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Tragédia repetida, fala repetida: o que Crivella disse em fevereiro e agora

Marcela Leite

Do UOL, em São Paulo

10/04/2019 04h00

As chuvas que atingiram o Rio de Janeiro entre segunda-feira (8) e ontem e deixaram ao menos dez mortos fizeram os cariocas reviverem o mesmo drama de apenas dois meses atrás, quando seis pessoas morreram. Mas não foi só a tragédia que se repetiu. O que se viu em abril foram desabamentos nas mesmas regiões de fevereiro, mortes semelhantes às daquele mês e declarações repetidas do prefeito Marcelo Crivella (PRB).

Ontem, Crivella (PRB) admitiu, ao menos três vezes, que o governo errou na prevenção da nova tragédia. "(O trabalho de prevenção de crise) Não foi efetivo não. Imaginávamos que viria chuva forte, mas não imaginávamos que fosse cair com tanta força", disse.

Tínhamos combinado que, em momentos assim, deixaríamos equipamentos e equipe da Comlurb nos locais em que achávamos que haveria mais chuva. Nisso nós falhamos. Atrasamos
Prefeito Marcelo Crivella (PRB), sobre a segunda tragédia no Rio em três meses

No entanto, em fevereiro deste ano, quando outro temporal caiu sobre a capital, Crivella afirmou que a prefeitura já sabia que a cidade seria atingida por chuvas "de moderadas a muito fortes", mas que a quantidade de água surpreendeu meteorologistas e especialistas.

À época, ele chegou a prometer monitoramento de solo, programa de contenção de encostas e revisão de protocolos para alertar a população que vive em área de risco.

As mesmas situações que ocorreram há dois meses se repetiram desta vez, mesmo após promessas do prefeito: um trecho da ciclovia Tim Maia cedeu, houve soterramento na avenida Niemeyer e houve caso de sirenes que não tocaram.

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Veja abaixo como o prefeito reagiu aos ocorridos em fevereiro e agora.

Desabamento de ciclovia

Mais um trecho da ciclovia Tim Maia, que custou mais R$ 45 milhões e foi construída para os Jogos Olímpicos do Rio, desabou ontem após ser atingido por um deslizamento de terra e a via foi interditada. Crivella atribuiu a quarta queda de parte da estrutura desde 2016 a "imprevistos" e disse que, como a pista não estava em funcionamento, "não houve vítimas, graças a Deus". "Sempre que há chuva forte, nós pedimos para que não usem", disse.

Há dois meses, outro deslizamento de terra a 500 metros do incidente de agora fez com que parte da estrutura desabasse. Na ocasião, Crivella colocou a culpa do ocorrido na gestão de seu antecessor, Eduardo Paes (DEM-RJ). "Essa ciclovia é cheia de problema, [...] não foi preparada suficientemente".

Para o prefeito, as últimas ocorrências na ciclovia foram decorrência de "hipóteses remotas que não foram consideradas e acabaram acontecendo, para nossa tristeza".

Ele ainda apontou que, na região, "desde aquela última grande chuva [em fevereiro], começou um amplo programa de contenção de encosta".

Não tivemos tempo de fazer as contenções, e uma qrande parte de solo caiu, e aí mais um pedacinho da nossa ciclovia quebrou
Prefeito Crivella, sobre mais um trecho da ciclovia Tim Maia desabar

Avenida Niemeyer, que liga as zonas sul e oeste da cidade, foi interditada após deslizamento de terra - Sergio Moraes/Reuters
Avenida Niemeyer, que liga as zonas sul e oeste da cidade, foi interditada após deslizamento de terra
Imagem: Sergio Moraes/Reuters

Queda de encosta na avenida Niemeyer

Depois do desabamento de um trecho da ciclovia Tim Maia e de ser atingida por um deslizamento de encosta do morro do Vidigal, a avenida Niemeyer ficou interditada ontem nos dois sentidos. A via fica ao lado da estrutura e ainda não foi liberada.

Em fevereiro, quando um ônibus foi soterrado na mesma avenida após uma encosta ceder também no Vidigal, o prefeito foi questionado sobre o porquê de não ter havido um trabalho prévio de contenção da encosta que desabou sobre o veículo. Ele usou como argumentos questões relativas à legislação ambiental.

"Foi uma coisa inesperada. Agora, se tivéssemos vindo aqui na Niemeyer com os técnicos da Geo-Rio [Fundação Instituto de Geotécnica] há três dias e eles dissessem que precisavam remover uma árvore, certamente teriam problemas com o meio ambiente", declarou.

"Mas agora faremos vistoria conjunta com a Secretaria de Obras e a Geo-Rio e faremos um mapeamento completo da Niemeyer, monitorando o solo da região. Se o solo for raso, removeremos essas árvores e faremos replantio em outro lugar", disse na ocasião.

Equipes trabalham no local de um deslizamento de terra no Morro da Babilônia, no Leme, Rio de Janeiro - Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Equipes trabalham no local de um deslizamento de terra no Morro da Babilônia, no Leme, Rio de Janeiro
Imagem: Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

Sirenes

Crivella reconheceu ontem que as sirenes de emergência da prefeitura não chegaram a ser acionadas no morro da Babilônia, zona sul da capital, onde três pessoas morreram devido a um deslizamento de terra provocado pelas chuvas. Ao todo, na cidade, são 165 sirenes e 39 delas foram acionadas em 21 comunidades e áreas de risco, segundo a prefeitura.

De acordo com o prefeito, apesar da tragédia, as águas no morro não chegaram ao nível mínimo para que o alarme fosse disparado e as pessoas buscassem outro abrigo.

"Não tocou sirene na Babilônia porque os pluviômetros marcaram 35 mm de chuva. Era para tocar com 55 mm. Revimos o protocolo e depois descemos para 45. Na Babilônia, chegamos a 39 mm", disse em entrevista coletiva.

Não era uma chuva que inspirava riscos maiores [no local]
Prefeito Crivella, sobre local onde morreram três pessoas

De acordo com ele, novos protocolos serão adotados a partir do episódio. "Esse incidente vai nos fazer rever este tipo de situação", afirmou.

Em fevereiro, mesmo tendo chovido 57,8 milímetros de chuva em uma hora - conforme constatado por reportagem da Agência Brasil - as sirenes do Vidigal não tocaram. À época, o prefeito cogitou mudança nos critérios de estado de alerta. "É bem verdade que, diante dos fatos, a gente pode mudar esse protocolo. Porque poucos milímetros de chuva causaram grandes tragédias aqui no Rio", afirmou.

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