o desembarque dos partidos de Centrão no governo?

A proximidade do Legislativo com o Executivo impõe que você abra espaço de participação. Isso é natural. Mas está muito longe de ser o loteamento político de cargos, verbas e estatais como no passado.

Hoje o ministro da Casa Civil é Ciro Nogueira (PP-PI) e o Centrão está pedindo mais cargos ao governo.

O Centrão tinha todos os cargos do governo nos governos passados. Se nesse governo a classe política tem legitimamente alguma participação no governo, em governos passados eles eram donos. Ciro Nogueira tem uma capacidade de articulação política extremamente importante.

Abrir espaço para estes partidos, que no passado eram criticados pelo seu grupo político, não é motivo de constrangimento?

Acho que não. A classe política são os representantes dos estados e dos diferentes partidos. O legislativo tem muita gente boa e parte dessas pessoas está participando do governo.

A participação de certas figuras não aumenta o risco de defesa de interesse privado em vez de interesse público?

Sempre haverá o risco. A diferença é como você lida com o problema. Os governos são grandes demais, por isso que eu defendo uma privatização plena, de todas as estatais, para você diminuir justamente o risco de aparelhamento e corrupção.

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Ricardo Salles afirma que Centrão tem que participar do governo Bolsonaro
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Mas qual a postura do presidente diante disso?

No início o governo foi rigoroso para evitar o loteamento, e foi muito criticado. "Ah, não sabe negociar, não tem diálogo, governo sem jogo de cintura, radical". Aí quando abre para participação, a crítica vira: "olha lá, está fazendo o toma lá da cá, se rendeu ao jogo". Por isso que eu digo que a crítica é contra o governo, não importa o que ele faz.

A crítica de agora é porque os personagens com protagonismo foram envolvidos em escândalos de corrupção em governos anteriores.

São os políticos que os eleitores brasileiros elegeram.

O mesmo que dizia o Lula ao justificar o governo de coalizão.

Se a sociedade brasileira quer ter outros políticos, ela tem que eleger outras pessoas.