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Repórter do UOL desafia premonição, embarca no "voo da morte" e sobrevive

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do UOL, em São Paulo

26/11/2014 13h38

Nossa que título, hein!? Deve ser a manchete mais sensacional que um corriqueiro voo São Paulo-Brasília já recebeu. As portas do avião se fecharam às 8h28 e, na fileira 13, um grupo de empresários chineses nem imagina que essa conexão guarda um presságio mortal. Um deles ronca já na decolagem.


Mas uma senhora de vermelho parece aflita à minha frente. Ela levanta do assento e confere os rostos dos outros passageiros como estivesse vendo retratos num obituário. A tensão é tanta que ela pergunta quando um comissário se aproxima:

"Esse avião não cai, não, né?"

"Não, pode viajar tranquila", responde o funcionário.

Entro no clima e disparo: "O pouso na avenida Paulista é às 8h32 mesmo?". O comissário Aderizio Gonçalves abre o sorriso e corrige: "Está programado para o aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, às 10h12". Insisto: "Não é por acaso a avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo?". Outra risada encerra a provocação.

Jucelino, aliás, é o nome do vidente que teve a premonição de que esse voo se chocaria com um prédio da esquina da avenida Paulista e da alameda Campinas, no centro paulistano.

Jucelino Nóbrega da Luz diz que teve um sonho em 2005 e registrou em cartório sua visão catastrófica. Nela, o avião das 8h30 do dia 26 de novembro de 2014 teria um problema técnico e despencaria em pleno centro financeiro do Brasil. Ele vislumbrou até o número do voo, JJ3720, e a companhia aérea, a TAM.

Tanto detalhe, e o fato de ter supostamente antecipado a morte do presidenciável Eduardo Campos, deram uma áurea de mediúnica verdade à previsão. Jucelino saiu anunciando sua visão por todos os cantos e muita gente foi no embalo.

Logo uma curiosidade histérica tomou as redes sociais e foi mantida pela ração diária de manchetes do tipo "Vidente avisa de queda de avião na avenida Paulista", "Síndico de prédio faz comunicado sobre premonição", "Empregados em pânico pedem folga", "Lojas e escritórios fecham por temor", "Empresa aérea muda número de voo" e, finalmente, "Vidente volta atrás e diz que avião não cai". E para fechar: "Evento do acidente é marcado no Facebook", mostrando que sua relevância era similar à de uma guerra coletiva de travesseiros ou a uma caminhada de zumbis.

Será que o vidente embarcou?

Apesar de descrente, eu estipulo uma norma de segurança antes de embarcar: ao chegar para o check-in, pergunto se um tal de Jucelino está entre os passageiros. Já fico roteirizando uma trama em que o vidente sacrifica sua própria vida para salvar seu célebre pressentimento. O agente de aeroporto se nega a  falar: "Não podemos abrir. É sigilo".

A negativa reativa na minha cabeça cenas de filme-catástrofe e reportagens de desastres. Surgem imagens do longa-metragem norte-americano "Premonição" (2000) ou então Cazuza uivando na TV: "Eu vi a cara da morte/E ela estava viva". Já prevejo um fim bem patético para meus dias: ser coadjuvante em uma remake tupiniquim do 11 de setembro, quem sabe batendo no prédio da Fiesp, deixando ainda mais queixosos os combalidos industriais paulistas.

De repente são os últimos minutos da minha vida. A fila de embarque é o corredor da morte. O café da manhã em Congonhas é a última refeição de um condenado. O café aguado, o suco azedo e o pão de queijo murcho são a derradeira punição. A música ambiente dentro do avião é o último prego no caixão: uma cantora da nova MPB grita com piruetas vocais e poéticas, que são uma tortura.

A pedido dos tripulantes, desligo computador, câmera e celular para não ficar com a culpa pela tragédia. Escuto as instruções de segurança como nunca, com suas máscaras de oxigênio e os assentos flutuantes.

Tenho nos tímpanos ainda a locutora do aeroporto anunciando "a última chamada" do voo e aquilo ganha tons de trombetas do apocalipse. Recordo a visão há pouco, pela janela do táxi, da praça vizinha a Congonhas que homenageia os mortos no acidente da mesma TAM em 2007. Lembro a cara do taxista que me levou para o aeroporto e ficou boquiaberto ao saber que eu iria entrar no voo da premonição. Ele até engoliu o "boa viagem" que ia me dar como despedida.

Na hora do check-in no totem eletrônico, o aparelho me deu até a chance de trocar de avião. Como cheguei cedo, ele me perguntou: "Manter voo original?" ou "Alterar para este voo?". Seria um sinal?

Na hora de colocar o nome e telefone do contato em caso de acidente, digito A-M-A-N-D-A e lembro dela falando: "Agora você provou para mim que é um cético. Eu nunca embarcaria nesse avião". A palavra "destino" impressa no bilhete ganhava um novo e definitivo significado.

Jornalismo é um sacerdócio

Alguns colegas de Redação se despediram de mim ontem (terça-feira, 25) como se eu fosse um enviado para decapitação no Estado Islâmico ou contaminação no foco de ebola na África. Denão, o cinegrafista preocupado, perguntou: "Por que você faz isso? Você é louco?".

Outros zombaram do aviso mortal. Andrea, a secretária sarcástica, emitiu a passagem e provocou: "Compra só ida ou ida e volta?". Com o bilhete já comprado, até brinquei que iria mandar um e-mail de despedida, típico dos demissionários e demitidos: "É o fim de um ciclo, aprendi muito, parto para um novo desafio".

O único consolo para um jornalista que morre em um desastre aéreo é saber que não vai trabalhar na cobertura. Além disso, eu ainda poderia angariar umas notas elogiosas na mídia, afinal, todo defunto vira santo nas primeiras 48 horas post-mortem. No âmbito pessoal, a vantagem é que não vou precisar cumprir todos os planos de vida (os 1.000 lugares, músicas e livros que tinha de conhecer antes de morrer).

Só não seria o morto mais famoso dentro da aeronave, afinal, o vice-presidente da TAM Ruy Amparo decidiu embarcar para provar a segurança da companhia. "Assim que soube dessa premonição decidi vir junto", afirmou. Ele jurou que não houve cuidado extra com o avião. A tripulação foi confirmada um dia antes, e o avião foi decidido no dia, afinal, na noite anterior, houve tamanha tempestade em São Paulo que desorganizou o tráfego das naves.

"Graças a esse vidente, a gente encheu de jornalistas esse voo. Quarta-feira costuma ser um dia fraco", se divertiu o executivo aos microfones do programa "Pânico na Band". Como os jornalistas não costumam ser muito originais em suas ideias, havia repórteres de TV, jornal e internet a bordo, no saguão de São Paulo e no de Brasília.

"Eu rezei o voo inteiro, mas faço isso sempre. Vocês não? Tenho uma filha de 12 anos e não pretendo morrer tão cedo", contou ao final da jornada o comandante Fábio Pope. O único momento de tensão no voo foi quando ele anunciou que o avião iria sobrevoar Ribeirão Preto durante 20 minutos para que o tráfego na pista brasiliense fosse liberado. "Temos combustível suficiente", acalmou os passageiros mais afoitos. Fora umas trepidações leves ao passar pelas nuvens, não houve outro percalço na viagem.

Nada de anormal aconteceu. O avião pousou às 10h35 no Distrito Federal, e nem um aplauso foi ouvido. Passados uns instantes, o repórter do "Pânico" se lembrou do costume e tentou puxar as palmas, sem sucesso. As caras corporativas, cabelos aparados e ternos alinhados que poderiam ser lobistas, vendedores ou membros do terceiro escalão de Brasília não expressavam nada.

O comissário anunciou "Bem-vindos a Brasília", e assim terminou mais uma missão da "profissão repórter, profissão perigo", um sacerdócio que faz encarar a morte de frente. Bom, chega desse tom épico que eu vou almoçar no saguão para voltar para São Paulo.

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