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Acordamos assustados com qualquer buzina, diz moradora de Barão de Cocais

Arquivo pessoal
Denise Cristina de Souza Lima, que mora na área que pode ser atingida por rejeitos em caso de rompimento da barragem Imagem: Arquivo pessoal

Luciana Quierati

Do UOL, em São Paulo

2019-05-22T12:36:23

22/05/2019 12h36

Ainda impressionada com a tragédia que assolou Brumadinho (MG), cidade em que morou por 39 anos e onde vivem sua mãe e uma filha, a autônoma Denise Cristina de Souza Lima, 49, teme agora ver que cena parecida possa ocorrer em Barão de Cocais, onde reside há uma década.

O meio-fio pintado de amarelo a lembra todo dia de que sua casa está na rota de fuga de uma onda de rejeitos que ela ainda não sabe se virá ou não. O que a coloca em compasso de espera. "A gente tem medo de dormir e acordar com lama vindo. Soa buzina de moto na rua e a gente acorda assustada", diz.

A residência de Denise fica na chamada zona de segurança secundária (ZSS), aonde a mancha de inundação pode chegar em 1h12 caso a barragem Sul Superior, da mina do Gongo Soco, se rompa e seus 6,4 milhões de metros cúbicos de uma mistura de resíduos de minério e água se espalhem.

A barragem pode ser afetada pela queda de um paredão (talude) da mina, previsto para ocorrer a qualquer momento nesta semana, segundo a Vale, dona do complexo de Gongo Soco. O talude, que costumava se movimentar 10 cm por ano (o que era considerado aceitável), passou a se deslocar 5 cm por dia no final de abril e ontem, segundo a Vale, chegava ao dobro disso.

Uma queda abrupta desse paredão pode repercutir na barragem, que já está em estado de alerta máximo desde 22 de março, quando uma empresa negou à Vale o certificado de estabilidade da estrutura. Segundo o secretário de Meio Ambiente do estado, Germano Vieira, a probabilidade gira em torno de 10% a 15%. Mas, para Denise, é preciso saber mais.

"O que me disseram é que, quando tocar a sirene, tenho que sair a pé com meus documentos [a Vale distribuiu uma pasta para esse fim]. Não posso sair de carro. Tenho dois cachorros, como fazer com eles?", questiona.

No sábado (18), foi realizado um segundo simulado de emergência na cidade - o primeiro ocorreu em 25 de março. Segundo a Defesa Civil, desta vez, 1.635 moradores participaram - apenas 26,75% do esperado.

"Foi um fracasso e sabe por quê? Porque o povo está de saco cheio", diz o microempresário Marcelo Antonio Andrade Teles, 49, que também mora na zona secundária. "É o segundo teste que eles fazem, mas a gente continua sem noção do que realmente vai acontecer. Nossa vida continua no ritmo de viver um dia após o outro."

Estudo sobre impactos

A Vale tinha até o início da tarde de ontem para apresentar ao Ministério Público de Minas Gerais o chamado 'dam break', que é o estudo do impacto que o rompimento da barragem pode causar se ocorrer.

Segundo a mineradora, o documento foi entregue à Defesa Civil do estado e às prefeituras dos três municípios que podem ser afetados - além de Barão de Cocais, estão no mapa de inundação Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.

A Vale diz que está monitorando a mina 24 horas por dia com radar e estação robótica e que não há elementos técnicos indicando que a queda do talude seja gatilho para o rompimento da barragem Sul Superior.

Entretanto, em entrevista concedida ao UOL anteontem, o chefe da divisão de segurança das barragens de mineração de MG da ANM (Agência Nacional de Mineração), Wagner Nascimento, disse que não é sabido o real estado da barragem, já que, por estar no nível 3 de alerta, funcionários não podem ser destacados para fazer manutenção e inspeção no local.

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