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Mortes de negros por violência física crescem 59% em 8 anos no Brasil

20/11/2020 - Carrefour da av. Pamplona, próximo à av. Paulista, em São Paulo, é depredado após morte de homem negro em filial de Porto Alegre  - Ettore Chiereguini/AGIF/Estadão Conteúdo
20/11/2020 - Carrefour da av. Pamplona, próximo à av. Paulista, em São Paulo, é depredado após morte de homem negro em filial de Porto Alegre Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF/Estadão Conteúdo

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

21/11/2020 04h02

As mortes de negros causadas por violência física cresceram 59% no Brasil em oito anos, uma incidência 45 vezes maior que a taxa medida em relação a cidadãos brancos no mesmo período, segundo dados disponíveis do DataSUS consultados pelo UOL.

O número anual de vítimas negras subiu de 694, em 2011, a 1.104, em 2018 — média de uma morte a cada sete horas. O total corresponde à soma das mortes por "agressão física usando força corporal" a dados sobre "agressão por meio de enforcamento, estrangulamento e sufocação".

O período analisado foi de 2011 a 2018. Os números de 2019 do SIM (Sistema de Mortalidade) ainda são preliminares e estão sendo fechados pelo Ministério da Saúde para entrarem em definitivo no DataSUS.

Nesses oito anos, o aumento registrado deste tipo de morte entre brancos foi de 1,3%. No caso dos negros, o salto foi de 58,9%, crescimento 45 vezes maior.

Para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros representam a soma de pretos e pardos. Eles são hoje 56,7% da população.

O recorde de mortes de negros ocorreu em 2016, quando foram 1.162 assassinatos por violência física. Entre brancos, o recorde da década ocorreu em 2017, com 571 crimes dessa natureza.

Crimes de ódio

O UOL apresentou os dados ao estudioso do tema Ivenio Hermes, que é coordenador de pesquisa do Obvio (Observatório da Violência) ligado à UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Para ele, não há dúvidas que a alta nesses crimes está ligada diretamente ao racismo.

"Essa violência se apresenta em crimes fora do comum, como são as mortes planejadas e os crimes praticados à distância com emprego de arma de fogo, por exemplo. Crimes de força corpórea têm no ódio interior a energia motriz", avalia.

"Esses crimes praticados com emprego da violência física são geralmente precedidos de uma agressão verbal. Eles dão fortes conotações do ódio e da intolerância que são fundamentadores do racismo estrutural em nosso país."

Segundo Hermes, a queda no número de homicídios iniciada em 2017 não se reflete igualmente na sociedade e deve ser alvo de análise cuidadosa.

"A violência no Brasil tem seguido uma lógica direcionada para as minorias, ou seja: enquanto muito tem se comemorado sobre reduções gerais de índices de violência, o mesmo não pode ser dito se voltarmos os olhares para alguns tipos específicos, como a violência contra as mulheres, contra minorias LGBTQ+ e minorias raciais, por exemplo", pontua.

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