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Em 2019, apenas uma morte de criança no Rio foi elucidada pela polícia

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Lola Ferreira

Colaboração para o UOL, no Rio

24/09/2019 12h12

Resumo da notícia

  • No Rio, 5 crianças foram assassinadas em tiroteios este ano
  • Apenas um caso foi elucidado até agora
  • Ágatha, morta no último fim de semana, foi a última vítima

A morte de Ághata Félix, 8, comoveu o Brasil, mas não foi a primeira registrada nas mesmas circunstâncias.

Somente nos primeiros nove meses de 2019, outras quatro crianças morreram assassinadas em situações que envolvem tiroteios. As quatro famílias afirmam que a Polícia Militar teve responsabilidade nas mortes.

De todos os casos, somente o mais recente, de Kauê Ribeiro, no início deste mês, teve conclusão de inquérito de acordo com a Polícia Civil. Jenifer Gomes, a primeira criança vítima em 2019, ainda não teve seu caso resolvido. O crime aconteceu em fevereiro.

Nem todos os casos estão sob investigação da Delegacia de Homicídios. De acordo com Antônio Ricardo Nunes, chefe do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), isso pode acontecer porque os casos inicialmente são registrados como "tentativa de homicídio" e depois o quadro é alterado.

Nunes reiterou que a Polícia Civil tem autonomia para investigar e afirmou que a demora em resolução dos casos é pela necessidade de provas periciais bem apuradas.

"A gente trabalha com total isenção e de forma técnica. Nós temos que chegar a conclusões objetivas e técnicas. Então precisamos da perícia, não podemos chegar e levianamente afirmar que foi A, B ou C. As delegacias de homicídio trabalham de forma técnica. A Polícia Civil investiga o fato. Se eventualmente o policial agiu de forma equivocada, isso será relatado, o inquérito irá para o Ministério Público e ao Poder Judiciário. Não tem nenhum protecionismo, mas não é uma questão de conflito institucional. Temos autonomia para apurar os fatos", afirma.

As famílias das crianças, contudo, continuam sem respostas. Relembre abaixo os casos em que crianças foram mortas e testemunhas apontaram a Polícia Militar como responsável, como no caso de Ághata.

Jenifer Cilene Gomes, 11

Jenifer Cilene Gomes, baleada na zona norte do Rio - Reprodução/Rede Social
Jenifer Cilene Gomes, baleada na zona norte do Rio
Imagem: Reprodução/Rede Social
Morta em fevereiro deste ano com um tiro de fuzil no peito enquanto estava no bar da sua mãe, no bairro de Triagem, na zona norte do Rio. De acordo com Kátia Cilene, 47, a filha estava sentada na porta do bar quando foi atingida.

"Ela estava conversando com quatro crianças. De repente, ela falou: 'Mãe, eu estou baleada'. O tiro pegou o peito da minha filha. Como é que pode uma coisa dessas?", afirmou a mãe na época do crime, ainda na porta do Hospital Municipal Salgado Filho, para onde a menina foi socorrida, já sem vida.

Kátia também criticou a ação dos policiais militares. De acordo com ela, não havia qualquer operação policial no local e "não havia bandidos" no momento dos disparos.

"[Os policiais] já chegaram atirando. Não tinha bandido nenhum no momento. O tiro surgiu da onde? Ali não tem como ter operação. Ali vai ter operação como, se não tem uma casa de tijolo? Eles chegaram atirando, só chegam assim", disse ela. A Polícia Militar, na época, afirmou que só chegou ao local quando a menina já estava baleada.

Caçula, Jenifer tinha o sonho de ser atleta. A mãe diz que ela era uma "uma bebezinha".

O caso foi investigado pela Delegacia de Homicídios da capital. Em nota, a Polícia Civil afirmou que a investigação está em andamento e sustentou a versão de que Jenifer foi atingida durante confronto entre traficantes de facções rivais.

Kauan Peixoto, 12

Kauan Peixoto, baleado na Baixada Fluminense - Arquivo pessoal
Kauan Peixoto, baleado na Baixada Fluminense
Imagem: Arquivo pessoal
Morto em março deste ano durante operação policial na Chatuba de Mesquita, em Mesquita, Baixada Fluminense. O garoto estava na comunidade em visita ao pai, ritual que mantinha quinzenalmente.

De acordo com a família de Kauan, ele estava indo comprar um lanche quando os policiais cruzaram o mesmo caminho. A família afirma que os policiais atiraram à queima-roupa no menino, que ainda tentou explicar que "era morador".

Luciana Pimenta, mãe de Kauan, afirmou que a médica do Hospital Geral de Nova Iguaçu, para onde ele foi recolhido, lhe disse que o menino foi atingido no abdômen, na perna e no pescoço, o que confronta a tese de "bala perdida".

Luciana afirma também que, após os tiros disparados contra Kauan, os policiais retiraram todas as cápsulas do local.

A Polícia Militar afirma que houve confronto entre policiais e bandidos e que, após o episódio, encontrou Kauan já atingido. Sem detalhes, a Polícia Civil afirmou que a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense ainda investiga o caso.

Kauã Rozário, 11

Kauã Rozário, atingido com um tiro de fuzil pelas costas - Arquivo pessoal
Kauã Rozário, atingido com um tiro de fuzil pelas costas
Imagem: Arquivo pessoal
Morto em maio deste ano com um tiro de fuzil pelas costas enquanto andava de bicicleta na Vila Aliança, na zona oeste do Rio. A morte cerebral do menino foi confirmada seis dias após ele ter sido atingido.

Jocilei Rozário, 33, pai de Kauã, afirma que policiais à paisana atiraram na mesma rua em que o menino estava. A versão da Polícia Militar é que policiais estavam em patrulha quando bandidos em motos atiraram contra a equipe e houve confronto.

Na ocasião do enterro de Kauã, Jocilei afirmou que o menino era um ótimo filho. "Ele estava com notas boas na escola. Neste ano, melhorou de uma hora para outra na escola. Eu tinha combinado até de dar um celular de presente para ele. Ele sempre foi alegre, sorridente", relembrou.

O caso continua a ser investigado pela delegacia de Bangu (34ª DP).

Kauê Ribeiro dos Santos, 12

Kauê Ribeiro dos Santos, morto durante operação no Complexo do Chapadão - Arquivo pessoal
Kauê Ribeiro dos Santos, morto durante operação no Complexo do Chapadão
Imagem: Arquivo pessoal
Morto no dia 7 de setembro durante operação do 41º Batalhão da Polícia Militar no Complexo do Chapadão.

Na versão original, a PM afirmou que Kauê era um dos "homens" responsáveis por descarregar um caminhão roubado. Kauê tinha o sonho de ser jogador de futebol.

Familiares afirmam que Kauê, na verdade, tentou pular um muro quando viu a aproximação do "caveirão", com medo de ser atingido por algum disparo. Na ocasião, a família também denunciou a demora no socorro.

A Polícia Civil afirmou que o inquérito já foi enviado para a Justiça, mas não deu informações sobre indiciados.

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