Violência no Rio

Mãe comemora aniversário à espera de filho detido em suposta festa de milícia no Rio

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Hanrrikson de Andrade

    26.abr.2018 - Isabel Cristina Lima Siqueira conversa com a imprensa enquanto aguarda a soltura de seu filho

    26.abr.2018 - Isabel Cristina Lima Siqueira conversa com a imprensa enquanto aguarda a soltura de seu filho

A dona de casa Isabel Cristina Lima Siqueira comemorou o aniversário de 50 anos, nesta quinta-feira (26), à espera do filho, Dirceu Lima Siqueira, 30, um dos 137 detidos em uma suposta festa de milicianos no Rio e que tiveram a prisão revogada pela Justiça fluminense. Na porta do Complexo Penitenciário de Bangu, na zona oeste carioca, ela e a família aguardavam com ansiedade a liberação de Dirceu, que é dono de uma creperia.

"Esse aniversário eu não vou esquecer nunca mais", afirmou ela, segurando as lágrimas. "Ele é o filho mais tranquilo de três irmãos. É tímido e estava muito deprimido lá dentro. Eu estou preocupada com ele."

Dirceu estava na companhia de dois primos na festa alvo de uma operação policial contra milicianos, realizada em 7 de abril em um sítio em Santa Cruz, na zona oeste da cidade. Na ocasião, 159 pessoas foram detidas em flagrante e, posteriormente, passaram a cumprir prisão preventiva.

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Dirceu e os primos constam em uma lista de 137 nomes que não possuiriam qualquer tipo de relação com grupos paramilitares, de acordo com o entendimento da Justiça. Os argumentos apresentados pela Defensoria Pública e por advogados contratados por familiares foram aceitos pela 2ª Vara Criminal de Santa Cruz, que revogou as prisões na última quarta (29).

"Eu fiquei com medo de a justiça não ser feita e ele ficar como mais um inocente preso, como a gente vê em várias reportagens. A pessoa fica lá dentro e ninguém pode fazer nada. Eu entrei em desespero porque não tinha resposta", comentou Isabel.

Um dos primos de Dirceu, Abner Rodrigues Siqueira, 27, foi um dos primeiros a deixar o Complexo Penitenciário de Bangu. Assim como outros detentos liberados nesta tarde, ele relatou ter sofrido agressões por parte dos policiais civis mobilizados na ação. A instituição nega que os agentes tenham cometido qualquer ilegalidade.

"Não deixavam a gente levantar a cabeça em momento algum e davam 'pescotapas', tapas no pescoço, na nuca. Mas não deu para ver direito porque eles mandavam abaixar a cabeça a todo momento", disse Abner.

"Repetiam a todo momento que a gente era bandido, miliciano. Fomos humilhados. (...) Quando entramos no corredor da Cidade da Polícia [local que reúne as delegacias especializadas da Polícia Civil, na zona norte da cidade], a gente foi agredido com tapas na nunca. Como se fosse vagabundo", completou.

Abner contou não ter visto homens armados com fuzis dentro do sítio onde ocorriam os shows de pagode, diferentemente do que foi narrado pela Polícia Civil. Declarou ainda ter pagado R$ 250 pelo ingresso da festa, valor cobrado pelo camarote e dividido por dez pessoas. "Jamais imaginei que isso pudesse acontecer. Eu paguei para entrar, paguei para beber. Um balde de cerveja era R$ 90."

Até 18h desta quinta, ao menos 15 detidos haviam deixado o complexo prisional, segundo agentes penitenciários que trabalham no local. A Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) não confirma oficialmente quantas pessoas já foram liberadas.

O defensor público João Gustavo Dias, que atua no caso, explicou que os alvarás estão sendo expedidos individualmente, logo após o sarqueamento dos investigados (checagem da ficha criminal e de eventuais mandados de prisão em aberto). O primeiro grupo, com nove pessoas, foi liberado por volta de 13h.

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