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Cotidiano

Legado das chuvas: Teresópolis (RJ) tem bairros-fantasmas e "vale de pedras"

Janaina Garcia

Do UOL, em Teresópolis (RJ)

13/01/2012 06h00

Quem chega ao bairro da Posse, em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, ouve logo de início o aviso dos moradores e dos raríssimos comerciantes do local: depois das 19h ou 20h não é bom ficar de bobeira na rua. O lugar, eles garantem, virou “um fantasma” após as fortes chuvas que deixaram quase 400 mortos na cidade, há um ano.

Já perto dali nem é preciso ser avisado: é fácil perceber que pouco sobrou do bairro de Campo Grande, mais da metade dizimado com o deslizamento de pedras cujo tamanho e quantidade, a olhos vistos, ainda impressiona.

Às margens do vale de pedras em que se transformou Campo Grande, os poucos moradores que sobreviveram estão em casas próximas a um riacho formado após a tragédia e na direção de morros de onde as pedras deslizaram em janeiro de 2011.

Eles contaram à reportagem do UOL que não recebem aluguel social e que só não deixam as construções --algumas, em risco evidente não apenas pela localização, como pelas rachaduras expostas-- porque não têm garantias de área segura e definitiva para onde ir.

"É fechar os olhos e lembrar dos gritos"

“Eu não tenho amor a uma casa, mas à minha vida. Se tivesse para onde ir, já tinha me mudado daqui. Estou desesperada para me mudar. A qualquer hora que fechar os olhos a gente vai lembrar das pessoas pedindo socorro, gritando”, diz a empregada doméstica Lourdes Rocha da Silva, 51.

Moradora do que restou de Campo Grande, ela perdeu cinco familiares nos deslizamentos e agora abriga na casa pequena, de dois quartos, outros seis parentes --entre os quais, o pai, de 87 anos, e família do filho mais velho. Antes, eles ficaram seis meses morando em abrigo até que a residência que sobrou, a da matriarca, fosse liberada.

Segundo dona Lourdes, o local se transforma mais radicalmente, em relação ao que já foi antes das fortes chuvas, na parte da noite. “Antes eu gostava daqui, agora tenho medo de andar na rua, ainda mais à noite. Virou um bairro fantasma”, constata.

Olhando para o vale onde a lama e as pedras gigantes mataram amigos, conhecidos e parentes, ela finaliza a conversa: “Isso aí vai ser lembrado por toda a vida. E o pior é saber que aqui não tem ninguém fazendo nada por ninguém e ainda tem um monte de pedra para rolar.”

Pelo bairro, poucas obras em barrancos são vistas ao lado de maquinário parado --em plena tarde de uma sexta-feira.

Corpo foi achado há poucos dias

Na estrada da Posse, a caminho de Campo Grande, o comerciante Sebastião José da Rocha, 65, mostra as duas paredes que ficaram de pé ao lado do bar que ele comanda. “Aqui era um hotel do meu irmão. Ele e uma camareira se salvaram”, conta, para indicar, na mesma rua, também os restos de uma casa tomada pelo barro seco. É lá onde, há menos de dez dias, foi encontrado o corpo de uma vítima. “Era de uma mulher. E ficou praticamente o dia todo aqui até ser retirado --e justo aqui, que virou um bairro fantasma”.

Para o comerciante, o aspecto do bairro após a tragédia, a contar pelo ritmo das obras, deve demorar a ser recuperado. “As obras aqui são lentas demais. As crianças crescem com essas imagens na mente, sabe? Esses dias mesmo o prefeito [Arlei Rosa] veio até aqui perto ver como estava, mas nem parou. Aí é essa poeira quando não chove, e lama, com chuva. Não dá”.

Ao lado do bar de Rocha, faixas pedem “socorro” ao prefeito com a seguinte mensagem: “A poeira está vitimando crianças e idosos. Não aguentamos mais esse cenário. Lembre-se: somos eleitores”. Não há assinatura de um ou outro morador específico --só da “Associação de Moradores Sofredores”.

Na enxurrada, Dalva disse à filha: "agora somos nós"

Também na Posse, a cozinheira Dalva de Abreu, 53, lembra que por pouco não desceu enxurrada abaixo --se salvou, conta, porque ficou agarrada às grades do portão de casa. A cachorra de estimação, presa aos galhos de uma árvore, também se safou.

“Vi pessoas que desceram gritando em meio aos escombros. Na hora, ainda falei à minha filha: ‘Acho que agora somos nós’. Ficamos, mas hoje virou esse lugar sombrio onde a gente tem medo de chegar à porta de casa, quando escurece, de tão vazio. Eu arrumei minha casa, e quem sabe se os órgãos públicos tivessem arrumado ao menos a rua, isso aqui não seria diferente?”, indaga. Se ela se mudaria de lá? A pergunta é interrompida com um convicto “ontem”.

Do outro lado, silêncio e imbróglio político

A reportagem tentou ouvir o prefeito Arlei de Oliveira Rosa sobre as obras que não foram ou que são feitas em ritmo lento, mas, nas três tentativas feitas por telefone --duas delas, em Teresópolis--, ele não retornou o pedido de entrevista.

Desde que foram feitas as primeiras constatações do MPF (Ministério Público Federal) e da CGU (Corregedoria Geral da União) sobre desvios de recursos públicos para reconstrução dos estragos, o município já enfrentou a cassação do prefeito eleito, Jorge Mario Sedlacek, em dezembro, e a morte do vice-prefeito, Roberto Pinto, que sofreu um infarto dois dias depois da posse.

Então presidente da Câmara Municipal, Rosa acabou empossado até que a Justiça Eleitoral dê a palavra final sobre a realização ou não de eleições.

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