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Repórter tem celular quebrado por PM em manifestação e é intimidado em DP

Policial militar (à direita da imagem, de óculos) empurrou repórter do UOL que filmava discussão pelas costas em manifestação da avenida Paulista, em São Paulo - Luís Adorno/Do UOL
Policial militar (à direita da imagem, de óculos) empurrou repórter do UOL que filmava discussão pelas costas em manifestação da avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Luís Adorno/Do UOL

Do UOL, em São Paulo

15/06/2020 14h56Atualizada em 15/06/2020 18h40

O repórter Luís Adorno, escalado neste domingo (14) para cobrir pelo UOL a manifestação que ocorria contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na avenida Paulista, teve o celular quebrado após um empurrão de um policial militar e foi intimidado por policiais civis ao tentar apresentar queixa no 78º DP, nos Jardins (zona oeste de São Paulo).

Além de Adorno, outro repórter cobriu o ato a favor do governo, no viaduto do Chá, ocorrido no mesmo horário.

O repórter chegou em frente ao Masp às 13h, uma hora antes do ato. Havia cerca de 30 manifestantes. Ele observou um capitão da PM com um colete escrito "imprensa" na farda e se apresentou a ele. O oficial disse se chamar Rogério da Silva Julio e, com atenção, afirmou que poderia ceder informações caso necessário durante o dia.

Enquanto a manifestação não começava, o repórter colheu depoimentos de quem chegava ao ato. Por volta das 13h30, três jovens com suásticas estampadas nas camisetas passaram em frente ao Masp, no sentido rua da Consolação, sorrindo. Um deles disse: "Protesto de merda".

Três homens que estavam no Masp para a manifestação, com símbolos antifascistas estampados nas roupas, xingaram o grupo com aparatos nazistas. Enquanto caminhavam sentido Consolação, os antifascistas afirmavam que eles não eram bem-vindos, para eles irem embora e que, se não fossem logo, poderiam ser agredidos.

Na esquina da avenida Paulista com a rua Peixoto Gomide, um carro da PM estava estacionado. Quando os neonazistas e os antifascistas chegaram ao local, um dos antifascistas foi até um dos policiais militares e acusou os outros três jovens de serem neonazistas. Um dos PMs respondeu: "Infelizmente, a gente vive num país em que a democracia é livre". Um dos jovens com camiseta com suásticas complementou: "Liberdade de expressão".

Na sequência, o PM disse: "Alguém aqui... Pode fornecer o documento do senhor [antifascista]? A gente vai conduzir, então, para a delegacia." O rapaz respondeu: "Vamos, demorou. O playboy vai para a delegacia comigo? Ele vai para a delegacia mesmo? Ou só eu vou?". O PM pediu o documento ao homem com aparatos nazistas, que respondeu: "Ixe, eu tô sem". O policial pediu, então: "Tá sem? Encosta aqui, por gentileza."

O PM perguntou ao jovem com a camiseta com a suástica estampada se ele sabia o número do RG e recebeu resposta positiva. O repórter gravava a cena quando recebeu um empurrão nas costas. Com a pancada, o celular caiu no chão e teve a tela quebrada. A abordagem acontecia do lado direito do repórter. Após empurrar, o policial foi para o lado esquerdo, sendo identificado pela reportagem. Conforme informação do boletim de ocorrência, o nome do policial que provocou a queda do celular é Ricardo Aparecido Avila de Souza, 37.

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O policial omitiu a identidade na farda, conforme comprovado em fotografias registradas pelo repórter. O jornalista voltou a filmar a cena, quando o PM passou por trás dele. O repórter disse a ele: "Pô, cara, não precisava disso, né? Não precisava". Com a mão direita na cintura, o PM foi em direção ao repórter e disse: "O que é que você tá falando aí? Vamos conversar, vamos trocar uma ideia, então".

O jornalista perguntou o nome do policial, e ele respondeu que não tinha entendido a pergunta. O repórter voltou a falar que "não tinha necessidade" do empurrão e se afastou para passar a informação para a redação. Enquanto isso, ouviu de um dos policiais: "Vai, cuzão". O repórter voltou ao local para continuar seu trabalho e fotografou o PM.

Rafael Ferreira Souza, antifascista, disse à reportagem, no local dos fatos, ter visto a agressão e se solidarizou ao jornalista. "Você pegou o celular para filmar o que estava acontecendo e chegou o policial e te esbarrou de propósito, isso aí todo mundo viu, de propósito, pra você não filmar o que tava acontecendo", afirmou em vídeo gravado pela reportagem.

Membros da comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que estavam em serviço na manifestação, também passaram a observar quais medidas seriam adotadas pelos PMs com relação aos jovens com camisetas com suásticas estampadas. O repórter mostrou o celular quebrado e contou aos advogados da OAB que havia sido empurrado pelo policial citado. A OAB fotografou o celular e relatou o caso.

O repórter apurou que os PMs disseram que levariam os envolvidos para o 78º DP (Distrito Policial), nos Jardins. Na sequência, continuou seu trabalho acompanhando a manifestação da Paulista até a praça Oswaldo Cruz, no Paraíso. O jornalista relatou o que aconteceu ao capitão Rogério da Silva Julio, que o orientou a prestar queixa na Corregedoria da corporação.

Enquanto estava trabalhando, a PM ligou para o repórter e disse que as portas da sede do comando de policiamento de área metropolitano 1 estavam abertas para a formalização da denúncia. Também orientou que o jornalista poderia formalizar o fato na Corregedoria da PM e no 78º DP, da Polícia Civil. Após conversar com juristas e especialistas em segurança pública, no fim do protesto, o repórter foi até a delegacia.

Ao chegar no 78º DP por volta das 18h20 de domingo, estavam na porta do distrito policial a delegada titular, Zuleika Gonzalez Araujo, acompanhada de um outro policial civil, cujo cargo não foi possível identificar. O repórter, com crachá no pescoço, se apresentou e disse que gostaria de registrar um BO (Boletim de Ocorrência) narrando que, enquanto trabalhava durante a tarde, foi empurrado pelas costas por um PM que estava sem identificação na farda e que, por isso, teve a tela do celular quebrada.

Os dois policiais orientaram o repórter a aguardar na recepção da delegacia. Ao chegar no local, encontrou o PM que o empurrou acompanhado de outros dois policiais militares. Dentro da delegacia, o policial Ricardo Aparecido Avila de Souza o indagou: "Por que não veio conversar comigo? Vamos trocar ideia, você ficou com medo?" Um policial civil que tinha acabado de sair da sala do delegado o orientou: "Nem discute que vai ser pior, o delegado vai ouvir ele e não vai dar nada".

Na sequência, um policial civil branco, que estava com a identificação de delegado, afirmou em tom de voz alto que o UOL mente e que é tendencioso, e que os três jovens conduzidos à delegacia não eram neonazistas, que estavam com camisetas de uma banda de rock. Pelo menos outros dois policiais civis riram. O repórter perguntou a identidade do policial e se ele gostaria de ceder uma entrevista a respeito, e ele disse: pode escrever aí que o UOL mentiu.

A reportagem apurou que os jovens estavam com camiseta da banda Burzum, cujo líder é o norueguês Kristian Vikernes, conhecido como Varg, que é ligado ao movimento neonazista e que já foi condenado a 21 anos de prisão por matar um amigo a facadas. Ele também já foi detido sob suspeita de organizar um ato terrorista de movimentos de extrema-direita na Europa.

Depois de o policial civil dizer que o UOL mentiu, o delegado que se identificou como Fred Reis de Araujo foi até a recepção e perguntou: "Quem está envolvido na ocorrência? Você?", apontando para o repórter. O jornalista explicou que não estava envolvido em nenhuma ocorrência, que estava no local apenas para registrar um BO. O delegado perguntou se o BO era sobre os PMs, ao receber resposta positiva, disse: "Então, você está envolvido na ocorrência".

Outros policiais civis voltaram a rir. O jornalista questionou se toda vítima é tratada daquela maneira, e a delegacia ficou em silêncio. O delegado Fred Reis de Araújo acompanhou o repórter até sua sala. Lá, antes de o jornalista depor, disse que seria imparcial, que os PMs tinham outra versão e que colocaria no BO as duas versões. Ele narrou que os policiais disseram que o PM fotografado sentiu sua imagem arranhada e que o profissional de imprensa poderia responder por essa acusação.

O jornalista depôs para o delegado, que mantinha a porta da sala aberta, com os PMs e outros policiais civis acompanhando a conversa do lado de fora. Após terminar o depoimento, o delegado levou o jornalista para o lado de fora e convocou o PM. O depoimento do PM também foi cedido de porta aberta, com o jornalista do lado de fora escutando. O PM disse ter sentido uma esbarrada, que não entendeu o que aconteceu e que, quando pediu para falar com o repórter, o repórter não quis. O PM disse ao delegado não saber se o repórter estava o acusando por questões políticas.

O jornalista escreveu por meio de mensagens eletrônicas o que havia acontecido aos seus chefes de plantão, que o orientaram deixar o Distrito Policial e retornar ao local acompanhando por um advogado da empresa. O repórter questionou para a delegada titular se podia seguir a recomendação da empresa e ir embora, voltando depois com um advogado. Depois de questionado pela policial, o jornalista disse que se sentia intimidado no local. Ela afirmou não entender a intimidação e disse que estava no DP para assegurar a segurança do repórter.

Enquanto falava com a delegada, o delegado Fred liberou o PM da sala e se aproximou. O repórter disse aos dois que gostaria de seguir a determinação da empresa e deixar o local. Fred perguntou a razão, e a delegada disse que o jornalista se sentia intimidado. Em tom de voz alto, agressivo e com outros três policiais no entorno, o delegado pediu os documentos do repórter e que ele explicasse por que se sentia intimidado.

O jornalista afirmou a ele que poderia dizer o por quê, mas não no meio da delegacia, com os policiais que o intimidavam escutando a conversa. Fred levou o repórter novamente até sua sala. A delegada titular também acompanhou. Lá, o delegado plantonista repetiu diversas vezes que o ambiente não estava intimidatório e que, por lei, o jornalista deveria apresentar os documentos solicitados pela autoridade policial.

O repórter questionou mais uma vez se poderia seguir a determinação da empresa e ir embora. O delegado, primeiro, afirmou que não, que o jornalista deveria entregar os documentos e que ele iria transcrever no BO o que o profissional de imprensa havia narrado anteriormente. Zuleika intercedeu: "Doutor, ele não quer", disse. O delegado disse que, "então, vou colocar no BO que você esteve aqui, que desistiu de denunciar e o documento terá apenas a versão policial".

Zuleika intercedeu novamente: "Doutor, ele está aqui em qualidade de vítima", orientou. O jornalista agradeceu a delegada, perguntou de novo se poderia deixar o local e retornar com um advogado e recebeu a autorização dela. O repórter agradeceu os dois delegados, os policiais civis que estavam na delegacia e foi embora.

No BO, o policial militar afirmou que esbarrou acidentalmente no repórter e que estava preocupado com a repercussão do fato.

O UOL está adotando as medidas cabíveis.

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