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Estiagem seca reservatórios do NE, e carros-pipa abastecem 3,7 mi

A barragem de Pau dos Ferros, no oeste do Rio Grande do Norte, usa o volume morto para abastecer carros-pipa - Divulgação/Moesio Marinho
A barragem de Pau dos Ferros, no oeste do Rio Grande do Norte, usa o volume morto para abastecer carros-pipa Imagem: Divulgação/Moesio Marinho

Aliny Gama e Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

12/09/2015 06h00Atualizada em 14/09/2015 09h41

O quarto ano seguido de chuvas abaixo da média deixou ainda mais críticos os níveis dos reservatórios de água no Nordeste. Hoje, 3,7 milhões de pessoas na região necessitam de abastecimento por meio de carros-pipa cedidos pelo governo federal.

Segundo o Monitor de Secas do Nordeste do Brasil, da ANA (Agência Nacional das Águas), cinco Estados enfrentam regiões com quadro de “seca excepcional”, ou seja, em maior nível em uma escala que vai de zero a quatro: Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.

“Essa seca se iniciou em 2012 e tivemos uma sucessão de anos com chuvas abaixo da média, de pouca recarga em todos reservatórios. É uma situação grave”, diz o meteorologista da Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos), Raul Fritz.

Segundo ele, a construção de reservatórios nos últimos anos impede de se fazer uma comparação da situação atual de abastecimento com secas passadas. “São condições de reserva bem diferentes. Outra seca parecida foi entre 1979 e 1983, mas não tínhamos essa estrutura hídrica, e as pessoas sofriam mais”, afirma.

No Ceará, 119 dos 153 reservatórios estão com índice abaixo de 30%. O triênio 2012-2014 no Estado foi o mais seco da história recente do Ceará. 

“O grande reservatório do Ceará, o Castanhão, está com 15,98% de volume de armazenamento. Corre-se o risco de desabastecimento da Grande Fortaleza, coisa que nunca ocorreu desde que o açude foi criado”, afirma Fritz. O açude foi inaugurado no final de 2002 para acabar com os problemas no abastecimento.

Atualmente, segundo o Ministério da Integração Nacional, 748 municípios são atendidos pela Operação Carro-Pipa nos nove Estados do Nordeste. Em julho de 2012 --ano da maior estiagem em 50 anos--, eram 662 municípios atendidos. Ao todo, hoje, 3,7 milhões pessoas são beneficiadas por meio de 6.527 carros-pipas contratados.

Seca pelos Estados

O Estado com maior área de seca excepcional é Pernambuco, onde 38 dos 79 reservatórios entraram em colapso. “Pernambuco apresenta condições de seca em todas as regiões do Estado. No agreste e no sertão, a seca varia de grave (S3) a excepcional (S4), com impacto de curto e longo prazo”, aponta o Monitor de Secas.

O maior manancial do Estado, o Engenheiro Francisco Saboia, em Ibimirim, está com apenas 4,8% do volume total. Os outros três reservatórios do sertão central já secaram.

Na Paraíba, segundo o Monitor de Secas, “apenas uma pequena área no litoral norte com condições de normalidade, enquanto todo o restante do estado está sobre influência de seca”. O Estado é, proporcionalmente, o com maior população dependente de abastecimento por carros-pipa: 435 mil, ou 11% da população do Estado.

Em junho, o governo paraibano anunciou um plano de combate aos efeitos da seca com investimentos de R$ 133 milhões.

No Piauí, a falta de chuva agravou ainda mais a situação em junho. A parte mais afetada fica na divisa com o Ceará. “O estado apresenta-se com influência de seca em toda sua área, com grau de severidade variando de grave a excepcional, com impacto de curto e longo prazo”, diz o Monitor.

Filas pela água

No Rio Grande do Norte, 19 dos 41 reservatórios secaram ou estão com índices inferiores a 5% de água. A região oeste do estado é a mais afetada. É lá que está o município e Luís Gomes, que há quatro anos enfrenta o colapso no abastecimento. A água não chega aos canos depois que o único manancial que abastecia a cidade, o Açude Dona Lulu Pinto, secou.

Para ter água, os moradores fazem fila com baldes e outras vasilhas para pegar água dos carros-pipa. A aposentada Maria Luisa da Conceição, 79, é uma das que carrega água duas vezes por dia. "Aqui a gente dá graças a Deus por receber essa água dos caminhões porque, se não fosse isso, não teríamos condições de comprar água pelo preço que vendem aqui", relatou.

Filas de moradores para pegar água distribuída em carros-pipas em Luís Gomes (RN) - Moesio Marinho/Divulgação
Filas de moradores para pegar água distribuída em carros-pipas em Luís Gomes (RN)
Imagem: Moesio Marinho/Divulgação

Mas segundo alguns moradores, a quantidade de água distribuída não é suficiente. "A gente ainda precisa arrumar dinheiro para comprar água para usar quando o caminhão não vem. Compro 13 mil litros de 15 em 15 dias", contou a dona-de-casa Rita da Silva, 66, que diz gastar R$ 250 por mês com isso.

Apesar da situação crítica, as perspectivas não são das melhores para o final de 2015 e início de 2016.

“Temos um grande 'El Niño' em andamento, que prejudica a chuva no Nordeste. Dificilmente teremos a quantidade que se deseja para recarregar os reservatórios. Ainda que chova regularmente no próximo ano, pode ser pouco. Estamos acompanhando o fenômeno, monitorando o oceano Atlântico, para saber o impacto e assim ajudar na confecção de políticas públicas”, explica Raul Fritz.

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