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Witzel nega ter festejado morte de sequestrador: "Comemorei a vida"

Igor Mello

Do UOL, no Rio

20/08/2019 13h13

Após a repercussão negativa de sua comemoração ao chegar à Ponte Rio-Niterói, onde um homem manteve 39 reféns em um ônibus por mais de 3 horas, o governador Wilson Witzel (PSC-RJ) negou que estivesse celebrando a morte do criminoso. No Twitter, usuários usaram o termo "dancinha" para criticar o gestual do governador -- o termo permanece durante todo o dia como um dos mais comentados do Brasil na rede social.

Ao descer do helicóptero no local do sequestro, minutos após o sequestrador ser baleado, Witzel comemorou o fim da operação com socos no ar e punho cerrado. Witzel procurou se justificar diversas vezes durante uma entrevista coletiva com jornalistas no Palácio Guanabara, sede do governo do estado, em Laranjeiras, na zona sul. O político disse que "não pôde se conter" ao ver os reféns salvos.

A população aplaudiu não pela morte do criminoso, mas por termos salvado vidas humanas. Não pude me conter de estar feliz ao ver que aquelas pessoas iam voltar para casa.

Wilson Witzel, governador do Rio

Questionado se estava arrependido de sua reação, Witzel --que desde a campanha eleitoral tem defendido de maneira enfática o "abate" de criminosos-- voltou a negar que estivesse comemorando a morte do sequestrador-- identificado como Willian Augusto da Silva, 20. Ele também afirmou ter feito uma oração pelo criminoso com os passageiros do ônibus.

Algumas pessoas disseram que comemorei a morte. Eu comemorei a vida. Em momento algum vou manifestar a morte de quem quer que seja. Estávamos em dois momentos distintos: a morte de um agressor e a vida de pessoas que são pais, avós, trabalhadoras.

Witzel completou dizendo que "o final para eles [reféns] foi muito melhor do que para o agressor, e é assim que tem de ser".

Governador contradiz PM sobre sequestrador

Witzel divergiu das informações do Bope (Batalhão de Operações Especiais), tropa de elite da PM, sobre o que motivou Willian a cometer o crime.

Enquanto o tenente-coronel Maurílio Nunes, comandante do Bope e responsável pela operação de hoje, disse ter informações de que o sequestrador tinha um perfil psicótico e estava em surto, o governador preferiu atribuir a ação a traficantes de drogas --chamados frequentemente por ele de "narcoterroristas".

Witzel não apresentou nenhuma evidência sobre sua tese. Contudo, disse "ter convicção" sobre isso por ser "especialista" em direito penal.

"Vamos investigar, mas tenho na minha convicção de que esse fato que ocorreu hoje tem vinculação com o crime organizado, que estimula esse tipo de ação terrorista. Nós temos que tomar as providências imediatas para fazer cessar essas atividades criminosas", afirmou.

Interpelado pelos jornalistas sobre que evidências tinha para fazer esse tipo de afirmação, o governador se irritou:

"É minha convicção. Minha convicção. O meu entendimento como estudioso. Vocês ouvem um monte de especialistas e esquecem que eu também sou especialista. Sou estudioso do direito penal há mais de 20 anos. A minha convicção é de que essas facções estimulam atos terroristas, senão direta, indiretamente. Estimulam atos terroristas. Eu acredito que, como ocorre em outros países, o terrorismo estimula pessoas a agirem contra o Estado. Para causar o caos, causar a desestabilização das autoridades", pregou.

Logo em seguida, a assessoria de imprensa do governador encerrou a entrevista. Um dos assessores chegou a afirmar que representantes da Polícia Militar continuariam a conversar com a imprensa para dar mais esclarecimentos sobre o crime. Porém, o secretário de Polícia Militar, coronel Rogério Figueiredo, se negou a dar entrevista.

Após esse fato, tanto o comandante do Bope, tenente-coronel Maurílio Nunes, quanto o porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, alegaram terem recebido ordens de Figueiredo para não falarem com os jornalistas.

Anteriormente, ao explicar tecnicamente a ação, o comandante do Bope trouxe diversos elementos para indicar que Willian sofresse de problemas psiquiátricos. Segundo ele, a família do sequestrador, que foi até o local do crime, confirmou o quadro de surto. Além disso, a equipe de psicólogos do Bope também teria chegado à mesma conclusão.

"Tínhamos psicólogos no local que fizeram um perfil dele. Tinha um perfil psicótico. A partir do momento que cessa o contato com meu negociador, a negociação passou a ser tática", afirmou Nunes.

Além de Witzel e dos representantes da PM, também estiveram presentes na coletiva o vice-governador Claudio Castro (PSC-RJ); o secretário de Polícia Civil, Marcus Vinícius Figueiredo; o secretário de Governo e Relações Internacionais, Cleiton Rodrigues; o secretário da Casa Civil, José Luís Zamith; e representantes da PRF (Polícia Rodoviária Federal).

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