Com lixo reciclado, artesão constrói Rio em miniatura em garagem de favela

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

No Rio de Janeiro de Luiz Silveira, 47, nunca há engarrafamentos e todos os dias são dias de praia. Também é possível cruzar a avenida Brasil e a ponte Rio-Niterói em minutos e pegar, sem fila, o bondinho até o Pão de Açúcar.

Mecânico e soldador, ele se orgulha de ter reconstituído boa parte da capital fluminense entre as quatro paredes da garagem de sua oficina, na favela Metrô Mangueira, comunidade vizinha ao Estádio do Maracanã e que a Prefeitura do Rio de Janeiro tenta remover desde 2010. Pelas mãos de Luiz, antigos pedaços de motores e peças encontradas no lixo se transformam em pontes, prédios e cenários típicos cariocas.

Santa Teresa, Copacabana, a praia Vermelha e a Central se sobrepõem a outras maquetes representado a avenida Brasil, a ponte Rio-Niterói e a Quinta da Boa Vista, entre outros locais da cidade. A preocupação com os detalhes é tão grande que há espaço até para uma "máquina de fumaça" construída por Luiz com uma panela de pressão e um ventilador que solta pequenos jatos cada vez que um avião "aterrissa" no Aeroporto do Galeão.

Ele conta que o hobby teve início há cerca de sete anos, quando ganhou um bondinho de um amigo e resolveu colocá-lo em movimento. "Depois que eu botei o bondinho para andar não consegui mais parar: fiz os Arcos [da Lapa], as ruas embaixo dos Arcos… A vida mudou para mim."

Luiz, que nunca deixou o Rio e se sente medo só de pensar em andar de avião, divide seu tempo entre os consertos na oficina, o estudo do trompete e as maquetes, que trata como parte da família.  "Eu passo a semana, o mês, todo aqui, não sinto falta de sair. Quero ir à praia, tenho a baía de Guanabara, a praia do Flamengo. Quero ir a Niterói, tenho a ponte", diz. "Eu já vivo no Rio de Janeiro, tenho tudo dentro de casa."

Com o tempo, conta, o trabalho foi ganhando admiradores. "O povo brasileiro é muito carente. Todos brincaram pouco. Tenho clientes que dizem que vêm aqui consertar o carro, mas o carro não está com defeito, eles começam a brincar com a maquete" lembra.  "Um cliente traz um carinho, outro um brinquedo. Tem um filho que tem um carrinho sobrando e diz, 'vou levar para o tio'. Nisso arrumei muitos sobrinhos."

Luiz já fez uma exposição no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) e outra durante a Rio+20. A inspiração vem toda de sua cabeça e de algumas sugestões de amigos. Um cartaz colado em uma das paredes pede desculpas pelas maquetes não serem iguais à realidade. "Não desenho, escrevo nada. Faço aquilo que fica guardado na minha mente", diz.

Ele faz graça com a possível remoção da favela, planejada pela prefeitura para, segundo a administração municipal, dar espaço a um centro comercial reunindo as lojas de autopeças, borracharias e oficinas que já funcionam na região. "Ah, mas eles não iriam acabar assim com a cidade do Rio de Janeiro".

Se pudesse, gostaria de ganhar um espaço maior para as maquetes, hoje guardadas de forma improvisada – a praia Vermelha fica presa em uma das paredes, na vertical, enquanto a Quinta da Boa Vista está pendurada sobre a avenida Brasil. "Quem sabe até ter um caminhão para levar o Rio para o Brasil conhecer", sonha.

Ele diz que até já recebeu propostas para vender as maquetes, mas prefere manter a sua pequena cidade dentro da Metrô Mangueira. "Se eu vou fazer uma outra que eu nunca fiz, ela aceita. Se eu vou fazer outra igual, ela começa a quebrar. Dar problema", afirmou. "Não tenho como vender. Já imaginou vender a ponte Rio-Niterói?"

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