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Líderes indígenas vão à corte internacional por ataques de Bolsonaro na ONU

O cacique Almir Narayamoga, chefe dos paiter-suruis - Daniel Marenco/Folhapress
O cacique Almir Narayamoga, chefe dos paiter-suruis Imagem: Daniel Marenco/Folhapress

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

26/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Cacique diz que discurso feito na ONU incentiva ataques aos índios
  • Lideranças vão levar críticas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos

Temendo se tornarem ainda mais constantes os ataques a suas terras, lideranças indígenas pretendem levar a tribunais internacionais o discurso do presidente Jair Bolsonaro, realizado na terça, na abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas).

Na sua fala a líderes mundiais, Bolsonaro acusou índios de provocarem incêndios na Amazônia, afirmou que há riquezas em subsolo de terras indígenas que precisam ser retiradas e atacou duramente o cacique Raoni, liderança indígena brasileira com grande prestígio internacional.

O cacique Almir Narayamoga, da etnia suruí, em Rondônia, afirmou ao UOL que um grupo já se reuniu ontem, em Brasília, para definir a forma como a denúncia será feita.

"Eles avaliaram o discurso do presidente e tomaram uma posição desse movimento para levar esse discurso para a corte internacional. Ele não pode ficar falando sobre os índios assim. Tem de respeitar nosso líder Raoni", afirmou.

A ideia é levar as críticas à CIDH (Corte Interamericana de Direitos Humanos), ligada à OEA (Organização dos Estados Americanos), que recebe denúncias de violações de direitos humanos em todo o mundo.

Outros líderes indígenas classificaram o discurso como "ofensivo", "racista" e "paranoico". Em Nova York, também houve críticas à fala do presidente.

Narayamoga é uma referência internacional na defesa da Amazônia. No final de agosto, ele participou do Encontro dos Executivos, organizado em Paris.

Para o líder, a fala de Bolsonaro foi infeliz. "É muito triste. Ele só atacou os povos indígenas, não esperava isso de uma autoridade máxima de um país com uma população que também faz parte do Brasil. É uma vergonha", afirma.

O cacique ainda diz que a fala pode incentivar atos de violência contra indígenas. "Esse tipo de discurso é um incentivo para aqueles que não respeitam e não gostam dos povos indígenas e do meio ambiente. Acredito que ser um tipo de discurso que pode agravar os conflitos em algumas regiões do país contra povos indígenas e contra o meio ambiente", avalia.

Uru-Eu-Wau-Wau - Povo Uru-Eu-Wau-Wau - Povo Uru-Eu-Wau-Wau
Placa de identificação do território indígena Uru-Eu-Wau-Wau foi danificada por tiros em Rondônia
Imagem: Povo Uru-Eu-Wau-Wau

Arcebispo diz que Bolsonaro exala preconceito

Em comunicado oficial, o arcebispo de Porto Velho e presidente do Cimi, Dom Roque Paloschi, também criticou o discurso contra indígenas feito pelo presidente em Nova York, em especial ao cacique Raoni.

"Ao tratar Raoni e demais lideranças indígenas como manipuláveis, o presidente exala seu pensamento e sentimento preconceituoso e o racismo calcado na falta de conhecimento em relação aos povos indígenas no Brasil ou na sua má-fé relativamente ao tema", diz.

O arcebispo diz que a fala coloca os índios em uma situação ainda mais vulnerável. "A agressividade nos discursos do presidente da República e de membros do seu governo servem de combustível para a violência cometida contra os territórios e a vida dos povos originários, cidadãos e cidadãs de primeira hora de nosso querido Brasil", explica.

Ontem, o Cimi revelou que os ataques a terras indígenas dispararam neste ano, com 160 casos registrados --44% a mais que o total registrado em 2018. Os casos citados envolvem invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio dos índios.

Bolsonaro na ONU: Veja a íntegra do polêmico discurso

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