Topo

Defensor de direitos humanos, amigo de França, agregador: quem é o novo comandante da PM de SP

Marcelo Vieira Salles, amigo do governador Márcio França, é bem quisto pelos PMs de SP - Divulgação/Cavalaria da PM
Marcelo Vieira Salles, amigo do governador Márcio França, é bem quisto pelos PMs de SP Imagem: Divulgação/Cavalaria da PM

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

24/04/2018 04h00Atualizada em 24/04/2018 14h45

Até a próxima quinta-feira (26), o coronel Marcelo Vieira Salles, 51, deve ter seu nome publicado no Diário Oficial como novo comandante-geral da PM (Polícia Militar) na gestão de seu amigo, o governador Márcio França (PSB), à frente do estado e pré-candidato à reeleição.

Salles vai assumir o cargo ocupado desde fevereiro de 2017 pelo coronel Nivaldo Restivo, 53, indicado pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Restivo chegou a ser denunciado pelo Massacre do Carandiru, em 1992, por não ter impedido que seus comandados praticassem atos de violência contra detentos sobreviventes.

Coronel estava no Comando de Policiamento da zona oeste da capital. Sob seu comando, a letalidade na área caiu - Divulgação/ACSP
Coronel estava no Comando de Policiamento da zona oeste da capital. Sob seu comando, a letalidade na área caiu
Imagem: Divulgação/ACSP

O UOL entrevistou quatro oficiais da PM paulista que conhecem a trajetória de Salles: dois em atividade e dois aposentados. Todos apontam a troca como positiva para a corporação. A esperança da tropa é de que o novo comandante seja capaz de reaproximar PMs de baixa e alta hierarquias, que proteja o grupo e que os direitos humanos de todos sejam respaldados.

Salles vem do CPA/M-5 (Comando de Policiamento de Área), da região oeste da capital. Dentro do comando está o 16º batalhão (Rio Pequeno), um dos batalhões que mais trocam tiros com suspeitos, segundo dados da própria corporação. Em 10 anos, 38 PMs do batalhão foram presos, sendo o principal da zona oeste a ter policiais detidos.

No entanto, de acordo com relatório da Corregedoria da PM obtido pelo UOL com exclusividade, entre maio de 2017 e março de 2018, durante o período em que a região estava sob o comando de Salles, houve 26 mortes praticadas por policiais. Entre 2016 e 2017, foram 38. Ou seja, sob comando dele, houve uma redução de 31,5% na letalidade policial.

Atual corregedor da PM, o coronel Marcelino Fernandes tem boas referências sobre o novo comandante. "Se você levantar a área que ele comandou, verificará que ele baixou a letalidade", disse o corregedor. "[É um] oficial que trabalha muito. Entra antes do expediente para começar a trabalhar e sai bem depois das 18 horas".

Ele sempre foi um defensor dos direitos humanos e sempre buscou valorizar a tropa sob o seu comando
Coronel Marcelino Fernandes, corregedor da PM de SP

Segundo o Instituto Sou da Paz, em janeiro e fevereiro de 2018, houve queda da letalidade policial no estado e capital. Os dados oficiais devem ser divulgados pela SSP (Secretaria da Segurança Pública) nesta quarta-feira (25).

França justificou a troca nesta segunda-feira (23), afirmando ter mais intimidade e proximidade com Salles. "Eu acho que é correto quando você faz a mudança do governo ter alguém da sua intimidade, próximo ao governador. O coronel Salles conviveu comigo, é um excelente profissional", disse.

Ex-instrutor do comandante: "humilde e agregador"

Marcelo Vieira Salles foi oficial aspirante da PM em 1989. Policiais militares que conviveram com ele durante esses 29 anos disseram à reportagem que o novo comandante é humilde, comedido, sensato, que não estimula a violência, mas que também não é omisso. A esperança posta sobre ele é grande.

Em julho de 2017, ao entregar novas viaturas, Alckmin deixou as chaves nas mãos do então tenente-coronel Salles - Divulgação/Governo de SP
Em julho de 2017, ao entregar novas viaturas, Alckmin deixou as chaves nas mãos do então tenente-coronel Salles
Imagem: Divulgação/Governo de SP

O deputado federal Major Olímpio (PSL-SP), quando tenente, foi instrutor e comandante de Salles na academia do Barro Branco, que forma os oficiais da PM paulista. "Não estou em partido ligado ao novo governador, possivelmente vamos ser adversários, mas a escolha dele não poderia ter sido mais feliz", afirmou.

"Ele [Salles] teve o mesmo perfil, o mesmo trato com as pessoas desde quando era aspirante. Quando cadete, era ele quem puxava as reuniões, churrascos. É um dos mais humildes e agregadores. Ele sabe que está indo para um mandato tampão. Ele nunca esperou por isso, ser comandante. Agora ele tem a faca e o queijo na mão. Belíssima tacada do governador", disse Olímpio.

Olímpio afirma, no entanto, que "defensor de direitos humanos para os policiais se tornou ao longo dos anos um xingamento. É uma chacota entre policiais. Quando um policial quer dizer que o outro é omisso ou corrupto, ele diz que ele é um defensor de direitos humanos".

Outros dois tenente-coronéis, com receio de se indispor com o atual comandante, Nivaldo Restivo, pediram para não ser identificados. No entanto, apontaram à reportagem que Salles é "100% legalista" e que a troca deve fazer bem à corporação.

Ao longo da vida, o novo comandante serviu em unidades operacionais da PM e teve a oportunidade de trabalhar na Casa Militar com o ex-governador Mário Covas. Segundo um tenente-coronel da PM, nunca perdeu a identidade com a sua tropa.

O UOL entrou em contato com o coronel Vieira Salles, mas ele disse que só se manifestará após ter seu nome publicado no Diário Oficial.

Mais Cotidiano