Forças Armadas evitam conflitos e participam mais de escoltas durante greve

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL

  • Hélvio Romero/Estadão Conteúdo

A participação das Forças Armadas na greve nacional dos caminhoneiros tem sido mais comedida do que enérgica. Em nove dias de protestos, Exército, Marinha e Aeronáutica participaram muito mais de comboios de cargas do que intervindo em conflitos em bloqueios de rodovias.

As corporações foram convocadas para auxiliar na paralisação por meio de decreto assinado pelo presidente Michel Temer (MDB) na última sexta-feira (25). Entre as medidas, os militares tinham autorização para tomar a direção de veículos de carga e desbloquear vias.

No entanto, quem apostou em mais energia por parte das Forças Armadas perdeu. Até a última terça-feira (29), o papel foi muito mais de auxílio aos transportes de cargas, especialmente de combustíveis, do que de intervenção em manifestações e desbloqueio de rodovias por meio da força. As corporações prestaram apoio em grande parte das mais de mil escoltas promovidas pela Polícia Rodoviária Federal nestes nove dias, com foco no transporte de combustíveis, insumos, e remédios. 

Segundo divulgou o comando militar, os conflitos com manifestantes foram "raros e descentralizados". Desde que as Forças Armadas começaram a operação, quatro incidentes foram registrados em todo o país: dois nas cidades fluminenses de Seropédica e Barra Mansa, um em rodovias próximas a Rio Branco, no Acre, e outro no Maranhão, onde sete pessoas foram presas. 

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Consultadas pelo UOL, as Forças Armadas não divulgaram de quantas operações os militares participaram exatamente durante a paralisação. À reportagem, o Ministério da Defesa afirmou que não informa este dado ou quantos agentes foram realocados para auxiliar na greve por "sigilo da operação".

Em entrevista coletiva na última terça, o chefe do Estado Maior-Conjunto das Forças Armadas, almirante Ademir Sobrinho, confirmou que o foco das forças estava no auxílio ao transporte de cargas. "Nós temos ajudado na escolta de comboios", afirmou o militar. "Em especial, querosene de avião, combustível, insumos e medicamentos"

Polêmica sobre golpe militar

Os dois decretos assinados por Temer, um na sexta-feira (25) e outro no sábado (26), geraram diferentes reações pelo país. Enquanto alguns criticaram as medidas, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), outros grupos não só comemoraram a decisão de recorrer às Forças Armadas, como começaram a pedir por um golpe militar – o que chegou a preocupar o próprio governo Temer.

RANIERY SOARES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Caminhoneiros pedem por intervenção militar em João Pessoa (PB)
Entre os críticos, havia o questionamento à autonomia dada às Forças Armadas. Segundo os decretos, as corporações ficaram autorizadas a remover ou conduzir veículos que obstruam a via pública, escoltar veículos que prestem serviços essenciais ou transportem produtos considerados essenciais, além de garantir acesso a locais de produção ou distribuição de produtos consideradas essenciais. Além disso, os agentes foram liberados a agir sem precisarem da permissão de governadores ou prefeitos

Já para os grupos que pedem por intervenção militar, o Exército e seus pares representam não só a verdadeira chance de por um fim à greve como a possibilidade de solucionar os problemas estruturais do país. Esses mesmos apoiadores tentaram influenciar os rumos da paralisação dos caminhoneiros por meio das redes sociais e por WhatsApp.

Militares não querem golpe

Desde que começaram no auxílio à segurança durante a greve, as Forças Armadas se disseram contra qualquer tipo de intervenção militar ou do uso da força para resolver problemas no país atualmente. "Não temos nenhuma concordância [com quem pede intervenção militar]. Queremos democracia", enfatizou o almirante Sobrinho ao final da coletiva na última terça (29). "Estamos preocupados em fazer o Brasil andar", completou

A declaração do almirante Sobrinho segue outros pronunciamentos que comandantes das forças militares têm feito durante a greve.
O general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, declarou publicamente no último sábado (26) que o foco para atuação durante a greve é uma "solução sem conflito".

Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta quarta (30), o general da reserva Augusto Heleno afirmou que as Forças Armadas estão "vacinadas" e não pretendem tomar o poder. "[As Forças] têm plena consciência de que esse não é o caminho, o caminho são as eleições que vão acontecer", declarou o militar.

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