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Cotidiano

Jipeiros enfrentam lama, rios e pedras para levar comida a comunidades ainda isoladas em Nova Friburgo (RJ)

Janaina Garcia

Do UOL, em Nova Friburgo (RJ)

16/01/2012 06h00

Olhar os bairros urbanos destruídos pela chuva de um ano atrás em cidades da região serrana do Rio de Janeiro nem de perto lembra o drama enfrentado ainda hoje por populações que vivem praticamente isoladas em vastas áreas da zona rural. As condições impossibilitam não só atendimento médico quando necessário, por exemplo, como afetam diretamente a fonte de renda dessas famílias: sem acessibilidade, são comuns as queixas de pequenos produtores de morango e amora que não conseguem escoar seus produtos.

O UOL acompanhou integrantes de uma ONG do Rio que, criada nos primeiros dias após a tragédia, arrecada mantimentos e os leva a essas comunidades localizadas em pontos de difícil acesso no município de Nova Friburgo --o mais afetado pela tragédia, de acordo com as estatísticas oficiais, com mais de 400 mortos.

Iniciada como um grande grupo de mobilização pelas vítimas por parte de um grupo de jipeiros, a ONG ganhou o nome de Ceso-RJ (sigla para “Convergindo Esforços, Superando Obstáculos”) e reúne hoje principalmente profissionais liberais e estudantes com diferentes níveis de preparo para atuação de áreas de risco --de personal trainer a publicitário, alguns com jipes capazes de enfrentar a lama, outros estudados nas técnicas de rapel e munidos de equipamentos como rádio-comunicador e GPS.

Comboio na lama

O UOL acompanhou o Ceso no dia em que, além da entrega de cestas e fardos de água mineral a famílias isoladas, a ONG realizou também um estudo das vias de acesso ainda problemáticas ou completamente inviáveis, na zona rural, 12 meses após a tragédia.

Os bairros visitados foram o Córrego Frio e o Jardim Suíço, que concentravam chácaras e sítios de pessoas principalmente do Rio e casas simples da população local. Logo de início, saltam aos olhos penhascos formados pelo encontro das estradinhas de terra com as encostas atingidas pela chuva e ilesas de qualquer obra de recuperação.

A lama chega a atolar parte de um dos jipes da caravana, que precisa ser puxado pelos voluntários. Aqueles que monitoram as condições meteorológicas alertam: há previsão de chuva, portanto, há que se sair antes que caia alguma gota. “Se a gente não sair antes, fica preso aqui. Em dezembro, quando viemos próximo ao Natal, aconteceu isso”, lembra Diogo Falquer, 22, estudante e responsável pelo GPS que orienta o grupo.

"Quando chove, o telhado balança", diz criança

Na primeira parada, uma família com pai, mãe, avó e duas meninas pequenas conta as dificuldades potencializadas pela chuva. “Ficou muito ruim viver aqui. Se chove, a gente fica preso. Se alguém passar mal, está 'lascado': o posto mais perto aqui é o do centro da cidade. E sem estrada pra escoar a produção, fica tudo retido”, conta o lavrador Joelson Herdi Simas, 39.

A mulher dele, a dona de casa Sonia Antonia do Nascimento, 30, perdeu seis parentes ali perto. “Ajudei a retirar corpo da lama, não foi fácil”, lembra. Ana, uma das crianças, mostra que o medo de uma chuva mais forte não é exclusiva dos adultos: “A gente fica com medo de o telhado desabar. Ele balança, quando chove”.

Alguns metros adiante pela estradinha precária e escorregadia, outro lavrador reclama do acessibilidade ruim para os produtos do local. A área rural de Nova Friburgo era pródiga na produção de morango e amora, comum, depois da chuva, apenas a áreas mais altas não atingidas pela lama, ou menos afetadas, e em estufas.

“Estamos abandonados. Eu mesmo vivo de donativos: perdi minha casa, não consegui o aluguel social e vivo aqui nesse sítio onde sou caseiro sem receber salário --depois da chuva, a patroa [do Rio] parou de me pagar”, diz João Carlos Overnei, 45. “Deus salvou minhas três crianças e eu, mas o resto, aqui, acabou”.

O fundador da ONG, o publicitário Klaus Denecke Rabello, 34, segue à frente do grupo com um megafone à mão. É ele quem faz contato com as famílias pelo caminho quando o acesso dos jipes fica impossível e pergunta se elas têm água potável e comida.

Em uma dessas paradas com o megafone, o grupo chega ao barraco onde vivem nove pessoas que sobreviveram aos deslizamentos. Juntos, construíram uma ponte improvisada de madeira que não os deixa completamente à míngua. Eles perderam uma integrante nas chuvas --uma jovem com deficiência mental. Ninguém ali recebe aluguel social ou tem emprego.

Trilha, lamaçal e o encontro com morador que vive no mato há 30 anos

A última empreitada da caravana é também a mais difícil: a partir dali, os jipes não atravessam e todo o caminho com os mantimentos precisa ser feito a pé. O destinatário é um homem isolado no meio da mata e que há alguns meses não era visto pelos membros da ONG.

Entre mata, pedras, rios e alguns atoleiros, os integrantes e a reportagem chegam a Sebastião Monteiro, 57, o seo Tião, depois de pouco mais de uma hora de caminhada. Seo Tião custa a se lembrar da própria idade e confessa: não sabe em que dia, mês e ano está.

“Minha casa foi embora, fiquei purinho. Um vizinho aqui morreu, e, se eu não estivesse fora na hora da chuva, tinha morrido também. Fiquei só com um casal de cachorros que escapou também”, conta. Há 30 anos vivendo na mata, ele lamenta não haver um posto de saúde perto. “Aqui é um lugar difícil, né? E esse terremoto que caiu [a chuva de janeiro de 2011] piorou muita coisa. Até hoje tem duas raparigas aqui perto que desapareceram”.

Para o chefe do grupo, falta preparo a equipes de resgate e de assistência a vítimas de tragédias, como as da região serrana, e sobra inoperância em relação a obras ainda não feitas ou executadas a ritmo lento, um ano depois.

"Nós tentamos ajudar o governo fazendo esse estudo das rotas, ou levando outras informações dessas áreas às autoridades e à mídia --além, é claro, de aprendermos muito como seres humanos. É preciso que todos saibam o que está acontecendo com essas pessoas isoladas; não é possível que isso continue”, diz Rabello.

Enquanto fala com a reportagem do UOL, já fora do bairro, Rabello --que é budista e mestrando em filosofia --rabisca em um papel uma frase que, garante, permeia as ações do Ceso: “O eu como perspectiva de ação do Todo”. No dia seguinte, um domingo, eles seguiriam já bem cedo, com mantimentos, a outro bairro rural. "Lá também tem produtor rural que amarga prejuízo até hoje e não consegue escoar a produção", avisa o líder do grupo.

A ONG tem cerca de 1.200 cadastrados em uma página no Facebook e faz visitas de finais de semana às comunidades isoladas. Os interessados em participar também podem acessar o endereço oficial do grupo, no blog: cesorj.blogspot.com/.

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