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"Vai minha filha, me espera", diz mãe em enterro de capitã do Exército morta em Santa Maria

Marco Antônio Teixeira/UOL
Ao lado dos avós, a filha da capitã do Exército Daniele Dias de Mattos se emociona durante o sepultamento da militar no Cemitério de Inhaúma, zona norte do Rio de Janeiro Imagem: Marco Antônio Teixeira/UOL

Felipe Martins

Do UOL, no Rio

2013-01-30T17:49:40

30/01/2013 17h49

O corpo da capitã do Exército, Daniele Dias de Mattos, 36, foi enterrado por volta das 15h desta quarta-feira (30) no Cemitério de Inhaúma, na zona norte do Rio de Janeiro. A militar foi uma das vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), na madrugada do último domingo (27).

Daniele era médica cardiologista e trabalhava no HCE (Hospital Central do Exército), em Triagem, zona norte do Rio. Ela estava de férias na cidade gaúcha, onde trabalhou por cinco anos na unidade de saúde do Exército.

Ela foi enterrada sob honras militares, realizada por cerca de 40 homens. Aos prantos, os pais Sergio Pires de Mattos e Maria Cristina Dias de Mattos, e a filha da militar, Anna Carolina, 14, jogaram pétalas de flores sobre o caixão.

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“Vai minha filha, me espera”, repetia a mãe de Daniele seguidamente sobre o túmulo da filha. “O que eu pude fazer por você, eu fiz em vida. Todo o carinho e apoio você sempre encontrou em mim. Você sempre foi amiga dos parentes, dos pacientes. Minha filha, eu te amo”, foram outras das últimas frases ditas pela mãe ao despedir-se.

Cerca de 100 pessoas acompanharam o velório e o cortejo que seguiu da Capela Santa Isabel ao cemitério, em uma caminhada que durou cerca de 20 minutos. Familiares e amigos usavam uma camisa com a foto da médica. A mãe de Daniele precisou do amparo de uma militar.

Dez homens do Batalhão de Guarda, também conhecido como Batalhão do Imperador, ficaram ao lado do carro onde o caixão era levado. Já no cemitério, o caixão foi conduzido por seis militares. Ainda durante as honras militares, ao aproximar-se do jazigo onde o caixão seria enterrado, 30 homens da Guarda Fúnebre deram três descargas de fuzil ao chão, seguidos do toque de silêncio.

Mais cedo, na Capela Santa Isabel, local do velório, os pais da vítima receberam o apoio de parentes e amigos. A bandeira do Brasil foi colocada sobre o caixão fechado. 

A tenente Silvia Nobre, colega de Daniele na unidade coronariana no HCE (Hospital Central do Exército), veio ao velório e lembrou a convivência com a amiga. "Ela era uma menina muito especial. Eu chamo de menina porque, apesar de ser uma capitã, ela tinha uma inocência de menina. Era uma pessoa muito simples, muito feliz, que vai fazer muita falta. Tinha uma luz diferente", lembrou.

Sobre o trabalho da militar, a tenente ressaltou a dedicação. "Ela tinha essa coisa de querer salvar vidas o tempo inteiro. Sempre chegava cedo ao serviço. Perdia a hora do almoço porque ela se importava com os pacientes. Ela era mais que uma militar, mais que uma médica. Foi uma perda irreparável", descreveu.

A tenente diz acreditar que Daniele se dedicou a salvar as vidas das vítimas do incêndio. “A Dani tinha vários cursos de salvamento, inclusive em catástrofes. Creio que, se a Dani morreu, foi com certeza salvando alguém do incêndio. É impossível imaginar que ela não estivesse ajudando as pessoas", disse.

Segundo a tenente e amiga, Daniele começou a carreira militar no Rio em 2005, como aspirante no HCE, após se formar na Escola de Saúde do Exército, foi para Santa Maria, onde ficou por cinco anos, voltando a trabalhar no HCE em 2011.

Ela deixa uma filha de 14 anos. "A vida da Daniele era a filha dela. A gente a chamava de 'pãe'. Era uma mãe excepcional. Uma pessoa muito humana", descreveu a tenente do Exército.

Ainda no velório, Rosalina Cardoso, 65, prima da militar, cobrou a investigação do caso. “Que a justiça seja feita para que isso não aconteça com outros jovens”, disse.

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