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Criança de seis anos morre após ser picada por escorpião na Bahia

João Paulo Macedo, de seis anos, morreu após ser picado por um escorpião amarelo enquanto brincava  - Arquivo pessoal
João Paulo Macedo, de seis anos, morreu após ser picado por um escorpião amarelo enquanto brincava Imagem: Arquivo pessoal

Aurelio Nunes

Colaboração para o UOL, em Salvador

02/09/2020 21h06

Um menino de seis anos de idade morreu na última segunda (31) após ser picado por um escorpião na zona rural de Piatã, no interior da Bahia. João Paulo Macedo sofreu o acidente na noite do domingo (30), recebeu atendimento inicial no mesmo dia na sede do município, que fica a 536 km de Salvador, e foi transferido para o Hospital Regional da Chapada Diamantina (HRCD), onde morreu na manhã do dia seguinte.

"Meu filho enfiou a mão no buraco de uma árvore e chegou em casa chorando dizendo que tinha sido picado por marimbondo. Em questão de segundos começou a vomitar", lembrou a mãe da vítima, Evaneis Pereira Macedo, 24, que é moradora do povoado do Cochó e passava o final de semana com a família na casa da sogra, Glória, no povoado dos Porcos. Um tio de João Paulo identificou que o animal responsável pela picada, um escorpião amarelo, no alto do tronco da árvore.

A médica Mayana Passos Benévolo, 37, foi a responsável pelo primeiro atendimento à criança. Ela relata que João Paulo deu entrada na unidade às 20h05, duas horas após o acidente, sem conseguir abrir os olhos nem responder a solicitações verbais e com vômitos incoercíveis.

Imediatamente, Mayana acionou o Centro Antiveneno da Bahia (CIAVE), que a partir da identificação fotográfica do escorpião e do estado de saúde da vítima classificou o estado dele primeiramente como moderado e, depois, como grave e recomendou a aplicação de seis ampolas de soro antiescorpiano, o limite para a sua idade e peso.

A médica contesta as denúncias feitas por moradores nas redes sociais de que teria faltado medicamento apropriado para o tratamento de João Paulo e promete que irá acionar judicialmente todos aqueles que conseguir identificar como seus respectivos autores. Ela garante que a criança deixou o hospital municipal consciente e que estava otimista quando liberou sua transferência para o Hospital da Chapada.

"É espantoso o que aconteceu com esta criança. Saiu daqui estável, com frequência cardíaca de 116, reconhecendo a mãe, falando o próprio nome. Existe um limite para até onde a medicina alcança e eu estou trabalhando isso dentro de mim".

Segundo o clínico geral Oswaldo Aurelio Santana, 63, reviravoltas como estas são frequentes em casos envolvendo picadas de escorpião.

"Estas oscilações são comuns. O mais importante depois do atendimento inicial com o soro é prover ao paciente um suporte com medicamentos vasoativos e equipamentos de unidade de terapia intensiva", explica Santana, que é plantonista do CIAVE há 30 anos.

Família conseguiu matar escorpião amarelo que picou criança de seis anos no interior da Bahia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Família conseguiu matar escorpião amarelo que picou criança de seis anos no interior da Bahia
Imagem: Arquivo pessoal

Pela experiência, ataques de escorpiões são mais graves quando as vítimas são idosos, que são mais refratários aos tratamentos para controlar a dor, e crianças de até 7 anos de idade, que respondem pela esmagadora maioria de casos fatais.

"Isso ocorre porque o veneno do escorpião é essencialmente neurotóxico, e as crianças dessa idade ainda não têm as terminações neuronais totalmente desenvolvidas", explica.

Responsável pelo Hospital da Chapada, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, Sesab, recusou-se a comentar o caso. O HRCD não dispõe de UTI pediátrica. Segundo relatou a mãe de João Paulo, ao chegar à unidade, de madrugada, os médicos introduziram uma sonda para ele urinar, já que seus rins não estavam funcionando. Por volta das 9 horas da manhã, ele deu entrada na UTI para ser intubado. Foi a última vez que ela viu seu filho vivo.

"Às 10h30 uma psicóloga me chamou pra conversar numa sala reservada. Quando entrei já estavam lá dentro os dois médicos que atenderam meu filho. Eu sabia o que eles iam dizer, mesmo assim ouvi toda a explicação deles, que o veneno comprometeu os rins, encharcou os pulmões. Quando eles finalmente disseram que meu filho não resistiu eu desabei, eu saí de mim. Mesmo assim eu tive força pra fazer tudo sozinha: avisar minha família, acompanhar João Paulo no IML, velar o corpo dele. A única coisa que eu não consegui fazer foi vestir a roupa para o funeral ", contou Evaneis, emocionada.

À dor da perda misturara-se à do abandono, já que o pai biológico de João Paulo não assumiu a paternidade. Segundo conta Evaneis, o homem exigiu teste de DNA, mas no dia marcado não apareceu para realizar o exame. Quem ajudou criá-lo foi o atual marido, Antonio Valdonilson Oliveira, mas ele também não esteve presente no último adeus a João Paulo. Trabalhando como posseiro em uma fazenda do município paulista de Bauru, não teve como chegar a tempo do sepultamento do enteado. Evaneis não se queixa.

"O pai biológico de João Paulo nunca conheceu o amor de filho, mas meu filho conheceu amor de pai porque meu marido foi homem suficiente pra assumir esse papel", consola-se.

De acordo com os dados disponíveis atualmente no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), que ainda são preliminares, no Brasil foram notificados 154.812 acidentes por escorpião ocorridos em 2019, o equivalente a 58,3% de todos os acidentes por animais peçonhentos no país, com 169 óbitos.

Os três principais estados em frequência de acidente envolvendo escorpiões são: Minas Gerais (33.739 casos); São Paulo (28.059) e Bahia (18.622).

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