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CPI da Covid: Mandetta acerta sobre vacinação e erra em alertas da pandemia

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) durante depoimento à CPI da Covid no Senado - Jefferson Rudy/Agência Senado
O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) durante depoimento à CPI da Covid no Senado Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Juliana Arreguy

Do UOL, em São Paulo

04/05/2021 15h13Atualizada em 04/05/2021 20h03

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) foi o primeiro convocado a depor na CPI da Covid no Senado, na tarde de hoje (5). À Comissão Parlamentar de Inquérito, comentou orientações do ministério no início da pandemia. O UOL Confere checou as principais declarações.

Ministério orientou ida a hospital se infectado tivesse sintomas graves

Isso não é verdade. Estávamos no mês de janeiro, fevereiro, não havia um caso registrado dentro do país. O que vimos eram as pessoas em sensação de insegurança, pânico, porque viam no mundo inteiro a situação (...) e as pessoas procuravam hospitais no intuito de fazer testes (...) Só tivemos transmissão comunitária depois do dia 24 de março (...) Todas as orientações são para dar entrada pelo sistema de saúde.
Mandetta em depoimento à CPI da Covid, em 4/5/2021

No mês de março —ou seja, após o período mencionado por Mandetta—, a orientação do Ministério de Saúde era que a população buscasse orientação em UBS (Unidades Básicas de Saúde), e não em hospitais, em caso de sintomas leves de covid-19. O próprio ministro declarava, à ocasião, que pacientes com sintomas leves deveriam cumprir isolamento em casa e não procurar unidades de saúde.

Não precisa do teste para confirmar, não. Sintoma de gripe: catarro no nariz, febre, dor no corpo, dor na garganta, todo mundo sabe o que é uma gripe. Se estou com gripe, isolamento.
Mandetta em coletiva, em 19/03/2020

Mandetta defendeu, em entrevista coletiva no dia 19 de março, que "cerca de 86% das infecções por coronavírus, são de fácil recuperação e apresentam apenas sintomas leves". No dia seguinte, a pasta declarou estado de transmissão comunitária da covid-19 no Brasil — quatro dias antes da data fornecida pelo ex-ministro na CPI.

Apenas em julho o Ministério da Saúde passou a orientar que a população buscasse atendimento médico aos primeiros sintomas. Já ex-ministro, Mandetta se manifestou contra a alteração do protocolo alegando que a medida provocaria aglomeração nos hospitais. A recomendação da gestão Mandetta é alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro.

Ministério distribuiu, sim, cloroquina a estados

O Ministério da Saúde não distribuiu [cloroquina] para estados e municípios.
Mandetta em depoimento à CPI da Covid, em 4/5/2021

Apesar de ter declarado que o uso da hidroxicloroquina deveria ser feito em hospitais, e não em casa, o ministério de Mandetta anunciou que aplicaria a medicação em casos graves de covid-19 e distribuiu, sim, a droga a estados e municípios. O próprio ministro relatou isso no dia 25 de março, sob alegação de que os benefícios da droga superavam os riscos.

A partir de amanhã, o Ministério da Saúde passa a distribuir para os estados 3,4 milhões de unidades de medicamento.
Mandetta em coletiva, em 25/3/2020

É falso que clima tropical influencie pandemia

Você em situação de pandemia cria muitas falsas versões. Combatíamos naquela época teoria de que cidades quentes, tropicais, não terão problema. Eu me lembro dessa teoria, era uma cantilena. Eu alertava Manaus, Cuiabá, falava para tomarem cuidado.
Mandetta em depoimento à CPI da Covid, em 4/5/2021

O ex-ministro afirmou que no início da pandemia tinha de lidar com a desinformação em torno do vírus. Mas o exemplo que ele utilizou foi de uma frase dita pelo próprio, em 26 de fevereiro, alegando que era necessário observar o comportamento do coronavírus num país de clima tropical.

Não se sabe se por aqui se o vírus acelera ou desacelera. Os vírus se comportam de forma diferente no Hemisfério Norte e no Hemisfério Sul. Esse é um vírus que surgiu em baixa temperatura. Pode não ter o mesmo comportamento. Pode ser para melhor ou para pior. O Brasil é um país de pessoas mais jovens e está no verão. Esse é um período pouco propício para um vírus respiratório por aqui.
Mandetta em 26/02/2020

O ministro também não manifestava preocupação específica com o Amazonas, mas sim com estados que fizessem fronteira com outros países. Em relação às capitais, dizia preocupar-se mais com o contágio no Rio de Janeiro do que em São Paulo por causa da dificuldade em conter o vírus nas favelas.

É verdadeiro que não havia vacina contra covid

A porta de saída era a vacina, mas elas ainda estavam no momento de concepção de fórmula ou na fase 1. Em maio, depois de eu ter saído do ministério, é que a primeira vacina começa a ter a fase 2.
Mandetta em depoimento à CPI da Covid, em 4/5/2021

De fato, enquanto Mandetta foi ministro da Saúde, os laboratórios ainda não haviam concluído testes de segunda fase com vacinas contra a covid-19, conforme painel da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Embora alguns testes de fase 2 tenham se iniciado antes de maio, eles só terminaram depois do final da gestão de Mandetta, em 16 de abril.

Em janeiro, OMS não recomendou restrições, mas alertou que países avaliassem situação interna

A gente seguia nesse momento as recomendações da OMS. A OMS não mandou fechar voos da China. (...) Expressamente ela [OMS] dizia que não era para fazer restrição de movimentação. Não havia nenhum caso registrado dentro do Brasil.
Mandetta em depoimento à CPI da Covid, em 4/5/2021

Mandetta disse a frase acima após ser questionado sobre o motivo pelo qual não pediu ao presidente Bolsonaro, no fim de janeiro de 2020, que cancelasse o Carnaval (22 a 25 de fevereiro de 2020). A alegação do ex-ministro é verdadeira, mas deixa de lado uma ressalva feita pela OMS.

Em 30 de janeiro, mesmo declarando emergência global, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, afirmou que não recomendava "limitações de comércio ou de movimento". Naquele momento, para a OMS, as restrições poderiam interromper a chegada de ajuda e apoio técnico, mas deveriam ser avaliadas individualmente pelos países, respeitando suas especificidades.

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