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Vítima de chacina na Bahia era motorista de aplicativo para completar renda

Genivaldo era casado há 23 anos e deixa um filho - Arquivo pessoal / Facebook
Genivaldo era casado há 23 anos e deixa um filho Imagem: Arquivo pessoal / Facebook

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/12/2019 18h20

Genivaldo da Silva Filho, 48, uma das vítimas da chacina que vitimou quatro motoristas de aplicativos no bairro Jardim Santo Inácio, periferia de Salvador, era vigilante e fazia transporte de Uber e 99 na folga para complementar a renda da família. Até agora, nenhum suspeito do crime foi preso e não se sabe a motivação dos assassinatos. Um homem apontado como um dos autores da chacina morreu em confronto com a polícia, na noite de sexta-feira (13).

Natural do município de Laje (BA), Genivaldo era casado havia 23 anos e deixa um filho. A mulher de Genivaldo, Paula Bispo da Conceição, relata que o marido era motorista de aplicativo no carro da família para complementar a renda. "Ele dirigia na folga dele para completar nossa renda. Saiu para trabalhar, e não deixaram ele voltar por crueldade. Foi muita maldade o que fizeram com ele e com os outros motoristas. Estou sob efeito de remédios para aguentar tanta dor", disse Paula, em entrevista ao UOL, na tarde de hoje.

Familiares de Genivaldo estiveram no DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa) da Polícia Civil na tarde deste domingo. Eles pedem que o crime seja elucidado o mais rápido possível. "Tiraram a vida de um guerreiro, que lutava trabalhando para vencer na vida", disse Joseilton Felix, o primo de Genivaldo.

Ivanilda Felix conta que o irmão trabalhava como motorista havia dois anos, pois viu a oportunidade de melhorar a renda com o serviço extra. Ela disse que, no dia que ele foi morto, mandou mensagem no grupo da família e saiu para trabalhar. "Ele era nosso porto seguro. Sempre foi uma pessoa otimista, que queria o bem de todos. Estamos sem entender por que tanta crueldade, já que ele tinha um caráter valioso. Ele era um superfilho, um superirmão. É muito triste perder um herói igual a ele."

O crime

Os motoristas receberam chamados para corridas, acionados via aplicativos por duas travestis. Ao chegarem ao local da suposta corrida, as vítimas foram rendidas por três homens. A polícia disse que eles foram torturados, antes de serem assassinados a golpes de facão, dentro de um barraco localizado na rua do Nepal, na comunidade Paz e Vida. Os corpos foram arrastados até um terreno na área de mata da comunidade, a cerca de 10 metros do barraco.

Os homens assassinados foram identificados como Alisson Silva Damascena dos Santos, 27, Daniel Santos da Silva, 30, Genivaldo da Silva Félix, 48, e Sávio da Silva Dias, 23. Segundo a polícia, eles são motoristas dos aplicativos Uber e 99.

A chacina foi descoberta após um quinto motorista conseguir fugir pela mata e pedir ajuda à polícia. Quatro carros dos motoristas foram localizados na própria comunidade. O quinto veículo foi encontrado abandonado em Simões Filho, região metropolitana de Salvador. O caso está sendo investigado pelo DHPP da Polícia Civil.

Em nota, a Polícia Civil da Bahia informou que "as investigações estão em curso, sem detalhes a serem divulgados, no momento, para não interferir na apuração do caso."

Clima de revolta

O enterro dos corpos dos quatro motoristas ocorreu ontem sob clima de comoção e revolta, com pedido de justiça. O diretor do sindicato dos motoristas de aplicativos em Salvador, Vinicius Passos, fez um discurso emocionado durante o enterro dos colegas Daniel Santos da Silva e Sávio da Silva, no cemitério do Campo Santo, em Salvador.

"A gente não pode deixar isso acontecer. Temos que pedir Justiça e cobrar uma punição. Não podemos deixar que esses selvagens façam isso com pais de família. Saímos todos os dias deixando nossas famílias em casa para ganhar nosso pão, e agora esse retorno: uma mãe enterrando um filho, uma esposa enterrando seu marido", disse Passos, destacando que amanhã motoristas de aplicativo farão uma mobilização em Salvador pedindo segurança no trabalho e justiça para o crime que vitimou os quatro motoristas.

O enterro de Genivaldo da Silva Félix ocorreu no município de Laje (BA), e o de Alisson Silva Damascena dos Santos, no município de Camamu (BA).

Detalhes da chacina

O motorista sobrevivente, que não teve a identidade revelada, contou à polícia que conseguiu fugir da emboscada correndo pela área de mata e chegou até o Complexo Penitenciário da Mata Escura, onde pediu socorro aos policiais que fazem a segurança externa da unidade prisional.

Os policiais acionaram equipe da 48ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Sussuarana), que localizou os corpos dos quatro motoristas. Quatro veículos das vítimas também foram localizados na comunidade. O quinto carro em uma estrada no município de Simões Filho.

Na noite de sexta-feira, policiais da 81ª Companhia Independente da Polícia Militar entraram em confronto com três homens, nas proximidades do condomínio Quinta da Glória, em Itinga, região metropolitana de Salvador. Dois homens morreram na troca de tiros e um conseguiu fugir. Um dos mortos foi reconhecido pelo sobrevivente da chacina.

"Os policiais aguardavam a chegada de um guincho para a remoção de um veículo com restrição de roubo, quando outro carro, com três homens, chegou e encontrou a guarnição. Eles já desceram do segundo carro atirando", contou o major Sérgio Dias.

A polícia pede que quem tiver informações sobre a chacina entre em contato com o disque denúncia pelo número (71) 3235-0000. O anonimato é garantido.

A 99 confirmou que Alisson Silva Damascena dos Santos e Genivaldo da Silva Félix são cadastrados para usar o aplicativo e afirmou que está colaborando com as investigações da polícia.

"A companhia se solidariza com a família das vítimas nesse momento de profunda dor. A 99 mobilizou uma equipe especializada que está buscando contato com as famílias para dar todo o apoio e acolhimento necessários, o que inclui o acionamento de um seguro pessoal que cobre todas as corridas do aplicativo", informou a empresa.

Em nota, a Uber disse que está em contato com as autoridades responsáveis para apoiar nas investigações do "crime brutal e chocante". A empresa não divulgou quem das vítimas prestava serviço ao aplicativo.

Cotidiano