Cimi contesta governo e diz que 22 índios foram feridos em confronto no Maranhão

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Beto Macário/UOL

    4.mai.2017 - Placa indica cerca elétrica em terreno sob tensão de retomada de área por autodeclarados índios gamelas no Maranhão

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O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) divulgou neste sábado (6) uma lista com 22 nomes de índios que teriam sido agredidos durante confronto do grupo com posseiros no município de Viana, região da Baixada Maranhense, no último dia 30. Os dados mostram que 17 índios da etnia Gamela sofreram ferimentos e não procuraram atendimento hospitalar com medo de represálias dos posseiros.

Oficialmente, o governo do Estado afirma que cinco índios deram entrada em hospitais e seis fizeram exame de corpo de delito depois que a Polícia Civil identificou, em uma busca na região do confronto, que eles apresentavam ferimentos. Dois posseiros foram atendidos em hospitais da rede pública, um deles permanece internado. Nenhum dos feridos corre risco de morte.

Três índios continuam internados no hospital Dr. Tarquínio Lopes Silva, em São Luís. Todos eles foram baleados e dois deles tiveram membros atingidos por golpes de facões. O gamela José Ribamar Mendes, 46, relatou que ficou com a mão pendurada pela pele ao ser agredido por grupo armado com facões e armas.

A comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) seccional Maranhão vai pedir intervenção da Anistia Internacional para atuar nos conflitos agrários existentes no município de Viana.

Lista de feridos

O Cimi informou que 17 índios feridos foram atingidos por facões, pauladas, pedradas e sofreram escoriações ocorridas durante a fuga. Uma índia de 10 anos teria tido uma arma apontada contra a cabeça e ficou "em estado de choque".

"Conforme o Governo do Maranhão, só houve cinco feridos entre os indígenas. Isso porque os dados oficiais se limitam aos Gamela que deram entrada em alguma unidade hospitalar. De acordo com os indígenas, representantes do governador Flávio Dino não apuraram feridos entre o povo que por motivos de segurança - medo de represálias - decidiram não seguir para atendimento médico na região de Viana", alega o Conselho.

O órgão destaca o caso da índia Dilma Cotrim Meireles Gamela como o de "maior gravidade médica" entre os índios que não foram hospitalizados logo após o confronto. A índia foi atingida por pedaços de madeira e pedradas na cabeça, depois passou a ter vômitos, tontura, desorientação. "Na quarta-feira (2), a indígena precisou realizar exames no Hospital Central e terminou internada, recebendo alta no início da noite desta sexta-feira (5)", explica  o Cimi. Dois filhos da índia - J.M.S, 14, e N.M.S, 12, - também se feriram.

"O poder público, mais especificamente o governo do Maranhão, parece desconhecer o que ocorre no campo brasileiro. Se trata de uma realidade, como a que vemos no ataque contra os Gamela, que envolve o Estado diretamente, as suas instituições, no caso a polícia, e a delegacia e o hospital não são locais seguros se é possível evitá-los", diz o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Maranhão, Rafael Silva. Ele esteve durante a semana na região do confronto para acompanhar as investigações sobre o ocorrido.

O conselho também contesta a alegação da Secretaria de Estado da Saúde ao afirmar que os índios Aldelir de Jesus Ribeiro, 37, e José Ribamar Mendes, 46, sofreram fraturas profundas nas mãos e não tiveram membros amputados. O Cime diz ter ouvido testemunhas afirmarem que a intenção dos agressores era "arrancar as mãos dos ladrões de terra". A OAB-MA e a Sociedade Maranhense de Diretos Humanos também afirmam que os dois índios tiveram membros decepados.

"Nos causa estranheza e revolta a insistência do governador Flávio Dino em negar o que fotos e imagens que correm o mundo mostram. Decepamento a golpes de facão se transformou em fratura exposta sem causa para o governador. Incitada à barbárie, uma turba tenta arrancar as mãos de dois indígenas e o governo se detém a uma discussão mórbida de manipulação da opinião pública. Chegamos ao ponto do Estado ser tão cruel quanto os agressores", critica o Secretário Executivo do Cimi, Cleber Buzatto.

A Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Participação Popular informou ao UOL, neste domingo (7), que o governo do Estado determinou à Polícia Civil que fosse à área do confronto procurar por outros feridos, sendo que, na ocasião, foram localizados seis e todos levados para exame de corpo delito.

O governo do Estado solicita que outros feridos que foram localizados por organizações da sociedade civil e pelas próprias lideranças indígenas devem procurar a delegacia de polícia de Viana para registrar Boletim de Ocorrência e ser encaminhado para realização de exame de corpo delito.

A nota ainda destaca que a índia Dilma Cutrim Meireles ao procurar o serviço de saúde foi "prontamente atendida em hospital local, após contato de organização da sociedade civil, e posteriormente transferida para São Luís, onde recebeu tratamento e posterior alta".

O governo destacou ainda que reforçou o policiamento nos municípios de Viana, Matinha e Penalva a fim de evitar novos atos de violência. Além disso, reforçou a segurança dos hospitais públicos do Estado, onde se encontram internados os feridos.

Lista de feridos e baleados, segundo o Cimi:

1 - Benedito Lourenço Baía Filho;
2- Leonete Mendonça dos Santos;
3- João Pereira Silva;
4- Raimundo Pereira Meireles;
5- Ademir Meirelles;
6- Carla Pereira;
7- Maria Raimundo;
8- Dilma Cotrim Meireles;
9- J.M.S, de 14 anos;
10- N.M.S, de 12 anos;
11 - Ronilson (sobrenome não localizado);
12 - João dos Santos;
13- I.D, de 10 anos;
14- Laércio Mendonça Reis;
15- Jacineva (sobrenome não localizado);
16- Jaudo Gamela;
17- José Oscar Mendonça.
18- Aldenir de Jesus Robeiro - baleado e duas mãos amputadas; 
19- José Ribamar Mendes - baleado e mão direita amputada;
20- José André Ribeiro - baleado;
21- Francisco Jansen – baleado (recebeu alta);
22- Inaldo Cerejo – baleado (recebeu alta)

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