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Funcionários e pesquisadores se emocionam no incêndio do Museu Nacional

Luan Santos

Colaboração para o UOL, no Rio*

03/09/2018 01h32

Pesquisadores e funcionários chegaram no final da noite deste domingo (2) para apoiar o controle do incêndio que, desde as 19h30, atinge o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio. De acordo com a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, a maior parte do acervo foi atingida. O fogo foi controlado por volta das 4h.

Eles se reuniram com agentes do Bombeiros para informar onde ficam os materiais inflamáveis que estão no prédio e estão em vigília, emocionados com a destruição de um dos maiores acervos culturais do Brasil. 

A vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Cerezo, atirou-se ao chão e foi abraçada por integrantes da equipe. “Estou arrasada. É um trabalho de muitos anos. É triste ver tudo isso se perdendo”, afirmou aos prantos.

"Difícil esconder a tristeza. Esse museu tem um significado muito grande para mim. Aliás, para a história do nosso país. Grande perda. Acabou o nosso museu", disse Luiz Alencar, funcionário que trabalha há cinco anos no prédio.

"Arrepiada. Uma perda incalculável. Essas estruturas têm muita madeira, pega fogo facilmente. Estou tão emocionada que nem consigo falar", disse a museóloga Vera Tostes.

O ex-diretor do Museu, Sérgio Azevedo, afirmou ao UOL que foi possível tirar algumas peças do acervo antes das chamas se alastrarem, mas não soube informar quais delas. O Corpo de Bombeiros, que confirma a informação, também não deu detalhes sobre quais objetos foram salvos.

Museu completou 200 anos em 2018

Há três meses, por ocasião da celebração de seus 200 anos, o Museu Nacional assinou com o BNDES um contrato de patrocínio no valor de R$ 21,7 milhões. Os recursos serviriam à restauração do prédio histórico e fizeram parte da terceira fase do Plano de Investimento para a revitalização do Museu Nacional, e somaram-se a R$ 24 milhões destinados nas duas fases anteriores pelo BNDES. 

O valor teria as seguintes finalidades: "A recuperação física do prédio histórico; a recuperação de acervos - de modo a garantir mais segurança às coleções e otimizar o trabalho dos pesquisadores -; a recuperação de espaços expositivos - estimulando maior atração de público e promoção de políticas educacionais vinculadas a seus acervos -; a revitalização do entorno do museu; e o fortalecimento da instituição gestora", conforme divulgado à época pelo BNDES.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, disse que o dano do fogo ao acervo é "irreparável", e afirmou que o acidente poderia ter sido evitado.

Ao tomar ciência do incêndio, ele divulgou a seguinte nota. "Um incêndio está destruindo o Museu Nacional, que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. É uma imensa tragédia. Trata-se do museu mais antigo do país. Completou 200 anos em junho. Tem um acervo fabuloso em diversas áreas. Aparentemente vai restar pouco ou nada do prédio e do acervo exposto. A reserva técnica não foi atingida", afirma o ministro.

"É preciso descobrir a causa e apurar a responsabilidade. O BNDES assinou em junho um contrato de patrocínio no valor de R$ 21,7 milhões. Tenho procurado ajudar a instituição desde que entrei no MinC. O Instituto Brasileiro de Museus realizou diversas ações. Infelizmente não foi o suficiente. Temos que cuidar muito melhor do nosso patrimônio e dos acervos dos museus. A perda é irreparável. Certamente a tragédia poderia ter sido evitada. O MinC está de luto. A cultura está de luto. O Brasil está de luto. É vital refazer o Museu Nacional, revendo também seu modelo de gestão. E investir agora para que isso não aconteça nos demais museus públicos e privados", diz a nota do ministro.

Acervo tem 20 milhões de itens

O Museu Nacional é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, e completou 200 anos em 2018. Seu acervo tem mais de 20 milhões de itens.

Especializado em história natural, é o mais antigo centro de ciência do Brasil e o maior museu desse tipo na América Latina.

A instituição foi criada por Dom João VI, em 06 de junho de 1818, e foi inicialmente sediada no Campo de Sant'Ana. Segundo seu site, "como museu universitário, tem perfil acadêmico e científico".

O maior tesouro do Museu Nacional é o esqueleto mais antigo já encontrado nas Américas, com cerca de 12 mil anos de idade. Achado em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974, trata-se de uma mulher que morreu entre os 20 e os 25 anos de idade e foi uma das primeiras habitantes do Brasil.

O crânio de Luzia e a reconstituição de sua face - revelando traços semelhantes aos de negros africanos e aborígines australianos - estão em exibição no museu. A descoberta de Luzia mudou as principais teorias sobre o povoamento das Américas. É considerado o maior tesouro arqueológico do país.

Também exposto no saguão do museu está o maior meteorito já encontrado no Brasil, o Bendegó, com 5,36 toneladas. A rocha é oriunda de uma região do Sistema Solar entre os planetas Marte e Júpiter e tem cerca de 4,56 bilhões de anos. O meteorito foi achado em 1784, em Monte Santo, no Sertão da Bahia. Na época do achado era o segundo maior do mundo. Atualmente, ocupa a 16ª posição. A pedra espacial integra a coleção do Museu Nacional desde 1888.

As múmias também estão entre os grandes destaques do acervo. O corpo mumificado de um índio Aymara, grupo pré-colombiano que vivia junto ao Lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia, abre a série de múmias andinas do Museu Nacional. Trata-se de um homem, de idade entre os 30 e os 40 anos, cuja cabeça foi artificialmente deformada, uma prática comum entre alguns povos daquela região. Os mortos Aymara eram sepultados sentados, com o queixo nos joelhos e amarrados. Uma cesta era tecida em volta do defunto, deixando de fora apenas as pontas dos pés e a cabeça.

O Museu Nacional tem a maior coleção de múmias egípcias da América Latina. A maior parte das peças foi arrematada por D. Pedro I, em 1826. São múmias de adultos, crianças e também de animais, como gatos e crocodilos. A maioria é proveniente da região de Tebas. Lápides com inscrições em hieróglifos também fazem parte da coleção.

Palácio foi residência da família real 

O prédio onde hoje funciona o Museu Nacional/UFRJ foi uma doação do comerciante Elias Antônio Lopes ao príncipe regente D. João, em 1808, ano da chegada da família real ao Rio. Após a morte de dona Maria I, em 1816, D. João mudou-se definitivamente para o Paço de São Cristóvão, onde permaneceu até 1821.

D. Pedro I e D. Pedro II também moraram por lá. Com o fim do Império, em 1889, toda a família se exilou na França. O palácio foi, então, palco da plenária da primeira Assembleia Constituinte da República, entre novembro de 1890 e fevereiro de 1891. O Museu Nacional se mudou para o palácio no ano seguinte, 1892.

* Com informações do Estadão Conteúdo e de agências de notícias

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