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Adolescente João Pedro é morto em operação no Rio; família critica polícia

João Pedro, 14, é morto após operação policial em São Gonçalo (RJ) - Reprodução/Twitter/@_danblaz
João Pedro, 14, é morto após operação policial em São Gonçalo (RJ) Imagem: Reprodução/Twitter/@_danblaz

Marcela Lemos

Colaboração para UOL, no Rio

19/05/2020 09h59Atualizada em 20/05/2020 12h20

Resumo da notícia

  • João Pedro Mattos, 14, morreu ontem durante uma operação da Polícia Civil e da Polícia Federal em São Gonçalo (RJ)
  • Familiares e amigos relataram que ele brincava na casa de um tio, quando policiais invadiram o imóvel e o atingiram na barriga
  • Polícia Civil alega que o adolescente foi atingido durante uma troca de tiros entre bandidos e policiais
  • Policiais disseram que responderam a tiros e lançamentos de granadas de supostos traficantes
  • Delegacia de homicídios anunciou investigação sobre o caso

O adolescente João Pedro Matos, de 14 anos, morreu ontem durante uma operação da Polícia Civil e da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.

Familiares e amigos da vítima relataram ao UOL que ele brincava no quintal da casa de um tio, quando policiais invadiram o imóvel e o atingiram na barriga. Já a Polícia Civil alega que o adolescente foi atingido durante uma troca de tiros entre bandidos e policiais, sendo socorrido de helicóptero.

Em entrevista à TV Globo, o pai de João Pedro dirigiu-se ao governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), e afirmou que o ato destruiu a família.

Quero dizer, senhor governador, que a sua polícia não matou só um jovem de 14 anos com um sonho e projetos, a sua polícia matou uma família completa, matou um pai, matou uma mãe e o João Pedro. Foi isso que a sua polícia fez com a minha vida
Neilton Pinto, pai de João Pedro

Ele estava trabalhando quando soube que o filho foi baleado. Médicos do Corpo de Bombeiros prestaram atendimento, mas ele não resistiu aos ferimentos. O corpo foi encaminhado para o IML (Instituto Médico Legal) de São Gonçalo.

O caso ocorreu na Praia da Luz, em São Gonçalo. De acordo com moradores, a família ficou sem informações sobre o local onde João Pedro foi socorrido. Em entrevista ao UOL, uma tia da vítima e uma amiga da família disseram que João estava brincando com dois primos, quando policiais entraram na casa e acertaram um tiro na barriga do jovem.

"Ele nem estava saindo de casa por conta dessa pandemia. Aí, o primo passou na casa dele e foi lá buscá-lo para brincar. Eles estavam no quintal da casa. Ele se assustou com o policial, e o policial atirou na barriga dele. Até agora não sabemos de nada. Se ele morreu no local, a caminho do hospital", disse Georgia Matos de Assis, 41, tia de João Pedro.

De acordo com ela, os familiares fizeram buscas durante toda a madrugada. "Rodamos tudo isso aqui, São Gonçalo, Niterói, atrás dele. Até no Rio fomos. Só localizamos no IML aqui de Tribobó [em São Gonçalo]. Um descaso com a vida do menino", lamentou.

A família está imobilizada, estamos acabados, ele era um menino muito bom, era estudante de um colégio particular. A mãe dele é professora, família da igreja
Georgia Matos de Assis, tia de João Pedro

O pai de João Pedro se emocionou ao falar do filho. "Um jovem com um futuro brilhante pela frente, que já sabia o que queria do seu futuro. Mas, infelizmente a polícia interrompeu o sonho do meu filho. A polícia chegou lá de uma maneira cruel, atirando, jogando granada, sem perguntar quem era. Se eles conhecessem a índole do meu filho, quem era meu filho, não faziam isso. Meu filho é um estudante, um servo de Deus. A vida dele era casa, igreja, escola e jogo no celular", lamentou em entrevista à TV Globo.

A família ficou mais de 17 horas a procura do jovem e mobilizou as redes sociais atrás de informações. Uma amiga da família explicou que o resgate foi feito de helicóptero, mas que a família foi impedida de embarcar com João Pedro. "Obrigaram a socorrê-lo até um campo de futebol, onde o helicóptero fez o resgate, mas impediram que os familiares embarcassem junto com ele. A família ficou sem notícias a noite toda e agora de manhã localizaram o João no IML", afirmou Érika de Souza.

Investigação sobre morte

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) instaurou inquérito para apurar a morte do adolescente e informou que "foi realizada perícia no local e duas testemunhas prestaram depoimento na delegacia".

Os policiais também foram ouvidos e as armas apreendidas para confronto balístico. "Outras diligências estão sendo realizadas para esclarecer as circunstâncias do fato", informou a instituição.

De acordo ainda com a Polícia Civil, a ação visava o cumprimento de dois mandados de busca e apreensão contra lideranças do tráfico na região. Durante a ação, supostos seguranças dos traficantes teriam tentado fugir, pulando o muro de uma casa. Segundo os policiais, eles efetuaram disparos e arremessaram granadas na direção dos agentes, que responderam. No local foram apreendidas granadas e uma pistola.

Nova operação no local

Um dia após a morte do adolescente, moradores relatam que a PF faz uma nova operação na região. Já houve registro de confronto pela manhã. Dois helicópteros sobrevoam o local. Procurada, a Polícia Federal informou que ação ocorre com apoio do GAM (Grupamento Aero-Móvel) da Polícia Militar em ação contra o tráfico de drogas e armas no Complexo do Salgueiro.

"A ação tinha como objetivo apurar denúncias de que traficantes estariam utilizando uma casa no alto da mata do Complexo como apoio para o tráfico na região", destacou a PF, que informou que o imóvel suspeito foi localizado.

Foram apreendidos diversos materiais como armas, drogas, munições, carregadores, roupas camufladas, entre outros, que, segundo a PF, confirmam as denúncias e suspeitas de que o local seria utilizado pelas lideranças do tráfico. Os materiais apreendidos foram levados à Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Cotidiano