PUBLICIDADE
Topo

Conteúdo publicado há
1 mês
"Fui torturado", diz jovem esfaqueado por PM em ação na Favela do Moinho

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

03/07/2020 21h03

Resumo da notícia

  • Em vídeo gravado por sua família e enviado à deputada Isa Penna, Sidney Lima conta que foi torturado
  • Segundo sua versão, ele negou-se a incriminar uma pessoa procurada pelos PMs
  • Por conta disso, ele tomou três facadas, correu e pulou da varanda do barraco onde mora
  • O jovem diz que pode perder os movimentos na mão direita; uma criança foi ferida na mesma ação policial e o MP investiga o caso

"Moro na favela, sou discriminado, não tenho dignidade." Com essa frase, o desempregado Sidney Santos de Lima, 18, começa o vídeo em que dá seu relato sobre o que aconteceu ontem (2) à tarde, em sua casa, na favela do Moinho, em Campos Elíseos, na região central de São Paulo.

Ele afirma que foi torturado, esfaqueado três vezes por um PM e que só não morreu por ter pulado da varanda do primeiro andar do barraco onde mora.

O UOL esteve ontem em sua casa e conversou com sua mãe e sua irmã. Ambas confirmam a versão do adolescente.

O vídeo foi gravado hoje de madrugada por familiares de Sidney e enviado à deputada estadual Isa Penna (PSOL), que pediu que o Ministério Público investigue o caso. O Procurador-Geral de Justiça, Mario Sarrubbo, designou hoje a promotora de Justiça Militar Rosana Colletta para atuar na investigação.

"Como vou trabalhar assim?"

Segundo o depoimento de Sidney, que está hospitalizado na Santa Casa, ele passará por uma cirurgia para tentar salvar os movimentos de sua mão direita, ferida com gravidade em uma das facadas. Ele afirma ter recebido 47 pontos na mão em virtude dos ferimentos.

Sidney conta que foi torturado para dar o nome de uma pessoa. "Ou você fala ou você morre", disseram os policiais, segundo o jovem.

"Eu sigo pelo certo e não falei nada. Como vou falar algo que eu nem sei? Só por eu morar na favela? Eu tenho que falar o que eles querem?", questiona.

Eu moro na favela, mas eu tenho dignidade. Nossa mãe nos sustentou puxando uma carroça."

"Eles queriam informação, mas que informação é essa que eu não sei? Chegaram agredindo os outros e torturando. Eu quero justiça, o que eles fizeram não é certo, não", disse o jovem.

Segundo o jovem, os PMs tentaram atirar contra ele depois que ele se negou a dar informações, mas a arma falhou. Foi quando um dos PMs partiu para cima dele, afirma o rapaz, com uma faca.

Atingido três vezes, Sidney correu para a varanda do barraco e se jogou, desesperado, deixando um rastro de sangue pela casa.

Segundo a versão da PM no local, a incursão na favela se deu em busca de drogas. Sidney teria se ferido ao pular do telhado de sua casa, depois de correr para dentro do imóvel, assustado com a ação policial.

Não houve apreensão de drogas durante a operação policial.

Moradores narram outros episódios de violência

Ontem, na favela do Moinho, relatos como o de Sidney surgiam aos montes vindos de moradores da comunidade, localizada num terreno ao lado de uma linha de trem.

Sidney não foi o único ferido durante a atuação da PM na favela. O menino Vitor, de 10 anos, foi mordido no braço direito por um cão farejador que acompanhava os PMs do choque que invadiram a favela. Cadeirante, o menino se trata de paralisia cerebral e o braço ferido é o que ele movimenta melhor.

Não é a primeira vez porque é favela e a PM acha que pode fazer o que quiser."
Morador da Favela do Moinho

Após o menino ter sido ferido, os moradores da favela se revoltaram, subiram até o viaduto Rudge e interromperam o trânsito da avenida Rio Branco, nos dois sentidos.

"Meu marido tomou um tapa na cara de um PM aqui nessa rua", disse uma ambulante à reportagem.

"Outra vez deram marteladas no joelho de um rapaz", contou um pedreiro à reportagem do UOL e à advogada Luzia Cantal, da Comissão de Direitos Humanos da OAB.

OAB fez cordão humano para impedir mais violência

A PM mobilizou um helicóptero, além de grande contingente de soldados, e atirou bombas de gás lacrimogêneo nos moradores, que queimaram lixo. Uma tragédia maior foi evitada devido à atuação da Comissão de Direitos Humanos da OAB, que fez um cordão humano na entrada da favela, com moradores, para impedir o avanço de policiais sobre a comunidade.

Enquanto isso, o Ouvidor da PM, Elizeu Soares, afirma que ligou para o comando da PM para suspender a ação. Com a retirada da PM, os moradores recuaram, por volta das 19h15 de ontem.

A deputada estadual Isa Penna (PSOL) enviou um ofício à Corregedoria da Polícia Militar e um requerimento ao Procurador Geral de Justiça de São Paulo solicitando a apuração dos fatos e acrescentando que os policiais teriam tentado evitar que o jovem de 18 anos fosse encaminhado ao hospital.

A deputada também pediu ao MP que apure qual a origem do aumento de casos de violência policial.

Deputada relata cerco a hospital

"Constatei que, enquanto o jovem era atendido, os policiais militares tentavam intimidar a vítima, impedindo o meu acesso a ele, desestimulando que o jovem conversasse comigo", escreve a deputada. Enquanto o UOL estava na favela ontem à noite, a Comissão de Direitos Humanos da OAB era informada que três carros da PM estavam no hospital.

O Ouvidor da PM ouviu a mãe das duas vítimas na favela e disse ontem que pediria a abertura de procedimento pela Corregedoria da PM, pois havia indícios de violações de direitos humanos na ação dos PMs do choque.

Hoje, a ouvidoria instaurou o procedimento de investigação sobre a ação. No ofício, assinado por Lopes, os casos descritos nesta reportagem são descritos e "diante da gravidade dos fatos", é pedido o afastamento dos policiais militares envolvidos até o término das investigações.

Cotidiano