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'A escravidão hoje é mais cruel do que a dos negros africanos', diz fiscal

Lúcia Valentim Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

2015-06-27T06:00:00

27/06/2015 06h00

Marinalva Dantas libertou 2.354 pessoas do trabalho escravo durante seus dez anos em um grupo de trabalho no Ministério do Trabalho. Ela integrou o Gertraf (Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado), criado em 1995 pelo governo Fernando Henrique Cardoso para combater esses crimes.

Apesar da década de trabalho e dos 20 anos completados pelo órgão federal, ela diz que ainda estamos "nos primeiros passos" para extinguir a escravidão e que ela é pior do que os grilhões enfrentados pelos negros que vieram da África e que durou até 1888. "A escravidão hoje é mais cruel do que a dos negros africanos", compara. 

“Antes, as crianças até sete anos se alimentavam bem e ficavam na Casa Grande, sendo poupadas do trabalho. Não era por bondade, mas para valorizar a propriedade, que era o escravo. Hoje em dia não há a nutrição nem a comodidade da casa do senhor de engenho. Também não tem Lei do Ventre Livre [que garantia a liberdade a filhos de escravos nascidos no Brasil]. Quem nasce de um trabalhador mantido em cativeiro vai provavelmente se tornar escravo também.”

Ela, que se diz uma “estudiosa do cativeiro”, não sabia quantas pessoas tinha libertado até que sua vida virou livro. "A Dama da Liberdade" (ed. Benvirá), do jornalista Klester Cavalcanti, foi lançado nesta semana em São Paulo e mistura a trajetória da paraibana com o relato das pessoas que ela resgatou Brasil afora.

“Escolhi a Marinalva para ser a cara do livro por ela ser mulher e nordestina, tendo de fazer esse trabalho num país machista como o nosso”, explica o premiado autor de “Dias de Inferno na Síria”.

“Quando nós auditores descobrimos a degradação dentro da riqueza, isso teve um grande impacto. O primeiro foco foi no Pará pela violência desmedida, que ultrapassava tudo o que a gente podia pensar. Em Mato Grosso, também chamou a atenção pela força do agronegócio”, conta ela.

Mas, para a paraibana de 61 anos, ainda falta uma "operação Lava Jato do trabalho escravo", algo que chame a atenção para a luta contra a escravidão que ainda atinge milhares de pessoas no Brasil. "Nem sei como seria", diz, ao comparar com o que considera estar sendo uma "aula à distância de direito penal", com a investigação de dirigentes de empreiteiras suspeitos de terem pagado propina a políticos em obras de grande porte no país. "Mostrou que todas as pessoas estão sujeitas à lei. De repente, entra o Estado armado e diz que a lei veio para ser cumprida."

Direito dos bichos

Ela critica o fato de que, no Brasil, o crime de arrancar as penas de uma arara sai mais caro do que manter um homem escravo. “Deveria haver uma multa moralizante. Os escravos não têm nem mesmo os direitos dos animais. O Ibama consegue impor uma multa administrativa, mas os fiscais de trabalho escravo têm de juntar 15 autos de infração trabalhistas para caracterizar o trabalho escravo. Ou seja, a gente combate o trabalho escravo sem falar dele.”

Contudo, ela não perde a esperança e diz ser “possível” acabar com a escravidão. “Atualmente, com sanções morais, começou a dar prejuízo [ter escravos]. Doendo no bolso, começa a não valer a pena [para o fazendeiro]. Se perderem a terra, vai ser mais custoso ainda.”

Ela diz que a liminar atual do STF (Supremo Tribunal Federal), emitida por Ricardo Lewandowski, que impede a divulgação da lista suja das empresas que usam trabalho escravo, vai contra a luta nacional. “Mas estamos dando os primeiros passos. E acho que isso vai ser revertido.”

Ela diz que ainda sonha. “Meu sonho é um dia procurar, procurar e não achar mais nenhum escravo. Poder dizer que não há escravo nem trabalho infantil no Brasil.”

É essa a razão de ainda não ter se aposentado, embora pudesse: “Quero fazer parte disso, do grupo que vai conseguir isso [o fim da escravidão], por isso nunca parei de combater”.

“O livro é a maior contribuição que eu pude dar. Não escrevi, mas me expus para as pessoas ficarem tocadas com o que eu vi e vivi.”

Não sem sofrer. Passar boa parte do mês longe de casa em operações de combate ao trabalho escravo consumiu seu casamento e um pouco da relação com os dois filhos. “Paguei caro. Mas não existe nenhuma luta sem alguma renúncia, alguma perda. A luta é muito grande para existir sem sacrifício.”

Top dez dos Estados com mais escravos libertados

1 - Pará: 12.761

2 - Mato Grosso: 5.953

3 - Goiás: 3.893

4 - Minas Gerais: 3.829

5 - Maranhão: 3.137

6 - Bahia: 3.089

7 - Tocantins: 2.856

8 - Mato Grosso do Sul: 2.602

9 - Rio de Janeiro: 1.555

10 - São Paulo: 1.412

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