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Representante das Testemunhas de Jeová nega que atirador foi expulso de congregação

Hanrrikson de Andrade

Especial para o UOL Notícias<br>No Rio de Janeiro

10/04/2011 07h00

O superintendente do circuito RJ-07 das Testemunhas de Jeová, Antônio Marcos Oliveira, negou que Wellington Menezes de Oliveira, autor do massacre em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, foi expulso de sua congregação por discordar da postura religiosa da entidade, em 2009. Segundo ele, enquanto criança, o criminoso frequentou o templo, que atualmente está instalado no Jardim Sulacap, na zona oeste da cidade, mas desistiu da crença no início da adolescência.

"Nenhuma testemunha de jeová pode ser excluída de sua congregação", disse. Baseando-se nos diálogos com os membros mais velhos, o superintendente classificou Wellington como uma "criança introvertida, sem comunicação, que já apresentava problemas".

O suposto melhor amigo do atirador, aqui identificado como G.S., afirmou que ele e Wellington foram expulsos por divergências com um antigo superintendente do circuito RJ-07, que hoje reside fora do Rio de Janeiro, de acordo com Oliveira. O representante religioso também revelou que a mãe adotiva, Diceia Menezes de Oliveira, apresentou alguns distúrbios psicológicos no período em que foi praticante das Testemunhas de Jeová. Ele não soube informar quais foram esses problemas.

A entrevista ao UOL Notícias foi a primeira manifestação de um representante das Testemunhas de Jeová desde que Wellington invadiu a escola Tasso da Silveira, em Realengo, e matou brutalmente 12 crianças, na última quinta-feira (7). Oliveira -que assumiu o posto de superintendente há dois anos- disse que apenas os fiéis mais antigos lembram do rapaz, que estava sempre acompanhado da mãe adotiva.

"Ele vinha sempre com a mãe e já mostrava, desde pequeno, sinais de anormalidade. Ele parou de frequentar o templo naquele período de rebeldia da adolescência, nunca mais voltou. Certamente não teve tempo para estabelecer um contato maior com a religião e com as leis da Bíblia", afirmou o superintendente.

Antônio Marcos Oliveira argumentou que o templo não trabalha com cadastramento de membros e, por esse motivo, a reportagem do UOL Notícias não teve como checar se os nomes de Wellington e do suposto melhor amigo constam em uma hipotética lista de fiéis. Sobre G.S., o representante do templo de Jardim Sulacap disse que nunca ouviu falar do rapaz e se mostrou surpreso com as revelações dele a respeito do período no qual foi praticante das Testemunhas de Jeová, conforme mostrou o UOL Notícias neste sábado.

"Nunca ouvi falar nesse rapaz", disse Oliveira, que posteriormente demonstrou preocupação com um possível ato contra a instituição.

"Teremos que tomar providências", afirmou. Embora tenha insistido que o rapaz nunca foi um membro das Testemunhas de Jeová, o representante religioso não descartou a possibilidade de que G.S. tenha frequentado o templo no período anterior à sua chegada, isto é, quando a entidade estava na rua Nogueira de Sá, em Realengo. "As nossas reuniões são públicas", explicou.

Segundo Oliveira, o teor religioso do discurso de G.S. -que chegou a dizer que o massacre no colégio Tasso da Silveira foi uma espécie de justiçamento contra as Testemunhas de Jeová- pode ser uma evidência de "mente psicótica". O superintendente afirmou ainda que a mágoa do rapaz não é compatível com a religião: "Se ele é uma pessoa temente a Deus, sabe que a vingança é uma coisa errada. Não se pode fazer justiça com as próprias mãos. Só Deus pode fazer isso", disse.

O representante também explicou que as Testemunhas de Jeová abominam qualquer contato com armas de fogo e, por esse motivo, não é permitido que os fiéis ingressem no serviço militar. No total, 126 pessoas frequentam o templo, das quais cerca de 40% são jovens. A mudança para o imóvel de Jardim Sulacap ocorreu no ano passado.

Ato falho

Um dos membros do templo de Jardim Sulacap, identificado como Sandro Constan, acabou cometendo um ato falho ao questionar sobre as características físicas de G.S., suposto melhor amigo de Wellington Menezes de Oliveira: "Você já viu o tamanho dele?", perguntou em referência ao porte físico do rapaz.

Questionado se ele conhecia G.S., Constan disse apenas que teve um "contato visual", pois reside na região de Realengo. "Ele tem um jeito diferente", afirmou ele, que não quis dar mais detalhes.

Entenda o caso

Na quinta-feira (7), por volta de 8h30, Wellington Menezes de Oliveira entrou na escola Tasso da Silveira, em Realengo, dizendo que iria apresentar uma palestra. Já na sala de aula, o jovem de 24 anos sacou a arma e começou a ameaçar os estudantes.

Segundo testemunhas, o ex-aluno da escola queria matar apenas as virgens. Wellington deixou uma carta com teor religioso, onde orienta como quer ser enterrado e deixa sua casa para associação de proteção de animais.

O ataque, sem precedentes na história do Brasil, foi interrompido após um sargento da polícia, avisado por um estudante que conseguiu fugir da escola, balear Wellington na perna. De acordo com a polícia, o atirador se suicidou com um tiro na cabeça após ser atingido. Wellington portava duas armas e um cinturão com muita munição.

Doze estudantes morreram --dez meninas e dois meninos-- e outros 12 ficaram feridos no ataque.

Na sexta (8), 11 vítimas foram sepultadas nos cemitérios da Saudade, Murundu e Santa Cruz. Já no sábado pela manhã, o corpo de Ana Carolina Pacheco da Silva, 13, o último a deixar o Instituto Médico Legal (IML), foi cremado no crematório do Carmo, no centro do Rio.

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