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Fora do centro expandido de SP, motoristas descumprem novo rodízio

Movimento de veículos na Radial Leste, no Tatuapé, na manhã de hoje - Paulos Lopes/BW Press/ Estadão Conteúdo
Movimento de veículos na Radial Leste, no Tatuapé, na manhã de hoje Imagem: Paulos Lopes/BW Press/ Estadão Conteúdo

Luís Adorno e Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

11/05/2020 13h13

Apesar de valer para toda a cidade de São Paulo, durante as 24 horas do dia e incluindo os finais de semana, o novo rodízio de carros que começou hoje não foi respeitado por parte dos motoristas. A reportagem observou muitos carros com placa final par trafegando durante a manhã na zona leste, fora do centro expandido.

Como hoje é dia ímpar (11), apenas os carros com placa final número ímpar podem rodar em toda a cidade. Os carros observados, com plana de número final par, estavam na radial leste, entre os bairros de Itaquera e Tatuapé.

No estacionamento do shopping Metrô Itaquera, um dos fiscais locais apontou para a reportagem ter observado muitos motoristas com placa final par deixando o carro no local, como costumam fazer normalmente. O estacionamento é muito utilizado por trabalhadores do extremo leste que, a partir dali, seguem de metrô até seu local de trabalho.

A reportagem contabilizou 17 carros com placa final par no estacionamento. "Eu mesmo não sabia que o rodízio valia agora também fora do centro expandido. Costumo vir para cá de ônibus, mas imagino que o cara que deixou o carro aqui vacilou, porque também devia pensar que valia só no centro expandido", disse o fiscal, que pediu para não ser identificado porque afirmou que precisaria de autorização da empresa.

Segundo a prefeitura, será aplicada uma multa de R$ 130,16 a quem desrespeitar o novo rodízio. O motorista também terá advertido com quatro pontos em sua CNH (Carteira Nacional de Habilitação).

A medida foi feita pela gestão municipal como tentativa de aumentar o isolamento social da população, que é considerado baixo até o momento, em meio ao combate à pandemia do novo coronavírus.

Pela manhã, o secretário de Mobilidade e Transportes da cidade de São Paulo, Edson Caram, afirmou que a redução do volume de veículos circulando por causa da implementação do novo rodízio ainda não era a esperada pelas autoridades. Mais tarde, disse que avaliou de forma positiva e que as ruas estavam "vazias".

A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) divulgou nota dizendo que o "novo rodízio teve grande impacto no trânsito de São Paulo". "Pico de congestionamento desta segunda-feira foi bem menor e foi de 1 km, às 8h30. Na semana passada, o pico foi de 11 km, entre 8h e 9h", diz o texto.

A comparação, porém, não leva em conta que na segunda-feira da semana passada havia bloqueios na cidade, que geraram congestionamentos. Na segunda-feira anterior, dia 27 de abril, o pico foi de 9 Km.

O coordenador Rodrigo Cardos, 36, declarou que as medidas são necessárias porque o "coronavírus não é brincadeira e coloca em risco a vidas de todos".

Ele disse que vai atrapalhar a rotina, mas é melhor que ser infectado. O motorista afirmou que está bastante preocupado porque leu que serão 11 mil mortos em maio mesmo com isolamento social de 55%.

Para as pessoas respeitarem o rodízio, a prefeitura colocou a CET para trabalhar. O motoboy Joel Dendson, 52, afirmou que viu muita fiscalização nas ruas do centro, área da avenida Paulista e na Radial Leste. Mas nas áreas menos movimentadas ele não esbarrou com fiscais de trânsito.

"Nas vias principais está bom o respeito [ao rodízio] porque tem CET e Polícia Militar. Pode estar certo de que a multa vem. Nas ruas menos importantes tem mais gente porque não tem fiscalização".

Agentes da CET fiscalizam novo rodízio na avenida Paulista - Fábio Vieira/Fororua/ Estadão Conteúdo - Fábio Vieira/Fororua/ Estadão Conteúdo
Agentes da CET fiscalizam novo rodízio na avenida Paulista
Imagem: Fábio Vieira/Fororua/ Estadão Conteúdo

Motoristas de aplicativo x motoristas de táxi

A queda do movimento nas ruas durante a quarentena faz São Paulo não parecer uma cidade de 12, milhões de habitantes.

O novo rodízio dá a impressão de que a população encolheu ainda mais. Metade dos carros na rua significa metade dos motoristas de aplicativo. Sem poder trabalhar metade do mês, muitos afirmam que farão longas jornadas de trabalho.

Caio Alberto de Andrade, 33, começou a trabalhar cedo e afirmou que ficará 14 horas rodando. Ele disse que no início da quarentena, em 24 de março, reduziu sua meta de faturamento em 50%. Com as contas pressionando o orçamento, se recusa a fazer nova redução na receita diária com Uber e 99, os dois aplicativos com os quais trabalha.

"Para nós este rodízio não é bom. Vou ter que fazer mais horas. Vão ser 14 horas e, num dia normal, não passo de 10 horas. Eu sei que é correto pela saúde, mas fico dividido porque está bem complicado para mim", disse.

No principal ponto de táxi do metrô Itaquera, havia por volta das 8h cinco carros estacionados. Dois deles com número final na placa par: 4 e 6, mas táxis estão liberados do rodízio. Os motoristas desses dois carros elogiaram a medida da prefeitura.

"Para a gente, não mudou muita coisa. Nosso movimento caiu muito desde o começo do coronavírus, as pessoas não usam táxi porque querem economizar ao máximo. Eu mesmo estou economizando ao máximo", disse Jorge Marques, 29.

Seu colega Márcio Flores, 36, concordou, mas acrescentou que a situação podia ser pior. "Se estivessem restringindo a gente, o que a gente ia fazer? Já está difícil rodando todo dia. Um dia sim, um dia não, ir matar a gente."

É essa a situação do motorista de aplicativo Gustavo Andrade, 26. "Minha placa é ímpar. Então, tenho que colocar na ponta do lápis quanto ganharia em dois dias. E vou ter que fazer, ou sim ou com certeza, o de hoje e o de amanhã", diz.

Apesar disso, Andrade reconhece que é importante o isolamento social. "Acho que só assim o povo vai entender que precisa ficar mais em casa. Eu mesmo vou ter que mudar minha mente. Consegui o dinheiro para pagar as contas? Fico o restante em casa", afirma.

Já o motorista de aplicativo Carlos Bezerra, 47, é mais crítico à medida. "Eu trabalhei a vida inteira como vendedor. Não consegui mais emprego. Virei motorista. Aí quando eu começo a me acertar, pagar tudo direitinho, vem um balde de água fria. Nada vem para ajudar, tudo para atrapalhar", reclama.

Transporte coletivo sem filas

Dentro e fora do centro expandido, ônibus e composições do Metrô e CPTM não superlotaram. A prefeitura ampliou em mil ônibus a quantidade de veículos no transporte coletivo. Segundo Caram, além dessa quantidade, mais 460 ônibus que estavam em bolsões entraram em circulação nesta manhã.

Apesar de não haver aglomerações, houve um aumento no número de pessoas no transporte coletivo. Segundo o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, houve acréscimo de 12% no Metrô e de 15% na CPTM.

metro - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Nas estações de metrô os passageiros tomam cuidado de se manterem afastados
Imagem: Felipe Pereira

Muitas pessoas reclamaram que sem poder usar carros o transporte coletivo iria lotar e facilitar a transmissão do vírus. Nos ônibus que trafegaram na avenida Paulista, no centro, o passageiro poderia escolher onde sentar.

O metrô viajava com a lotação dos domingos de manhã. Vagões com pouca gente permitindo escolher onde sentar também.

Nas estações onde as linhas se encontram havia mais passageiros. Mas em quantidade muito menor que nos dias normais antes da pandemia.

O resultado é que os ambulantes na saída das estações Sé, Itaquera e Tatuapé tinham menos clientes para convidar a comprar ouro, oferecer servidos de advocacia e, claro, vender máscaras.

O cozinheiro Valmir Ferreira de Almeida, 49, recusou todas as promoções. Como os boletos se impõe, ele saiu de casa cedo para entregar currículos.

Ele fazia refeições em um restaurante no centro e perdeu o emprego. Busca uma vaga qualquer para juntar R$ 1.800 mil e conseguir pagar o aluguel, luz, água e o cartão. "A dívida vai chegar e não tiver dinheiro vai viver como? Para mim não tem jeito de ficar em casa".

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Com as contas chegando, Valmir Ferreira de Almeida foi ao centro para entregar currículos
Imagem: Felipe Pereira

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