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Idoso morre após médicos decretarem greve e hospital recusar transferência

Arlindo Aparecido Pilhalarmi morreu aos 80 anos - Acervo Pessoal
Arlindo Aparecido Pilhalarmi morreu aos 80 anos Imagem: Acervo Pessoal

Simone Machado

Colaboração para o UOL, em São José do Rio Preto (SP)

05/11/2019 17h23Atualizada em 05/11/2019 19h20

O aposentado Arlindo Aparecido Pilhalarmi, 80 anos, morreu depois de esperar por quase 20 horas para ser transferido da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para a Santa Casa, na cidade de Santa Fé do Sul, interior de São Paulo. A morte aconteceu no último domingo. Os médicos da Santa Casa decretaram greve na sexta-feira (1º) por causa de salários atrasados.

A família de Arlindo procurou a polícia na noite de ontem e registrou um boletim de ocorrência por omissão de socorro.

Segundo Marisa Pilhalarmi, filha da vítima, na noite de sábado o aposentado, que já tinha problemas de saúde como hipertensão e diabetes, sofreu uma queda no banheiro de casa e fraturou o fêmur. Ele foi socorrido pelo SAMU e levado até a UPA da cidade.

"Devido à gravidade da fratura, os médicos da UPA disseram que ele teria que passar por uma cirurgia com urgência e por isso teria que ser transferido para a Santa Casa", comenta.

Ainda segundo relato da família, os médicos da unidade de saúde solicitaram a transferência, porém o pedido teria sido negado pelos dois médicos plantonistas do hospital. Na sexta-feira (1º), médicos da Santa Casa entraram em greve devido a atrasos nos pagamentos. A paralisação terminou ontem após um acordo dos médicos com o provedor do hospital.

No registro policial, a filha do idoso conta ainda que uma funcionária da Santa Casa teria pedido dinheiro à família para agilizar a internação.

"Uma funcionária ligou para a minha irmã, que acompanhava meu pai, e pediu R$ 15 mil para que a transferência fosse feita na hora. Mas não tínhamos esse dinheiro naquele momento", acrescenta Pilhalarmi.

No domingo à tarde o estado de saúde de Arlindo se agravou, evoluindo para um desconforto respiratório e, na sequência, para uma embolia, segundo os familiares. Somente às 19h do domingo a transferência do idoso para o hospital foi aceita pela Santa Casa.

Cerca de uma hora após dar entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa, o idoso morreu. O atestado de óbito do idoso foi registrado como causa desconhecida.

Em nota, a prefeitura de Santa Fé do Sul, responsável pela UPA, informou que "às 6h31 da manhã de domingo (3/11), foi solicitada pela UPA a primeira tentativa de transferência para Santa Casa local, e também para a central de regulação do Estado (Cross). A resposta da Santa Casa foi que não poderia aceitar o paciente devido à paralisação dos serviços médicos, mesmo se tratando de Urgência do caso. Durante o dia foram feitas mais quatro tentativas para a Santa Casa local, necessitando ser acionada a provedoria e direção técnica do hospital, que por volta das 17h40 foi feita a transferência do paciente. O idoso deixou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), às 17h45, em insuficiência respiratória, em ventilação mecânica (intubação orotraquial), e instabilidade hemodinâmica", diz.

A reportagem do UOL entrou em contato com a Santa Casa de Santa Fé do Sul, porém até o momento não obteve retorno.

O Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) também foi procurado e informou que ainda não foi informado dos fatos.
"O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) informa que, até o momento, não foi formalmente acionado sobre esta ocorrência. No entanto, reitera que - dentro de suas atribuições institucionais e de acordo com as normas legais - cumpre seu dever de apurar infrações éticas cometidas por médicos, no exercício da profissão, quando oficialmente acionado ou quando os fatos chegam ao seu conhecimento (ex officio). No caso em questão, o Cremesp poderá abrir sindicância para apurar se houve indícios de má conduta ética e profissional, respeitando os fluxos formais e garantindo o direito de manifestação a todos os envolvidos", diz a nota.

Cotidiano