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Jovem fica em estado vegetativo após perder útero em parto na Bahia

Mirene e seu marido, Gean Guimarães da Silva - Divulgação
Mirene e seu marido, Gean Guimarães da Silva Imagem: Divulgação

Mário Bittencourt

Colaboração para o UOL, em Vitória da Conquista (BA)

22/03/2019 04h00Atualizada em 22/03/2019 18h15

Uma baiana de 19 anos ficou em estado vegetativo após um parto malsucedido em um hospital de Araci (a 211 km de Salvador), no nordeste da Bahia, que resultou na retirada do seu útero após apresentar quadro de "inversão uterina".

A cirurgia de Mirene Santos da Silva aconteceu há oito meses no Hospital Municipal Nossa Senhora da Conceição, mas seu caso só ficou conhecido após a família procurar na quarta-feira (20) o Ministério Público da Bahia para que a Prefeitura de Araci forneça o prontuário médico da paciente.

Segundo a família de Mirene, ela saiu do hospital com a placenta e o útero para o lado de fora. A Prefeitura de Araci nega que tenha sido assim.

A prefeitura disse ainda estar auxiliando os parentes, mas não deu detalhes sobre o relatório médico nem explicações sobre o motivo de ele ainda não ter sido divulgado (leia mais abaixo).

O advogado Dante Vinícius Santos Araújo protocolou ontem um pedido de providências no Ministério Público da Bahia solicitando o documento. Antes, já havia entrado em contato diretamente com o hospital para obter o prontuário, sem sucesso.

"Vamos esperar mais cinco dias úteis para o laudo médico ser fornecido. Caso isso não ocorra, vamos acionar a Justiça", disse.

Mirene teve uma gravidez considerada normal segundo os exames feitos durante o pré-natal. Com 39 semanas de gravidez, ela sentiu contrações leves e foi levada para o hospital. A bolsa não chegou a estourar.

O bebê, do sexo masculino, nasceu com saúde e apresenta desenvolvimento compatível para os oito meses, segundo a família.

Seu marido, Gean Guimarães da Silva, 21, disse que o parto era para ter sido cesárea, "mas insistiram em fazer normal, mesmo com o útero dela estando invertido". "O útero ficou retorcido e foi arrancado. Ela perdeu muito sangue", contou.

Foi levada, então, às pressas para o Hospital Estadual da Criança (HEC), em Feira de Santana (BA), onde, além da hemorragia, teve parada respiratória de dez minutos e convulsões.

Vive atualmente em estado vegetativo, com as funções autônomas do corpo (como respiração, batimentos cardíacos e funcionamento do intestino), mas sem interagir com o meio exterior.

De acordo com a família, Mirene ficou por 15 dias entubada e seus únicos movimentos são abrir os olhos, chorar e sorrir. A família tem uma renda fixa de R$ 290 por mês do Bolsa Família e critica a falta de um enfermeiro para acompanhar Mirene 24 horas por dia. Sem essa ajuda, Gean não consegue sair para trabalhar. Ele divide os cuidados do filho com uma irmã, conforme contou.

Complicações após o parto

Segundo o relatório médico do HEC, Mirene chegou "no pós-parto imediato de parto natural, com sangramento vaginal intenso e hipotensão, sendo identificado inversão uterina". Foi levada para o centro cirúrgico, onde teve a parada respiratória.

"Desde então, mantém quadro neurológico de status pós-PCR [parada cardiorrespiratória], não contactante, Glascow 7 [coma profundo]", relata a médica que assina o laudo. Ela colocou como diagnóstico principal a "inversão uterina pós parto" e constatou choque hipovolêmico (ou hemorrágico), devido à perda de sangue.

Segundo o neurologista Tiago Fukuda, no estado vegetativo não persistente, há chances de a pessoa voltar a ter reações. Já no estado vegetativo de longa duração, também chamado de "coma vigil", a probabilidade de reversão é menor. "Quando passa de um ano [nesse estado], é muito mais difícil de ocorrer a volta", afirmou.

O médico Caio Nogueira Lessa, presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia da Bahia, informou que é incomum ter o parto cesáreo quando o útero está invertido. "Uma inversão uterina não é uma complicação que poderia se pensar em parto cesáreo como alternativa", disse.

Outro lado

Conselheiro do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) o médico Otávio Marambaia acrescentou que é vedado ao profissional da medicina "negar ao paciente acesso a seu prontuário".

"Se comprovadas essas irregularidades, o médico pode ser advertido em graus diferentes --a depender da situação--, de forma sigilosa ou pública. Mas não gera cassação de registro", afirmou Marambaia.

Segundo Marambaia, o Cremeb ainda não foi comunicado do caso. Já o MP-BA não respondeu ao pedido de informações da reportagem sobre quais providências foram tomadas.

A Prefeitura de Araci informou que o parto de Mirene ocorreu "sem intercorrências", mas que, "diante do fato de a mesma apresentar sangramento anormal, foi imediatamente transferida" para o HCE.

"Registra-se que, entre a identificação de anormalidade e a saída da paciente da unidade, passaram-se cerca de 20 minutos, tendo neste período a equipe de saúde realizado procedimentos necessários e indicados pela literatura médica", afirmou.

Segundo a prefeitura, "a paciente saiu do hospital acompanhada por um profissional médico e enfermeiro, consciente, em condições clínicas favoráveis, inclusive conversou com os familiares".

O problema com a "inversão uterina", ainda de acordo com a prefeitura, foi diagnosticado no HCE. "O Hospital de Araci não realizou o procedimento de retirada do útero da paciente, tendo se limitado a realizar o parto normal", diz o comunicado.

De acordo com a gestão municipal, "está sendo instaurado o procedimento administrativo para a apuração de responsabilidades e tomada das providências cabíveis".

Em nota, informou ainda que está auxiliando a família da jovem com uma empresa de home-care e que dá suporte de assistência social. "Ela foi assistida por profissionais a todo momento. O hospital e seus profissionais lamentam o atual quadro clínico da jovem", diz o comunicado.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no texto, Araci fica a 211 km de Salvador, não a 400 km da capital baiana. A informação foi corrigida.

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