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Ex-jogador de beisebol morreu de causas naturais, não por conta da vacina

Ex-jogador de beisebol Hank Aaron, morto em janeiro de 2021 - Getty Images
Ex-jogador de beisebol Hank Aaron, morto em janeiro de 2021 Imagem: Getty Images

Do UOL, em São Paulo*

09/02/2021 13h08

É falso que Hank Aaron, ex-jogador norte-americano de beisebol, morreu por um efeito adverso da vacinação contra a covid-19, conforme sugerem publicações no Twitter nos Estados Unidos e no Brasil. Aaron tomou a vacina da farmacêutica Moderna no dia 5 de janeiro no Morehouse School of Medicine, em Atlanta, na Geórgia, e morreu 17 dias depois, de causas naturais, segundo verificações da imprensa dos Estados Unidos.

A vacinação de Aaron, um ícone do esporte, foi usada para estimular a imunização nos Estados Unidos. Após sua morte, postagens nas redes sociais começaram a ligar o acontecimento à vacinação e veículos do país fizeram a checagem. À rede NBC, a equipe de legistas que examinou o corpo do ex-jogador afirmou que ele morreu de "causas naturais". Em um comunicado, o Atlanta Braves, time de beisebol pelo qual Hank jogou, disse que ele morreu "pacificamente, enquanto dormia".

Ao Comprova, o infectologista Evaldo Stanislau, da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que, embora as vacinas possam apresentar efeitos adversos, como qualquer medicação, não há estudos que revelem relação de causa e efeito entre a vacinação e este tipo de morte

Como verificamos?

Pesquisamos sobre Hank Aaron, sua história, luta e os recordes conquistados. Buscamos matérias publicadas em portais de notícias para entender as circunstâncias de sua morte. Também buscamos o contato do local em Fulton County responsável pela autópsia, mas não encontramos as informações.

Conversamos com o professor-doutor Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas, em São Paulo, para tirar dúvidas sobre reações adversas de vacinas e o tempo médio de resposta do corpo para a imunização após tomar a vacina.

Procuramos ainda a Moderna, farmacêutica responsável pela vacina aplicada em Aaron, por meio do seu e-mail internacional, mas não tivemos resposta até o fechamento da verificação.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 2 de fevereiro de 2020.

Verificação

Aaron morreu de "causas naturais"

Hank Aaron tomou a vacina da Moderna em 5 de janeiro no Morehouse School of Medicine, em Atlanta, na Geórgia. Dezessete dias depois, em 22 de janeiro, ele morreu, aos 86 anos.

Como aqui no Brasil, grupos antivacina começaram a levantar relações entre a vacinação e a morte do ex-jogador, visto que sua imagem foi utilizada para estimular a imunização no país. À NBC News, o grupo médico que examinou o corpo do ex-jogador afirmou que ele morreu de "causas naturais". Da mesma forma, por meio de comunicado, o Atlanta Braves, seu time de beisebol, lamentou o ocorrido e disse que ele morreu "pacificamente, enquanto dormia".

Ao jornal The New York Times, que também desmentiu a corrente, os responsáveis pela autópsia em Fulton County afirmaram que sua morte "não teve nada a ver" com a vacina. Segundo eles, não havia nenhum elemento que sugerisse que Aaron teve qualquer tipo de reação alérgica ou anafilática à vacina.

No dia em que foi vacinado, Aaron escreveu no Twitter: "Fiquei orgulhoso de receber a vacina COVID-19 hoje cedo na Morehouse School of Medicine. Espero que você faça o mesmo!". Em entrevista à Associated Press, ele afirmou se sentir maravilhoso ao ser vacinado.

Além dele, foram vacinados o ex-embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU) e líder dos direitos civis Andrew Young e o ex-secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA Louis Sullivan. A estratégia foi incentivar a vacinação das pessoas no estado da Geórgia.

"Causas naturais" não têm relação com vacinação

De acordo com o professor e infectologista Evaldo Stanislau, toda vacina tem uma quarta fase de testes que se dá exatamente no período de vacinação. O objetivo é acompanhar os vacinados e descobrir se eles apresentam alguma resposta padrão. Morrer de causas naturais, no entanto, não é uma delas.

"Nessa fase, a gente observa coisas que eventualmente não foram confirmadas nos estudos. Em teoria, se você vê algo que ocorre com muita frequência, pode analisar causa e efeito [entre a vacinação e a resposta]. Aí, nesse caso, me parece uma casualidade", afirmou o médico.

Segundo Stanislau, o tempo médio para que um imunizante faça efeito é de 15 dias. Neste período, uma pessoa pode, sim, contrair a doença e sofrer suas enfermidades - mas não foi o caso do ex-jogador.

"Qual a função da vacina? Induzir nosso sistema imunológico a produzir uma defesa contra o agente. O efeito de uma vacina é ensinar o sistema imunológico e produzir defesas. São como patrulhas que ficam no nosso corpo. Se o vírus entra em contato com o organismo, essa patrulha vai crescer, proliferar e impedir, mas perceba que isso leva um tempo para se consolidar, não é imediato. Demora, em média, pelo menos duas semanas", explicou o especialista.

Ele alerta que é preciso seguir tomando precauções mesmo após a vacinação. "Tomar vacina e ser infectado pouco depois é possível, sim, porque o corpo ainda não está imune. Por isso, é importante que a pessoa, quando tomar vacina, continue se protegendo", alertou o infectologista.

Quem foi Hank Aaron?

Henry Louis Aaron, nome completo de Hank Aaron, nasceu no dia 5 de fevereiro de 1934, em uma região pobre de Mobile, no Alabama. Terceiro de oito filhos de Estella e Herbert Aaron, um assistente de caldeireiro, estudou o ensino médio no Central High School. Além de jogador, Hank Aaron foi empresário e filantropo.

Desde a infância, Aaron desenvolveu uma habilidade e gosto para o beisebol. Aaron foi um dos principais esportistas das Ligas Negras e se tornou um ícone da Liga Principal do Beisebol. Começou na carreira aos 20 anos, em 1954, sendo rebatedor ativo no Milwaukee e Atlanta Braves até 1976. Aaron bateu recorde de 755 home runs (uma rebatida que permite ao autor marcar um ponto e, potencialmente, fazer com que outros companheiros marquem); foi eleito para o Hall da Fama do Beisebol em 1982.

Quem é Robert F. Kennedy Jr.

O tuíte é de autoria de Robert F. Kennedy Jr. e foi reproduzido no Brasil por grupos que também costumam questionar as vacinas. Kennedy é um advogado e ambientalista norte-americano, filho do senador Robert F. Kennedy e sobrinho do presidente John F. Kennedy, ambos já falecidos.

Apesar de não ser um profissional da saúde, Kennedy é conhecido pelo ativismo contra as vacinas nos Estados Unidos. Em suas redes sociais, como Instagram e Twitter, há postagens criticando as vacinas em fase de desenvolvimento e sua utilização contra o novo coronavírus. Em sua própria família, uma das mais influentes na política norte-americana, sua postura já foi criticada.

Kennedy foi verificado em agosto de 2020 pelo Comprova após um post do blog católico Mater Salutis viralizar nas redes alegando que as vacinas contra a covid-19 podem provocar dano genético irreversível e são um crime contra a humanidade. O advogado foi investigado, pois o texto seria uma mensagem assinada por ele. Dias depois o post foi retirado do ar por não ser possível comprovar a autoria, segundo um administrador do blog católico.

Na verificação feita em 2020, o Comprova mostrou que antes do início da pandemia, uma reportagem do Washington Post afirmava que Robert F. Kennedy Jr. era um dos dois maiores patrocinadores de anúncios com desinformação sobre vacinas no Facebook.

O tuíte do advogado foi compartilhado por diversas páginas no Brasil, inclusive por páginas já verificadas anteriormente pelo Comprova.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. É importante investigar conteúdos duvidosos sobre vacinação e pandemia, pois é justamente o trabalho da ciência que garante a erradicação de doenças e a preservação da vida.

Compartilhamentos como este visam descredibilizar a vacinação ao redor do mundo colocando em xeque a eficácia das vacinas, dados cientificamente comprovados no caso de Moderna, Pfizer/BioNTech, AstraZeneca/Oxford e CoronaVac. Até o fechamento da publicação, as duas contas de Twitter que tuitaram sobre o conteúdo falso tiveram 27 mil interações.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

*O material foi produzido por veículos integrantes do projeto Comprova: UOL, Coletivo Niara e Rádio Nordeste

O Comprova é um projeto integrado por 24 veículos de imprensa brasileiros que descobre, investiga e explica rumores, conteúdo forjado e táticas de manipulação associados a políticas públicas. Envie sua pergunta ou denúncia de boato pelo WhatsApp 11 97795 0022.

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