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MT: Pistola não disparou sozinha em tiro que matou adolescente, diz perícia

Mãe folheia álbum de fotos da vítima Isabele, morta aos 14 anos com um tiro na cabeça - Reprodução/TV Globo
Mãe folheia álbum de fotos da vítima Isabele, morta aos 14 anos com um tiro na cabeça Imagem: Reprodução/TV Globo

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

12/08/2020 00h36Atualizada em 03/09/2020 11h20

Os laudos periciais de balística e do local da morte da adolescente Isabele Guimarães Ramos, 14, vítima de um tiro de pistola 380 enquanto visitava uma colega em um condomínio de Cuiabá, apontaram que o disparo da arma de fogo não aconteceu de forma acidental e ocorreu a curta distância.

Portanto, o laudo diverge do Termo de Declaração da adolescente, que relatou em 14 de julho, dois dias após o crime, que a arma teria disparado após cair acidentalmente da caixa em que estava guardada.

Os documentos periciais foram elaborados por peritos da Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica) e entregues ontem (11) ao delegado Wagner Bassi, titular da Delegacia Especializada do Adolescente, que investiga o caso. Inicialmente, a polícia informou que o caso era tratado como acidente, mas atualmente afirma que "todas as circunstâncias envolvendo o crime são objeto de apuração".

Isabele morreu dentro de um dos banheiros da casa da família da adolescente investigada após ser atingida por um tiro que entrou na narina e saiu pelo crânio, na noite de 12 de julho. A amiga de 14 anos é investigada como autora do tiro que matou a garota. A vítima morreu no local, antes da chegada do socorro médico do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

O inquérito deveria ter sido concluído e remetido ontem ao Ministério Público Estadual, mas a PJC-MT (Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso) informou que o delegado pediu prorrogação do prazo à Justiça, porque as investigações ainda não foram concluídas. A PJC-MT não informou a nova data para conclusão do inquérito.

Tiro frontal, mostra perícia

Segundo as análises periciais, a arma que disparou contra Isabele teve o gatilho acionado e, "no ato do disparo, o agente agressor posicionou-se frontalmente em relação à vítima, sustentou a arma a uma altura de 1,44 m do piso", revelou o documento.

O laudo pericial de necropsia no corpo de Isabele foi concluído no dia 22 de julho e apontou que ela morreu de traumatismo crânio-encefálico causado por tiro de arma de fogo.

Nos laudos entregues ontem, os peritos responderam tecnicamente aos questionamentos feitos pela polícia sobre o caso. A primeira pergunta foi se "a arma de fogo questionada pode produzir tiro acidental?". A resposta dos peritos foi "não".

"Nas circunstâncias alegadas somente se mostrou capaz de realizar disparo e produzir tiro estando carregada, engatilhada, destravada e mediante o acionamento do gatilho", explica o documento.

Os peritos informaram que realizaram cinco simulações para concluir o laudo, e a arma disparou apenas quando estava engatilhada e destravada, pressionando o gatilho.

A série de simulações ocorreu para averiguar a descrição feita no Termo de Declaração. Segundo a oitiva, a adolescente investigada relatou que a arma disparou quando a caixa em que ela estava guardada caiu no chão, acidentalmente, no momento em que a garota estava levando duas pistolas para guardar no cofre da casa.

Nota da defesa da adolescente

O advogado Ulisses Rabaneda, contratado para fazer a defesa da suspeita de atirar contra Isabele e do seu pai, disse que o laudo da Politec "em nenhum momento afirmou que o disparo da arma de fogo tenha decorrido de conduta intencional" e que o documento definiu, "com base em literatura sobre o tema, que o conceito de disparo acidental é aquele que decorre da deflagração de projétil sem acionamento do gatilho".

Na nota enviada ao UOL na noite de ontem, Rabaneda enfatizou que a análise pericial converge com a afirmação da adolescente de que "o gatilho foi acionado" e tal fato foi "admitido", em depoimento colhido pela polícia durante as investigações.

"A constatação do laudo de local de fato de que o disparo ocorreu a pequena distância e de maneira frontal, ao contrário do que sugerido em algumas publicações, não diverge da disposição fática do evento relatada por B. de O. C.", afirmou o texto de Rabaneda.

A defesa informou que ainda está analisando os laudos que foram concluídos e que podem "antecipar a existência de algumas imprecisões, as quais serão alvo de pedido de esclarecimentos em momento oportuno".

"Por outro lado, nunca foi cogitado na investigação que o disparo tenha ocorrido no momento da queda do case de armazenamento das armas, tendo sido afirmado por B. de O. C. que o evento ocorreu quando ela já se encontrava completamente em pé. Exatamente por esta razão o laudo de balística afirma que "o termo de declarações não cita que a arma AFQ1 produziu tiro em decorrência da queda", disse o advogado.

O texto finaliza enfatizando que ontem também foi concluído o laudo pericial de análise dos aparelhos de telefones móveis, cujo resultado apontou que a adolescente investigada e a vítima tinham "boa relação", bem como atestou que "não foram localizados dados referentes a qualquer intriga ou desavença."

A reportagem tentou contato por três vezes com o advogado Hélio Nishiyama, contratado pela família de Isabele, mas foi informada pela secretária de que ele estaria em uma reunião. Até a publicação deste texto, Nishiyama não retornou aos contatos.

Polícia investiga se cena da morte foi modificada

Isabele é filha do médico neurocirurgião Jony Soares Ramos, que morreu aos 49 anos, em 2018, em um acidente de moto na MT-251. A família afirmou que a adolescente tinha ido à casa das amigas fazer um bolo. A polícia investiga se a cena da morte foi modificada e se realmente Isabele foi atingida pelo tiro dentro do banheiro ou se foi colocada lá depois.

Em um telefonema para o Samu, o pai da adolescente suspeita de efetuar o disparo afirmou que Isabele tinha levado uma queda e batido com a cabeça no chão do banheiro. "Oi, rápido, a menina caiu no banheiro. (...) Tem muito sangue, está perdendo muito sangue. (...) Ela caiu e bateu a cabeça, está perdendo muito sangue, perdeu dois litros de sangue. (...) É que ela está perdendo muito sangue, se não vir rápido não vai sobrar. Bel, eu acho que ela está sem respiração, rápido", disse.

Praticantes de tiro esportivo

O empresário, a mulher e os três filhos do casal praticam tiro esportivo. A polícia afirmou que sete armas de fogo foram encontradas e apreendidas na casa do empresário. A PJC-MT disse que, do arsenal apreendido, apenas uma arma está em situação regular.

A arma cujo disparo matou Isabele estava irregular na casa do empresário, como também uma segunda pistola, que estão registradas no nome de outra pessoa. Elas pertencem ao pai do namorado da menor investigada. O namorado da adolescente tem 16 anos. As famílias são praticantes de tiro esportivo.

O namorado da adolescente suspeita de efetuar o disparo e o pai dele, que não tiveram os nomes divulgados, prestaram depoimento à polícia no último dia 20. O empresário e a filha foram ouvidos pela polícia no dia 14. Os conteúdos dos depoimentos não foram divulgados pela polícia.

O pai da adolescente foi preso em flagrante e indiciado pelos crimes de porte e posse ilegal de arma de fogo, além de fornecimento de arma a menor de 18 anos. O empresário pagou R$ 1 mil de fiança para responder na Justiça em liberdade provisória. O valor da fiança foi alterado por três vezes — majorou para R$ 209 mil, depois minorou para R$ 10 mil e, na última decisão judicial, foi para R$ 52,2 mil.

Na semana passada, o Ministério Público Estadual solicitou uma nova revisão do valor da fiança para 100 salários mínimos. A Justiça ainda não analisou o pedido.

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