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Sem "nada a perder", viúva quer manter luta de Marielle: "sangue não foi derramado em vão"

Marina Lang e Taís Vilela

Colaboração para o UOL e do UOL, no Rio

10/04/2018 04h00

Monica Benício perdeu a noção do tempo desde que a companheira e vereadora Marielle Franco (PSOL) foi assassinada com quatro tiros na cabeça junto ao motorista Anderson Gomes, no dia 14 de março, no Rio de Janeiro.

Quando informada das três semanas que se passaram desde o crime, ela arqueia as sobrancelhas numa expressão estupefata. “Já?”, questiona à reportagem, em entrevista concedida na última terça (3). Neste período, ela parou de ingerir alimentos sólidos e perdeu 6 quilos, mantendo-se em pé graças a uma batida de vitaminas receitada pelo nutricionista.

Arquiteta de formação, Monica faz mestrado na área na PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio. Embora descarte o ingresso na política, quer manter a bandeira e as lutas de Marielle vivas. Acredita que, desta forma, vai dar continuidade ao seu amor pela companheira.

Na entrevista, ela fez duras críticas ao presidente Michel Temer (MDB), ao governador Luiz Fernando Pezão (MDB), ao ex-governador Sérgio Cabral (MDB), ao prefeito Marcelo Crivella (PRVB) e à intervenção federal de caráter militar na segurança pública do Rio, igualmente repreendida por Marielle.

“Cria” do Complexo da Maré como a parceira, Monica começou a se relacionar com ela aos 18 anos, há mais de uma década atrás. Entre idas e vindas, o casal assumiu união estável pouco antes da vereadora anunciar sua candidatura à Câmara do Rio. Planejavam, juntas, um casamento oficial. Foi na casa em que viviam, com a filha de Marielle, Luyara, aos pés do morro do Salgueiro, na Tijuca, zona norte do Rio,. que ela recebeu a reportagem do UOL.

Leia, abaixo, em depoimento, os principais momentos da entrevista.

"Tomo um tiro e vai ser ótimo para mim"

[Quando uma amiga contou sobre a morte de Marielle] Aquilo pareceu uma piada de extremo mau gosto. O mundo simplesmente parou, tudo começou a girar numa velocidade estranha, e é como se o meu corpo não tivesse mais osso nenhum. Eu só desmontei. Não conseguia acreditar naquilo. Ficava naquelas loucuras: tem que levar para o hospital, os médicos vão ajudar. E ela: “Não, não vão ajudar. A Marielle morreu”. Essa é uma frase que ainda não faz sentido. Os amigos foram chegando e ficava bem real.

Eu queria ir pro local, mas os amigos não deixaram e me diziam: “Não vai dar, não estão deixando, a polícia isolou o local, não vão deixar você passar”. E eu: “Ótimo, vou furar a barreira, tomo um tiro e vai ser ótimo para mim". A primeira coisa que eu pensei quando começou a tomar forma de que aquilo era verdade foi em me matar. Não fossem os amigos na contenção e nos remédios, eu não sei como teria sido. Acordar no dia seguinte e me deparar com essa realidade foi uma coisa muito dolorosa.

Ainda não aceito. Ainda estou no processo de recusar isso. Pela manhã e pela noite é sempre morrer um pouco.

Sentimento de luto

Não tinha nem me dado conta de que já faz três semanas. Essa vai ser a parte difícil. Eu tenho tentado colaborar com as falas, as entrevistas, porque acho que isso é uma forma de ajudar com que as investigações sejam pressionadas a dar uma resposta, a de alguma forma honrar a memória dela e continuar falando sobre as pautas e as bandeiras que ela levantava.

Mas o meu luto em respeito a minha mulher eu ainda não consegui fazer. Não me parecem três semanas, porque diariamente eu ainda espero ela chegar em casa. O momento em que eu me dou conta de que isso não vai acontecer é quando eu deito para dormir e quando eu acordo. Nos demais momentos do dia, eu basicamente só tenho ainda o hábito de olhar o telefone para ver se tem mensagem, porque a gente trocava muitas mensagens. Não me parece real.

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“Não tenho mais nada a perder, não tenho nada a temer”

Nos últimos dias que eu conversei com a Marielle, nós tínhamos muitas preocupações. Mas nenhuma de ordem política, que envolvesse uma questão de segurança pessoal. Então, além de toda essa violência que essa situação nos trouxe emocionalmente, traz também uma questão de surpresa, porque não havia nenhum tipo de ameaça. Então, ela não estava temendo pela vida dela.

Eu, atualmente, não tenho mais nada a perder. E por isso não tenho nada a temer. Estive na [Escola Nacional] Florestan Fernandes nesse sábado com o pessoal do MST, que fez uma homenagem a ela. E tinha um painel grande do Carlos Marighella pintado, e a frase era: “Não tive tempo para ter medo”. E acho que essa é uma frase que representa muito a trajetória da Marielle enquanto vereadora. Então eu, atualmente, não tenho nada a perder e motivo nenhum para sentir medo.

As duas Marielles

Acho que hoje, para mim, são duas Marielles que eu tento processar. A que eu grito junto às pessoas da manifestação que vive, e a minha mulher que não vive mais, que não deita no meu lado na hora de dormir. Essa é uma realidade que eu ainda tenho que aprender a lidar.

Neste exato momento, eu estou só tentando sobreviver. Eu estou, agora, começando a comer comidas sólidas. Foram seis quilos perdidos, e agora eu descobri que em três semanas. Eu não estava conseguindo comer porque tinha um processo no luto chamado mortificação. Comer significava que eu teria que continuar vivendo sem ela. E isso não estava sendo uma opção para mim.

Os amigos têm ajudado muito. Desde então eu não durmo sozinha, sempre tem alguém acompanhando em casa. Eu quis continuar nesta casa, a gente estava construindo, ainda está em processo de construção, tinham um monte de coisas ainda que a gente estava planejando de fazer de decoração. Então esse é um espaço de memória. Sair daqui significa ter que aceitar que ela não vai entrar mais. E como eu ainda estou esperando isso, estou evitando fazer esse tipo de contato.

Mochila manchada de sangue

Eu peguei os pertences da Marielle, os pessoais que estavam com ela no carro, acho que semana passada. Tinham uma mochila e uma bolsa que estavam no colo da Marielle.

Passei cinco dias lavando a mochila e não parava de sair sangue. Esse sangue que eu lavei das coisas da minha mulher não pode ter sido derramado em vão

Só que esse sangue, em quantidade líquida e não em representatividade, não é pouco diante do que o Cabral, do que o Pezão, do que o Temer derramam. Do que o Crivella tem feito também quando eles negam dignidade ao nosso povo. Quando entram na favela fazendo as intervenções truculentas que fazem.

Uma coisa é importante dizer: nossos policiais também sofrem e tem muita família de policial chorando também, como a família da Marielle chorou. Não existe uma hierarquia de vida para a gente pesar qual é a vida que vale mais ou qual a vida que vale menos. Nem a do policial, nem a do bandido, nem a da Marielle, nem a de ninguém. Isso não é uma balança que a gente possa comparar as vidas e ver quem vale mais. Isso não é o que a Marielle acreditava.

Eu disse ao senhor governador [há duas semanas] que ele tinha sangue nas mãos se esse crime não for solucionado, assim como o presidente [Michel] Temer também tem, e assim também como todas as outras pessoas, na minha fala naquele momento, que não lutassem contra o racismo, contra a LGBTfobia, contra qualquer tipo de discriminação. Num sistema igualitário onde todo mundo tem os mesmos direitos, independente de gênero, raça, qualquer coisa, essa pessoa [que não luta contra as bandeiras de Marielle] tem sangue nas mãos. Então se você para essa luta e não cobra das autoridades o que aconteceu com Marielle, sua mão também está suja.

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Intervenção federal

Falar da intervenção federal dizendo que esse crime contra a Marielle justifica a intervenção, isso é mais um crime cometido contra Marielle. Porque não é isso que ela defendia, não é isso que ela estava falando.

Fazer uma afirmação leviana dessas é mais uma forma de enfiar mais uma bala na Marielle. Isso é uma coisa que a gente vem lutando contra. É por isso que supero meu pânico de falar e das pessoas, porque isso tem que ser dito.

O sangue que a gente perde nesse país é muito maior do que o que está na mochila da minha mulher, que, se jogar na água agora, vai continuar saindo. Isso não pode ser em vão. Isso não pode continuar. Não é possível que a gente permita que isso continue. E não é com discurso político que a gente muda isso, é com ação. É pegar o luto da Marielle e transformar em luta. É isso o que eu venho tentando fazer nesse momento porque é só o que me resta.

Por Marielle, superar o medo de falar

Eu absorvi a indignação e a dor. Isso posso te garantir. Seria muito leviano da minha parte dizer que eu tenho alguma pretensão de cargo político. Não sei se entro para a política. Mas não sei se, em algum momento, a indignação me mova para um outro curso que não seja a sala de aula, que é o meu objetivo do mestrado.

Eu me sinto na obrigação [de discursar]. E não só uma obrigação política, uma obrigação à memória da minha mulher, à memória da vereadora

Tínhamos afinidades nos temas políticos, defendíamos os temas pautados nos direitos humanos juntas. Então isso é o que me faz ficar de pé, com o microfone na mão, mesmo tremendo, quase enfartando, mas gritando que a voz da Marielle não será silenciada, e que nenhum passo atrás será dado diante do trabalho que foi construído. Fico extremamente desconfortável [com o microfone]. Mas o meu amor e a minha indignação superam esse desconforto. Têm que superar.

Divulgação/PSOL
Marielle Franco em comício durante as eleições de 2016 Imagem: Divulgação/PSOL

O "trabalho invisível" de Marielle

O trabalho [de Marielle era] de acolher uma mãe que perdeu um filho vítima de bala perdida e que ia ser enterrado enquanto bandido. A Marielle ia lá auxiliar para que a mãe tivesse a dignidade de enterrar o seu filho de forma adequada diante de toda a dor. Projetos sociais devem ser incentivados dentro da favela porque é através da educação e da cultura que a gente vai mudar a sociedade escrota que a gente tem hoje. Isso dá valor à vida do ser humano. Era isso que interessava à Marielle. Não interessava só fazer a campanha política. Incentivava-a modificar uma pessoa, tendo sua identidade e a sua integridade resgatada, sua identidade e sua negritude sendo afirmada com orgulho.

O negro está na base da pirâmide, as mulheres negras são as que mais sofrem, são as que mais são oprimidas, são as que mais trabalham e são as que menos têm oportunidades. São as que andam de cabeça baixa na rua por vergonha. Então a Marielle ajudava essas mulheres assim: “Queridinha, levanta a cabeça. Olha para cima. É por igualdade social que a gente está lutando. É por igualdade racial, é por igualdade de classe. É por justiça”. Esse era o trabalho invisível, nem tão invisível porque ela fazia rodas de conversa que reafirmavam isso.

Uma política em ascensão

A Marielle virou uma celebridade. Andar com a Marielle na rua era uma coisa que estava ficando chata. Ir pro cinema, as pessoas queriam parar para tirar selfie, para abraçar, para agradecer. Sempre era com afeto. As pessoas queriam tocar na Marielle como se ela fosse uma artista, uma atriz. Interrompiam na mesa de jantar: “Desculpa, Marielle, mas só queria agradecer. Você está fazendo um excelente trabalho, você me representa. Posso tirar uma selfie com você?”.

A gente não discutia quais cargos políticos ou aonde ela queria chegar. Uma coisa era muito clara: ela queria terminar o mandato político dela enquanto vereadora. Isso era uma certeza dela. Porque era o primeiro mandato, era a primeira experiência política, era experimentar esse campo político. Estava gostando do trabalho que ela estava fazendo e estava tendo resultados positivos. Claro, se você se importa em ajudar os outros e não em ganhar dinheiro.

Eu não tenho a menor dúvida de que ela pudesse chegar onde quisesse chegar porque tinha luz própria, tinha muita competência e muita coragem para fazer as coisas. Às vezes eu não reconhecia quando olhava os vídeos dela. Porque parecia que tinha cinco metros de altura, e gritava, e não tinha Caveirão capaz de parar a Marielle.

Taís Vilela/UOL
Monica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, mostra foto antiga das duas Imagem: Taís Vilela/UOL

Quem matou Marielle?

Mais importante do que quem matou a Marielle é quem mandou matar a Marielle. Acho que tem mais a ver com quem mandou e articulou isso, porque tem diferença. Existe a mão que disparou e existe quem articulou isso – não é a mesma pessoa, certamente. Não precisa ser muito inteligente para saber que são duas coisas diferentes. Há uma equipe muito competente cuidando da investigação da Marielle.

Não estou interessada em notinhas de jornal com especulações, estou interessada no resultado. Quero saber quem mandou matar, quero saber quem matou

Não para a gente se vingar, mas para fazer justiça. Para que essas pessoas respondam por esse crime bárbaro, pela atrocidade que cometeram à Marielle e à democracia desse país. Se o sigilo [das investigações] é importante e necessário, que assim seja.