Violência no Rio

Recebidos a tiros, militares fazem operação na Rocinha e detêm 16 pessoas

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio de Janeiro

As Forças Armadas, a Polícia Federal e as polícias do Rio de Janeiro realizaram uma operação na Rocinha e em mais três favelas da zona sul carioca na manhã deste sábado (9). Ao menos 16 pessoas foram detidas -- oito com mandado de prisão e o restante em flagrante delito.

Luis Kawaguti/UOL
A operação acontece um dia após tiroteio entre policiais e criminosos ter fechado pontos importantes do Rio de Janeiro, como o Bondinho do Pão de Açúcar, que permaneceu duas horas fechado na tarde de ontem, e o aeroporto Santos Dumont.

Na manhã deste sábado, ao chegar com blindados e helicópteros à Rocinha, os militares foram recebidos a tiros - traficantes do Comando Vermelho soltaram fogos de artifício, avisando que havia operação. Novas rajadas foram ouvidas às 8h e, às 8h45, registrou-se enfrentamento na região conhecida como Valão. Segundo policiais ouvidos pela reportagem, os confrontos se deram quando suspeitos tentavam fugir da comunidade por um matagal.

Houve correria na entrada da Rocinha, favela encravada entre áreas nobres do Rio. "Não está passando ônibus", disse ao UOL um morador que tentava chegar ao trabalho. A autoestrada Lagoa-Barra, que liga as zonas oeste e sul, ficou fechada durante mais de uma hora.

"Filho, a gente tem que se acostumar, porque a gente mora na favela", dizia uma mãe a uma criança pequena, saindo apressada da Rocinha nesta manhã. Com cerca de 69 mil moradores, segundo a Prefeitura do Rio, a Rocinha enfrenta tiroteios frequentes desde 2017, o que obrigou a comunidade a alterar sua rotina.

"Acho bom, porque está acontecendo muita coisa aqui dentro, muita violência, tiro quase todo dia", disse uma mulher que se mudou há cinco meses para a Rocinha. Outro morador reclamou dos policiais: "Eles têm que subir no morro para ir atrás dos bandidos, não ficar revistando morador indo trabalhar".

Primeira operação na Rocinha 
Luis Kawaguti/UOL

Esta é a primeira vez desde o início da intervenção federal no Rio, em fevereiro deste ano, que as Forças Armadas são enviadas à Rocinha. Segundo o Comando Conjunto da intervenção, além da Rocinha, a operação deste sábado abrange as favelas do Vidigal, Chácara do Céu e Parque da Cidade.

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O objetivo da ação é prender procurados, derrubar barricadas erguidas pelo tráfico e revistar pedestres e veículos. Pela primeira vez, policiais federais participam da operação. Eles cumprem mandados relacionados a investigações federais e não estão subordinados ao Comando Conjunto da intervenção.

Acusado de matar um policial militar na Rocinha no ano de 2012 e foragido desde então, o traficante Ronaldo Azevedo Oliveira da Cunha, 30, foi um dos presos na operação.

O general do Exércio Walter Braga Netto, designado interventor federal no Rio, foi inspecionar a operação na Rocinha e falar com militares e policiais. Acompanhado de um pelotão do Exército, perguntou a um morador: "Tudo tranquilo?". A resposta foi: "agora está".

A equipe não divulgou o número de agentes na operação, mas afirmou que a ação é articulada com a ocupação da favela da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, iniciada na última quinta-feira (7). Segundo o Comando Conjunto, o efetivo total de ambas as operações é de 4.600 militares e mais de 700 policiais.

A operação ocorre simultaneamente a um mutirão de ações sociais promovido pelo Gabinete de Intervenção Federal no bairro da Praça Seca. Militares e órgãos do poder público oferecem atendimento médico e odontológico, confecção de documentos e orientação jurídica, entre outros serviços.

Esta também é a primeira vez que a intervenção coloca em prática o que se chama de operações de "amplo espectro" -- ações militares em um ponto da cidade e iniciativas sociais em outro. 

"A operação vai da ação humanitária ao uso mais intensivo da força. Essa expertise das Forças Armadas brasileiras foi uma das razões para o sucesso no Haiti, onde, embora o marco jurídico e as regras de engajamento sejam outros, as técnicas, táticas e procedimentos militares são bastante similares", disse o coronel Carlos Cinelli, porta-voz do Comando Conjunto. 

"Tudo é feito em apoio à Secretaria de Segurança. As Forças Armadas apenas contribuem com expertises obtidas em situações análogas, enquanto as polícias são recapacitadas", completou Cinelli.

Conflitos na Rocinha 
Luis Kawaguti/UOL

No ano passado, a favela da Rocinha foi palco de uma guerra de facções criminosas. A onda de conflitos começou em 17 de setembro de 2017, quando criminosos leais ao ex-chefe do tráfico na Rocinha, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, da facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), tentaram retomar a favela. O tráfico era controlado por um ex-aliado do criminoso, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157.

As Forças Armadas ocuparam toda a região e lá permaneceram por uma semana, com base em um decreto federal de Garantia da Lei e da Ordem, que permite o uso de militares em operações de segurança pública. Os militares ainda voltaram à região em outras ocasiões no ano passado, cercando a favela para que policiais tentassem prender foragidos da Justiça.

Segundo a polícia, atualmente, a Rocinha vive um conflito de facções, com um novo chefe do tráfico vinculado ao Comando Vermelho. Há relatos de que integrantes da ADA brigam pelo poder na região.

A favela é uma das maiores do Brasil. As operações deste sábado ocorrem em quatro comunidades onde vivem 120 mil pessoas.

A Rocinha conta desde 2012 com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), que continua em funcionamento. Mesmo assim, em março, já durante a intervenção federal, foi palco de intensos confrontos entre traficantes e policiais.

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