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Agência de filho de turista morta em barco em AL vendeu pacote com passeio

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió*

28/07/2019 04h00

O passeio de catamarã que terminou em um naufrágio na manhã de ontem em Maragogi, litoral norte de Alagoas, fazia parte de um pacote de viagem para conhecer a cidade alagoana e Porto de Galinhas (PE) vendido pela agência de turismo do filho de uma das turistas que morreram afogadas no acidente.

O operador de turismo Tarcísio Silva, proprietário da agência Simbora Vip Tur, estava no catamarã que afundou com a mãe Lucimar Gomes da Silva, 68, a mulher e os filhos, em um grupo de 50 clientes vindos do município de Eusébio (CE). O naufrágio também matou Maria de Fátima Façanha, 65. Ao todo, havia 60 pessoas dentro do barco (50 adultos, quatro crianças e seis tripulantes).

A Simbora Vip Tur, do Ceará, realizava o segundo passeio em menos de dois meses no catamarã da Tô à Toa Receptivo, com mergulho de cilindro no oceano. A primeira viagem ocorrera em junho.

Segundo a Secretaria do Meio Ambiente de Maragogi, a Tô à Toa não tinha permissão para realizar passeios e já havia sido autuada por não possuir licença da prefeitura e do do ICMbio [Instituto Brasileiro de Conservação Ambiental Chico Mendes]. A Associação dos Proprietários de Catamarãs de Maragogi também informou que a empresa atuava de forma irregular e clandestina.

Silva, que também é vereador em Eusébio pelo PEN conhecido como Tarcisio da Cultura, alega que não sabia que a embarcação era irregular e que conheceu o serviço na primeira vez que esteve em Maragogi levando um grupo de clientes. Ele diz ter sido abordado na cidade por funcionários do Tô à Toa Receptivo oferecendo passeio de catamarã na ocasião.

"Não sabíamos que o barco era irregular. Estamos surpresos com a informação, pois esse catamarã faz passeios rotineiramente. Têm funcionários deles na rua abordando turistas, igual como foi conosco a primeira vez", afirmou Silva ao UOL.

"No primeiro contato, eles nos abordaram na rua lá em Maragogi e fechamos o passeio do grupo na hora. Como tinha ocorrido tudo bem, eles ficaram com nosso contato e fechamos um grupo de 50 pessoas para visitar Porto de Galinhas e Maragogi, onde o passeio de mergulho estava incluso e era feito com eles do receptivo [Tô à Toa]", declarou.

27.jul.2019 - Divulgação/Corpo de Bombeiros
Imagem: 27.jul.2019 - Divulgação/Corpo de Bombeiros

Silva afirma que a agência dele é regular e atua há quase dois anos com passeios no Nordeste. Segundo ele, os clientes têm seguro viagem.

"Vendemos a viagem com o passeio incluso. O grupo estava ansioso para fazer o mergulho e nunca que soubemos que o serviço era irregular. Eles têm sede, estão na rua vendendo para todo mundo, abordando turistas na rua. Dessa forma, a gente acreditava que era tudo regularizado. Peço que as autoridades nos ajudem, pois fomos vítimas. Era um passeio entre amigos, em família. Não íamos arriscar vidas, perdi minha mãe", disse o operador de turismo.

Segundo ele, o passeio com a Tô à Tôa foi acertado por meio de ligações telefônicas, e o pagamento ao receptivo foi feito na hora do passeio.

Tempo ruim para visitação às piscinas naturais

Silva declarou que na sexta-feira (26) entrou em contato com o receptivo confirmando que chegaria a Maragogi no sábado - antes, o grupo estava em Porto de Galinhas - e perguntou se o tempo estaria favorável para mergulho.

"Nos falaram que fazia sol e o perigo era ontem [sexta], que o mar estava tranquilo e o barco já estava nos esperando. Não tinha fiscalização da Marinha de nada hoje [sábado]. Achei até estranho, porque no último passeio a Marinha abordou o barco que estávamos para checar se estava tudo ok."

No momento do acidente, o tempo estava nublado, com mar alto e ventos fortes. A Capitania dos Portos chegou a emitir um alerta de ressaca do mar, com ondas de até 3 metros de altura, e recomendou que embarcações de pequeno e médio porte evitassem navegar entre 9h de sexta-feira e 9h de sábado em todas as praias do litoral alagoano.

Segundo Renato Scalco, advogado da Associação dos Proprietários de Catamarãs, as piscinas naturais estavam fechadas para visitação no sábado por conta da maré.

"Foi assustador"

O operador de turismo Tarcísio Silva e a mãe dele, Lucimar, que morreu no naufrágio, em foto do passeio de junho em Maragogi - Reprodução/Instagram Simbora
O operador de turismo Tarcísio Silva e a mãe dele, Lucimar, que morreu no naufrágio, em foto do passeio de junho em Maragogi
Imagem: Reprodução/Instagram Simbora
Tarcísio Silva relatou momentos de desespero quando os passageiros foram avisados pelo comandante da embarcação que o barco estava virando.

"Foi assustador. Do nada, o barco começou a virar. O comandante pediu para mudarmos de lado para tentar resolver o problema, mas infelizmente não adiantou", conta Silva.

Silva aparece de camiseta laranja com o nome de sua empresa em um vídeo feito por um homem identificado como Alex momentos antes de o catamarã afundar. Nas imagens, pode-se observar que os passageiros da embarcação não estavam usando colete salva-vidas e nem o equipamento estava aparente para uso em caso de emergência.

Ele disse que o grupo que fazia o passeio estava feliz e que foi pego de surpresa com o aviso do problema na embarcação.

"Só deu tempo de colocar as crianças e quem não sabia nadar na parte de cima do barco. Quando fui ver, minha mãe tinha ficado embaixo e já estava morta. Viemos para um passeio, estávamos felizes e vou voltar com a minha mãe morta", disse Silva, destacando que não lembra se o primeiro passeio, em junho, tinha sido no catamarã que afundou ontem. "Não olhei o barco, contratamos a empresa."

Vídeo mostra passageiros sem colete salva-vidas

UOL Notícias

Boletim de ocorrência

Ele disse que pretende ir à delegacia de polícia fazer um Boletim de Ocorrência "porque fomos vítimas dessa empresa."

"A minha preocupação é como as autoridades permitem a esse catamarã estar atuando mesmo sabendo que esse barco não podia operar? Como permitem à empresa que não estava regular de continuar abordando e vendendo passeios em Maragogi?", questionou.

Ele, a mulher e familiares da segunda vítima fatal do naufrágio estão em Maceió aguardando a necropsia dos corpos para liberação para enterro. As famílias das duas vítimas ainda não informaram o local dos funerais.

O UOL tentou contato com o receptivo Tô à Toa, na noite de ontem, mas as ligações não foram atendidas.

De manhã, a reportagem já havia entrado em contato com a empresa. Inicialmente, a pessoa que atendeu a ligação e não se identificou informou que a embarcação fazia rotineiramente o passeio para as piscinas naturais no município. Segundo o site da empresa, três catamarãs fazem o passeio às piscinas naturais no mar de Maragogi.

No entanto, o UOL apurou que a empresa de receptivo fechou, e os barcos com os seus nomes foram vendidos a terceiros. Até o momento, não foi informado o nome do proprietário da embarcação. A Capitania dos Portos abriu inquérito para apurar causas e responsabilidades do acidente.

* Colaborou Carlos Madeiro

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